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domingo, 18 de abril de 2021
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MEMÓRIA SÃO-CARLENSE: O simbolismo da “Praça da Catedral”

27 Out 2017 - 03h38Por (*) Cirilo Braga
Foto: Arquivo Pessoal - Foto: Arquivo Pessoal -

Não há nada mais interiorano que a Praça da Matriz. Ou da Catedral, como dizemos em São Carlos. Na verdade a Praça Coronel Paulino Carlos de Arruda Botelho.

Um ponto de partida ou de chegada, recanto especial para muitas gerações de são-carlenses. O "Jardim Público", antigo jardim da casa do Conde do Pinhal, foi criado para ser um "ponto de lazer para a sociedade são-carlense". Com suas árvores frondosas, chafarizes e uma profusão de monumentos é, ainda, hoje um lugar onde num só instante sopram brisas do presente, do passado e do futuro.

Brisa é uma palavra que diz algo mais para todo são-carlense, de nascimento ou de fé. Nos tempos das apresentações de bandas de música e do tradicional "footing", a cidade construída sobre três colinas e a 850 metros de altitude, orgulhou-se do privilégio da brisa soprada do sul. Tanto assim que a "Festa do Clima", criada nos anos 1960, teve a Praça como seu tradicional recinto para a famosa exposição nacional de orquídeas.

FAZENDEIROS E IMIGRANTES

O que define a praça algo além de um nome próprio é o uso que se faz dela. Isso em qualquer parte. Os registros oficiais revelam a sua origem no ano de 1895, mas não dão conta de dizer do significado que ela tem para a cidade. O ano da chegada dos maiores contingentes de imigrantes marcava uma era em que a luz se fez. E outras luzes ali atravessaram os anos, saídas não só das luminárias da praça.

O entorno do Jardim foi o local preferido de residência dos grandes fazendeiros no final do século 19, fase áurea do período cafeeiro. Os palacetes do Conde do Pinhal, construído pelo engenheiro italiano Pietro David Cassinelli, e de Bento Carlos de Arruda Botelho, reluzem ainda hoje. Já o casarão do Major Manuel Antonio de Mattos deu lugar ao Fórum Criminal, inaugurado em 1959.

Originalmente um coreto com telhado em forma de cone era o palco de bandas de música que nos finais de semana reuniam as pessoas, muito antes da invenção da televisão. Acredite: nos primeiros anos do século 20, em que havia forte rivalidade política entre as famílias Botelho e Salles, até a preferência por bandas musicais era motivo de briga.

PANCADARIA

A história registra que os botelhistas, chamados de faustinos, eram declarados partidários da Banda Popular, formada por músicos italianos, sob a regência do maestro Antonio Mugnai, mestre de música da escola Dante Alighieri. Já os sallistas, apelidados de bicheiros, eram entusiastas da Banda Brasileira, de artistas exclusivamente da terra, dirigida por outro componente músico, o professor Theotonio Leite.

Fato é que numa estrelada e fria noite de domingo, em 24 de julho de 1904, a rivalidade ferveu defronte o coreto do Jardim Público. A Banda Brasileira fazia uma retreta quando, por qualquer motivo, um italiano "esquentou as orelhas" de um tocador de bumbo rival.  Resumo da ópera: rolou uma pancadaria homérica que se estendeu até a madrugada, obrigando o intendente Dr. Gastão de Sá a "suprimir temporariamente a música do Jardim Público aos domingos".

Este foi apenas um registro de que nem só de flores se fez a história da tradicional praça.

Houve ainda outros contratempos.  Em 1960, a queda de uma árvore danificou seriamente o chafariz de mármore instalado pelo intendente Belarmino Indalécio de Souza, com um repuxo de água ornamentado em mármore italiano e cercado por uma piscina de alvenaria.

LEÕES E GOLFINHOS

O tempo rodou num instante e nos anos 1970 não mais havia o footing dos avós genuinamente "san-carlenses", que  preferiam o Largo S.Benedito e a Praça Coronel Sales. Os bondes que circularam na avenida já repousavam havia anos numa garagem da Vila Nery. Porém, persistia o chafariz principal, reformado e com figuras estilizadas de leões e golfinhos no centro da praça, no lugar do antigo coreto. Ele avisava que aquele não era um ponto qualquer no mapa da cidade.

O cheiro das orquídeas se misturava com o da fumaça dos hambúrgueres da lanchonete. Ou da pipoca, ou do incenso da benção ao final da procissão de Corpus Christi.No cafezinho do Bar do Arnaldo se via o prefeito Antonio Massei  em pessoa. E nas proximidades se encontrava o lendário João Babão.

MONUMENTOS

Repleta de sinais, a praça guarda lembranças. O busto de Bento Carlos de Arruda Botelho instalado no lado da rua 13 de maio, defronte à antiga residência dele; a placa patrocinada pelo Rotary, fincada na Avenida São Carlos onde a rainha da Bélgica colheu uma rosa em 1920; e o monumento a Anita Garibaldi, construído pela comunidade italiana em 1910.

A vida são-carlense se traduziu naquele ponto da cidade, tantas vezes restaurado sob o olhar do fundador, o Conde do Pinhal, cuja estátua contempla o palacete onde ele morou e que nos primeiros anos do século passado sediou o Colégio São Carlos, das freiras vindas da França.

O amor dos poetas Clóvis e Cecília Pacheco foi ali eternizado.As cinzas do casal se misturaram. "Partiste na primavera e com teus olhos um cego vai saber como é uma flor", escreveu ela, que se foi dez anos depois dele, em 1993. Ambos converteram a praça no caderno onde escreveram o melhor verso. Cultivaram juntos e pra sempre o que chamaram de "a flor da verdadeira vida".

ONTEM E HOJE

Bancas de revistas, de churros, de caldo de cana, de fotos 3x4 e lanchonetes passaram por ali ao longo dos anos. Uma figueira centenária foi cortada no início dos anos 80, quando a Praça, de tão bem conservada, ganhava elogios de ninguém menos que o Conde Anton Wolfgang von Faber-Castell,presidente da fábrica de lápis Faber Castell, numa de suas inúmeras vindas à cidade.

A praça foi revitalizada em 2005, com a recuperação do chafariz, das esculturas, reforma do quiosque e nova iluminação e outros serviços de manutenção e restauro se sucederam. O chafariz, que havia sido alvo de reparos no início de 2017 foi recentemente destruído. Vândalos que o atacaram não apenas ignoraram as frases escritas na redoma de vidro no entorno do monumento: "Preserve o patrimônio público".  Eles também ignoraram a história e  todo o simbolismo deste marco tão caro à memória do povo de São Carlos.

Esta seção tem enfoque na memória coletiva de São Carlos e disponibiliza espaço para relatos e fotos de fatos e locais da cidade em outros tempos. O material pode ser enviado para: memoriasaocarlense@gmail.com.

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