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quinta, 22 de abril de 2021
Memória São-carlense

Os caminhos da Cidade Aracy

27 Jul 2018 - 07h00Por (*) Cirilo Braga
Os caminhos da Cidade Aracy - Crédito: Divulgação Crédito: Divulgação

Conheci a região da Cidade Aracy no verão de 1979. Alguém perguntará: mas nessa época por acaso havia Cidade Aracy? Não, não havia. Ela só passou a ganhar corpo a partir de 1983, trinta e cinco anos atrás.

Numa tarde de domingo de muito sol resolvemos ver o que existia além da região da capela de Santa Madre Cabrini. Meu irmão Tadeu, que na época morava na baixada do mercado, teve a ideia de fazer a incursão depois de levar minha mãe para rezar na capela. Raramente os passeios que planejávamos eram bem sucedidos. Naquela vez seria diferente e tudo aconteceu de bate pronto: depois do almoço, lotamos o carro e seguimos rumo ao extremo sul da cidade, para conhecer a chamada “Chácara Pedra Branca” (propriedade do homem do rádio, Leôncio Zambel) e suas cercanias.

O destino pareceu querer nos levar um pouco adiante. O Ford Corcel vermelho que nos conduzia simplesmente empacou no caminho de volta. Tudo porque resolvemos esticar o trajeto para chegar até uma lagoa que parecia um oásis ao final de uma descida que não acabava mais, percorrida por uma estrada que mais parecia uma acidentada trilha. Na volta, obviamente o carro patinava sobre piçarras, cenário que lembrava uma pista de motocross.Tadeu sempre muito prático pediu que subíssemos o morro a pé; só minha mãe permaneceu no carro, que depois de muito custo alcançou o topo.O sol castigava, mas o lugar era de uma vista panorâmica bastante agradável. A bela paisagem acabou compensando a aventura: somente quando todos estavam de volta foi que minha mãe largou o terço que havia puxado tamanho o seu medo, ao descer e subir a serra. O passeio valeu a pena, concluímos ao voltar ao centro da cidade. A sensação foi de que tínhamos viajado para longe sem sair de São Carlos.

Um ano depois, em 1980, a imobiliária Faixa Azul, que acabara de empreender o Jardim Tangará, voltava-se para aquela região lançando o novo loteamento social que transformaria tudo por ali, relegando o que vimos antes a um remotíssimo passado. Seríamos quase que dinossauros por ter conhecido o éden.

Curiosamente pude ver a mudança bem de perto, trabalhando em jornal nos anos que se seguiram. O loteamento inicial a partir da fazenda de Francisco Pereira Lopes. O comercial na TV anunciando “um novo jeito de morar”. A chegada mais tarde de levas e levas de migrantes, atraídos pela possibilidade de ter uma casa própria no Loteamento Social que ali se formou.

Lembrei que quando aluno da quarta série da Escola Álvaro Guião, em 1973, tinha ido ao sepultamento de dona Aracy Pereira Lopes, que daria nome ao bairro que surgia. Um bairro, não. Uma cidade. Um vasto núcleo urbano que espichou para além da serra onde patinou nosso carro naquela tarde de 1979. Era a nova periferia de uma cidade que passava a crescer acima da média estadual.

Em 1982 voltei ao bairro para acompanhar uma corrida de motocross na pista instalada no lugar onde se tinha a melhor vista da região. O fotógrafo que me acompanhava fez fotos incríveis. Mas estava sem filme na máquina. O futuro já não era como antigamente.

As pessoas começavam a chegar de Minas Gerais, dos estados do Nordeste e do norte do Paraná, e não exatamente para ver as motocicletas voarem a partir dos obstáculos. A doação de lotes mediante a limpeza de outros dois lotes criara uma espécie de eldorado da casa própria e o milagre da multiplicação se fez.

Em pouco mais de 30 anos haveria uma cidade feita de trabalhadores vindos de outros centros urbanos e também do campo, gente que de certo modo construiu ali “um novo jeito de morar” cumprindo a profecia do comercial de TV. Um novo jeito de morar que ensinaria desde o começo que é preciso ir à luta.

Desde a construção da casa em regime de mutirão, depois na batalha por infraestrutura, equipamentos públicos, palavras do jargão administrativo que seria preciso aprender. Leia-se: água, luz, esgoto, transporte. E o Caic já nos anos 90. A pracinha e o campo de futebol, que ninguém é de ferro. E até um cemitério.

As mobilizações resultaram na criação de uma Sociedade Amigos de Bairro, declarada de utilidade pública em 1995. No ano seguinte, os moradores elegeram um vereador, Idelso Marques de Souza (1962-2018), migrante vindo do Paraná, reeleito para outros dois mandatos e precursor da representação política da região.

