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quarta, 08 de abril de 2020
Dia a Dia no Divã

Intoxicação eletrônica em crianças de 0 a 3 anos

24 Fev 2020 - 07h00Por (*) Bianca Gianlorenço
Intoxicação eletrônica em crianças de 0 a 3 anos -

Estamos na era da hiperinformação e a introdução cada vez mais precoce de crianças e bebês aos aparelhos eletrônicos, apontam para um fenômeno contemporâneo ligado a saúde psíquica, as intoxicações eletrônicas.

Esse nível de intoxicação pode gerar sérias consequências no reconhecimento do próprio corpo, na percepção do mundo ao redor, no enfrentamento de desafios da vida, na construção de laços sociais, e no caso de bebês, talvez o mais grave de todos, no risco a constituição psíquica.

Toda reformulação de tecnologias convida a reconstrução de nossas formas de cuidado e educação de crianças. .

Vivemos tempos da virtualidade das relações, independentemente da idade. A exigência de estar permanentemente on-line inaugura uma forma de convívio onde as pessoas podem estar de corpo presente, mas, psiquicamente ausentes, olhando cada um para sua janela virtual, distante do mundo a sua volta.

Crianças entre zero e dois anos, expostas a eletrônicos desenvolvem uma ligação extrema com a presença do outro, representado pela oferta de imagens atraentes e estimulação auditiva ou sensorial adaptada às demandas da criança. Esta espécie de chupeta eletrônica não apenas traz prejuízos para a formação do sistema viso-motor ou da atenção, ela introduz uma novidade intersubjetiva, a crença de que o outro está sempre disponível, sempre “presente”.

Os hábitos familiares ligados aos aspectos cotidianos como dormir, comer, passear, estão sofrendo modificações a partir do uso das mídias digitais. A cena de encontrar em restaurantes as crianças com um tablet ou celular, ambos usados como entretenimento na hora da refeição, ou mesmo sendo usados quando os pais se deslocam no trânsito para que a criança não tenha qualquer incomodo, são alguns exemplos do que estamos vendo atualmente. Passear de carro, viajar de ônibus ou mesmo ficar no carrinho de bebê, deixam de ser vivenciados quando se coloca qualquer imagem de telas à frente da criança: os deslocamentos, os barulhos, as conversas, os problemas, as chatices, as esperas, a tolerância, as relações dos comportamentos dos que estão em volta, as filas, nada disso é percebido pela criança. Ela não experimenta o que se passa nessas situações, pois está absorvida pela tela.

O que entra em jogo nestas e noutras situações é uma adulteração das relações entre demanda, necessidade, prazer e satisfação. A criança vidrada na tela durante esses acontecimentos cotidianos, faz com que não haja espaço entre a demanda e a satisfação, portanto, também para desenvolver a criatividade nesse espaço (o que faço nesse momento de espera, de tédio, de buraco?), consequentemente, nessa impossibilidade de administrar o tempo e as realidades à volta, ocorrem desequilíbrios entre as frustrações e a tolerância necessária que as relações exigem, tanto com o “outro” e consigo mesma.

Uma das principais características do mundo digital é o seu poder de super estimulação visual em detrimento de todos os outros sentidos. A luminosidade que emana, seu super colorido e os movimentos de seus objetos e personagens, impõem a criança uma dificuldade maior também para se desligar dessa super estimulação. É a criança “vidrada”, “fascinada" que é bem diferente da criança “atenta”. A audição normalmente fica submetida a músicas em tempo binários e movimentos acelerados e bidimensionais que muito mais ajudam a criança ficar "mais vidrada", e do modo algum se configuram como uma sonoridade que facilite a discriminação auditiva, excluindo portanto a relação com o prazer musical.

Um bebê que olha um adulto, precisa de tempo para conseguir fazê-lo, para compreende-lo. E ele precisa olhar com cuidado nos detalhes para se relacionar, imitar, ter afetos, aprender, pois trata-se de um diálogo afetivo, postural, subjetivo. O adulto recebe do bebê ações que o convocam quase sempre a proteger e acolher a cada vez de modo diferente, promovendo diferentes sentidos. A repetição de imagens que independam das ações do bebê prejudicam seus processos de identificações, podendo torná-lo rígido e estereotipado nas relações. Além do que, o ritmo, nas relações com as telas, quase sempre é determinado pelas telas e por seus personagens, nada que a criança faça, sinta ou expresse com seu sorriso ou choro, modificará as reações dos personagens.

O uso das telas para que os adultos não precisem dar limites, dizer “não”, acompanhar e educar, tem trazido prejuízos à construção de limites corporais e também das relações com autoridade. A criança “quieta" porque está distraída, entretida ou fascinada com uma imagem, não é uma criança educada, é somente uma criança passiva em frente às telas. Da mesma maneira uma criança “agitada” é somente uma criança que está tentando chamar atenção mesmo que negativa sobre si mesma, pois essa “agitação” é também aprendida nas imagens em movimento acelerado nas telas. Não existem pausas e nem descanso para o relaxamento e as mudanças entre o que é o começo e o que é o final de qualquer tarefa das rotinas diárias (a diferença nas brincadeiras e nas rotinas entre o “acabou” e o “de novo”).

Desde bebê, esse tipo de uso impede que a criança apreenda e experimente quais são seus próprios limites corporais e o que não pode fazer e diferencie do que é permitido fazer. O limite é dado artificialmente por uma entidade externa aos cuidadores importantes da criança e não existe um “NÂO” ou só existe quando o equipamento é desligado ou desconectado da “fonte de energia”, mas nenhuma criança é “on-off” como se fosse uma máquina.

O uso de mídias digitais por crianças de 0 a 3 anos de idade num período fundamental de crescimento e desenvolvimento cerebral e mental é prejudicial e portanto, não se recomenda o oferecimento de telefone celular ou smartphone como um “brinquedo” ou “distração”. Nada substitui a criação das brincadeiras pela própria criança. O inventar dos jogos, as fantasias isso tudo é comprometido quando algo já vem pronto através de uma tela!

(*) A autora é graduada em Psicologia pela Universidade Paulista. CRP:06/113629, especialista em Psicologia Clínica Psicanalítica pela Universidade Salesianos de São Paulo e Psicanalista. Atua como psicóloga clínica.

Esta coluna é uma peça de opinião e não necessariamente reflete a opinião do São Carlos Agora sobre o assunto.

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