Menu
terça, 26 de janeiro de 2021
Colunistas

MEMÓRIA SÃO-CARLENSE ESPECIAL 160 ANOS: Um lugar para lembrar

04 Nov 2017 - 03h21Por (*) Cirilo Braga
Foto: Arquivo Pessoal - Foto: Arquivo Pessoal -

Quem vai embora não aguenta de saudade e um dia volta, mesmo que para uma visita ligeira. Sente a brisa de São Carlos assim que ingressa na rodovia Washington Luís. E já fica feliz antes da chegada, uma felicidade que anuncia o reencontro com pessoas e paisagens que fazem parte da sua história.

Os antigos diziam que quem bebe da água da Biquinha não pode mais viver fora de São Carlos, referência à nascente de água encontrada pelo padre Joaquim Botelho da Fonseca no final do século XIX, ali na esquina do atual Teatro Municipal, achado que mais tarde foi compartilhado com os moradores da cidade.

Voltar é ter a certeza de estar no aconchego da própria casa, onde se pode andar de chinelo, ir muitas vezes ao bar da esquina, reclamar da vida, reparar nas mudanças feitas aqui e ali. O que é bom e bonito ou nem tanto, ganha cores novas, pintadas com pincel da alegria de retornar e dar de cara com nítidas recordações que nunca foram embora.

Quando alguém toma o rumo de uma das saídas da cidade, de imediato tem a sensação de que um dia voltará a percorrer essas ladeiras, a sentir na face o vento sul, a cruzar seus olhares com os dos são-carlenses da gema, gente de gestos largos, um leve acento italiano no falar, entremeio ao "r" peculiar e uma hospitalidade imensa.

Ainda na estrada, em cujas margens o cerrado deu lugar ao cultivo da cana, aquele que retorna pensa na São Carlos de outros tempos, nas transformações deste lugar e logo se dá conta de que o velho encanto nunca se dissipou. A alma da cidade das fábricas, como a CBT, a Pereira Lopes, as Indústrias Facchina, a Serraria Santa Rosa, das escolas como a Normal, Dante Alighieri, D.Pedro II e dos bondes da CPE, continua viva nas lembranças que vão além de uma oficina, uma chaminé, prédios antigos, um terreno vazio na esquina ou a visão do bonde da saudade ao antigo "Balão da Vila Nery".

O são-carlense, designação que vale para os que aqui nasceram e para os que aqui chegam, aprende a gostar desta cidade e a admirá-la como se admira uma mulher: colocando em alerta os sentidos todos diante do seu brilho.

A visão da Catedral Diocesana é a maior referência; o cheiro de café das antigas torrefadoras da baixada do mercado permanece guardado; o som do apito das fábricas não menos; o gosto da manteira da Cooperativa de Lacticínios de São Carlos, do lanche "prensadão" e da pizza de alface, nativos da terra; o toque das mãos e o abraço, ensinados pelos italianos e árabes "tutti buona gente" e "brimos" que ajudaram a tornar esta cidade o que ela é.

Há também a visão dos novos condomínios de luxo e de locais como o Science Park, o cheiro da coluna de jabuticabeiras da Fazenda Pinhal, o som do hino à cidade, nem tão conhecido, das festas do TUSCA; o gosto da macarronada da "mamma" que não se encontra em restaurantes, o frugal sabor dos bandejões das universidades; o toque proibido nas orquídeas premiadas da Festa do Clima e nos experimentos da semana de óptica. Estamos na "Capital da Tecnologia", que já foi do Clima, do Sorriso e em tempos remotos a "Princesa do Oeste".

Quem regressa procura pelo cachorro quente da Maria, pergunta se ainda existem: o poço da "Cica", sim, o bolo da dona Miloca, o Pirilampo - sim -, o Biro-Biro, o Bar Pistelli, o Café do Centro - não. O raviolli da Hero e o pão de mel da Serrazul não. A geladeira Climax, não. Os Tapetes e Toalhas com nome da cidade, sim. Os infalíveis tratores CBT "made in Brazil", não. Os lápis e canetas da Johann Faber, sim.

Se há muito tempo a Piscina Municipal é um retrato na parece, o que foi feito da revoada das pombas, do Cine Avenida e dos bailes da Abasc? Diria que todos estão como os antigos moradores os guardam, num compartimento feliz e sempre visitado da memória. Mal ou bem a Praça Coronel Salles segue ali, com sua pérgola figurativa, o museu da tecnologia em homenagem a Mário Tolentino e o polêmico monumento em homenagem a Maurren Maggi. Metáforas de uma cidade acostumada a saltar em distância.

O são-carlense que por algum motivo precisa ir morar longe, quando volta, de novo bebe a água do ribeirão do Feijão, como uma poção mágica que faz sentir que vive dentro de si a própria cidade. Uma pessoa pode ser um habitante a mais no contingente dos que vivem em São Carlos, mas a cidade haverá de ser sempre única no seu universo pessoal. Nunca anônima ou mais uma entre tantas outras, mas uma cidade especial, porque testemunha um pedaço da caminhada de cada um.

Por mais longe que vá, o são-carlense de nascimento ou afinidade carrega com ele as ruas, os cenários, as casas, as vilas, os prédios, as árvores, os córregos, as praças e os tipos humanos. O amanhecer, o entardecer, as noites. O clima das quatro estações num só dia. O jeito de dizer "eu passo de lá" ou o costume de esperar o "ônibus das horas e dez", de tudo se lembra quando se está distante.

E então, procurando algum registro, alguma notícia, alguma imagem pela internet, mata-se a saudade saboreando algo que possa construir um coreto imaginário para fazer recreio na rotina. Como um sorvete igual ao dos tempos da sorveteria Romanelli. Não raro a máquina do tempo ganha forma de um sorvete ou tem os acordes de uma canção que faz o link com outras épocas. Como "Disparada" na voz de Jair Rodrigues, filho dileto destas paragens: "Prepare o seu coração/ pras coisas que eu vou contar/eu venho lá do sertão/eu venho lá do sertão/e posso não lhe agradar".

Muita gente que mora muito tempo aqui, custa a reconhecer que ficou porque gosta muito deste lugar. Só por isso e nada mais. Difícil dar o braço a torcer e admitir com todas as letras que vem do coração essa escolha. Muitos dão mil razões para seguir vivendo em São Carlos, algumas muito distantes do motivo real, que é simplesmente a vontade de não ir embora.

E quem por alguma razão está muito longe jamais se afasta da cidade, batizada com nome de santo e, como tal, sempre abençoa os que aqui desembarcam e os que se vão - o melhor da cidade, convenhamos, nunca se perde no cotidiano de cada um.

comments powered by Disqus

Leia Também

Últimas Notícias