Em 1997, o progresso da região justificou a edição da Lei Municipal 11.388, que autorizou a criação do Distrito de Cidade Aracy, abrangendo a área territorial que incluiu os núcleos I, II e os bairros Antenor Garcia e Presidente Collor. Antenor, que antes batizava o kartódromo, tornou-se o nome do Jardim Social e o ex-presidente em cujo acidentado governo instalou-se o Caic, virou nome de conjunto habitacional.

Ronald Golias foi ali homenageado com nome de praça em 2007. Educadores foram perpetuados na lembrança ao denominar escolas municipais e estaduais como a professora Enedina Montenegro Blanco, o professor Afonso Fiocca Vitalli e o professor Orlando Perez. O nome do estudante Lauriberto Reyes, morto durante o regime militar, foi atribuído ao Centro da Juventude. O saudoso professor Roberto de Araújo Rodrigues é o patrono do complexo esportivo instalado no bairro.

Ao refazer no ano passado o mesmo caminho de 1979, a partir da capela de Santa Madre Cabrini, revisitei anos atrás o bairro Antenor Garcia, no dia dedicado a Nossa Senhora da Rosa Mística, que ganhou uma pequena igreja na Rua 7. Uma rua de casas muito parecidas e aonde cheguei por indicação dos moradores que têm como ponto de encontro o salão da igreja.

Não era um dia comum, mas de festa. Outro domingo de sol, agora sem mais o lago que parecia oásis, mas o bairro onde vi a curiosa imagem de crianças acenando enquanto construíam castelos de areia, a própria metáfora da infância.

Há muitas metáforas por ali, como o próprio fato de precisar subir a serra para alcançar a “outra” cidade. Entre bares e igrejas, a maioria pentecostais, a esperança e a fé se movem. Há também supermercados, mercearias e um grande número de cabeleireiros a compor o panorama urbano. Sem falar na escola de samba, a Acadêmicos, que fez bonito em muitos carnavais, e até uma rainha da festa já foi originária de lá.

Nos dias de hoje, São Carlos talvez precise lançar um olhar para o jeito com que se expandiu a partir do centro. Que lições haveriam de ensinar o surgimento de bairros que circundavam a estrada de ferro no início dos anos 20 e o aparecimento dos bairros da região do Aracy, nos anos 80?

Certamente ensinariam muita coisa. “Periferia não é periferia em qualquer lugar”, concluiu a pesquisadora Milene Peixoto Ávila, que em sua admirável dissertação de mestrado dissecou o modo de vida em Cidade Aracy.

Há no cotidiano da periferia de uma cidade interiorana um cotidiano diferente das franjas dos grandes centros. Aqui não é preciso ir a um baile de rap para captar a realidade de seus moradores. Ela pulsa muito viva, indo muito além dos registros dos noticiários. A mídia ainda a enxerga de óculos escuros e vidros fechados.

Certa vez, participei de uma equipe de campanha política em que alguém recomendou ao candidato que não chamasse os bairros mais afastados de “periferia”. “Ninguém gosta de morar na periferia”, foi o argumento de quem nunca viveu num bairro afastado ou numa pequena cidade. A periferia tem seus segredos, tem suas redescobertas, tem sua identidade. Eu diria que sua cultura também e o jeito que cada morador arruma de ser feliz por conta própria.

Um levantamento feito em trabalho acadêmico verificou que de cada dez habitantes da Cidade Aracy, oito dizem gostar de viver na localidade. Acredita-se hoje que no bairro e seu entorno residam quase 1/3 da população de São Carlos e tanto assim que políticos já se animam a falar em emancipação político-administrativa.

A perspectiva aparentemente distante, como distante parecia ser o surgimento de um grande bairro naquela região algumas décadas atrás. Mas o distante não é improvável. Basta um olhar para a história e logo se percebe o quando ela se reedita. O grande bairro que nasceu com nome de cidade percorreu caminhos idênticos aos da própria cidade que o abriga, com todos os ingredientes políticos, econômicos e sociais tão familiares ao jeito brasileiro de implantar núcleos urbanos. Onde não faltam os sonhos de migrantes em busca de seu lugar no mundo – gente com um jeito próprio de acreditar que as coisas podem ser feitas de outra maneira e que vale a pena tentar.

(*) O autor é cronista e assessor de comunicação em São Carlos  (MTb 32605) com atuação na Imprensa da cidade desde 1980. É autor do livro “Coluna do Adu – Sabe lá o que é isso?” (2016).

Esta coluna é uma peça de opinião e não necessariamente reflete a opinião do São Carlos Agora sobre o assunto.

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