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terça, 26 de janeiro de 2021
Memória São-carlense

Homero Frei, “poeta do Brasil”

21 Set 2018 - 07h01Por (*) Cirilo Braga
Homero Frei, “poeta do Brasil” - Crédito: Divulgação Crédito: Divulgação

“Entre uma voz que sonha e outra que sabe/ O poema é apenas parte do silêncio/Que entra nos homens para que eles gritem/ Que sai do poeta para que ele nasça – /Ao fim do ramo das palavras mortas - /Terra, semente, sol e rosa!”

Homero Frei, o autor desses versos, segue vivo na força de sua poesia, embora não esteja mais morando na Vila Prado. Sua morte, no dia 21 de setembro de 2008, deixou mais pobre o nosso universo das palavras.

“Cada palavra é a voz de uma semente/Feita de chuva adormecendo a terra;/Um sol exato que amanhece a gente/ Toda vez que doer nos anoitece”. Sopro da criação do poeta que dedicou a vida a fazer essa semeadura.

O compulsar das páginas dos jornais da cidade de décadas passadas, permite notar a generosidade do homem que partilhava com leitores dos periódicos os versos de alguém que teve a serenidade como aliada da inquietude.

Diziam seus contemporâneos que havia nele sutilezas daquelas que revelam e enobrecem. Quem de perto o acompanhou, soube. E se há muitos que o admiram e à sua obra, sobram razões a todos.

Frei em alemão é o mesmo que “free”, livre, notou o professor Newton Ramos de Oliveira, que com ele trabalhou no Escritório de Governo em São Carlos durante a gestão do governador Franco Montoro, no início dos anos 80, “uma época de muita amizade no local de trabalho”. “Homero não foi um bom poeta são-carlense, foi um ótimo poeta do Brasil”, comentou.

Autor de “Interior do Tempo” e de Hai-Kais como em “Azul, claro!”, reconhecido pela qualidade de seus sonetos e também pelo trabalho que desenvolveu como crítico literário, Frei exerceu em São Carlos a função de diretor do Departamento de Educação e Cultura, chefe da Biblioteca Municipal, chefe do Museu e da Escola Maria Ramos.

“Só um homem só” - obra emblemática do seu trabalho -, traz uma coletânea de contos e textos curtos, que contam passagens de vidas, fragmentos intensos e plenos de significado. Também no terreno da narrativa, Frei demonstrou a habilidade de um autor que teve quatro livros de poesia publicados. Foi um privilégio rever sua imagem, dia desses, num documentário veiculado pela TVE São Carlos, revelador da naturalidade do poeta.

A obra “Soneto Brancos”, da qual extraí os versos do soneto “Procuração” que principia este artigo, foi aclamada por Tristão de Athayde, que a seu respeito escreveu: “Não é objetivo. Nem subjetivo. Não é o seu Eu que encontro nesses poemas. Nem o mundo ambiente, sua paisagem, seus problemas. É a poesia como entidade entre o Eu e o Mundo. É dentro de duas medidas que eu chamaria de Metamorfose e de Multiversidade”.

Ainda Tristão de Athayde: “Homero Frei é, sem a menor dúvida, um poeta dos mais autênticos. Posso dizer, um dos maiores. Coloca-se, a meu ver, na linha da Poesia Pura, como Paul Valéry a procurava”.

Que mais dizer da dimensão do literato que partiu antes da chegada da primavera? Primavera que nesse ano despontou chuvosa, cinzenta – como se pranteasse a partida daquele homem simples que escreveu o magistral poema “Pátria Vocabular”:

“Quando a vida esqueceu que era um caminho/ Fiz de seus bens um Povo de Palavras/ E, seu primeiro líder,  convoquei-as/Para a estranha assembleia da beleza/ Mandei semear o som/ Rasguei estradas/ No chão do amor/ Abri escolas de alma/Organizei o exército dos verbos/ E dei um Deus à trôpega Esperança!/ O estrangeiro que chega aos meus poemas/Passa em revista a Guarda das Imagens/E recebe a Grã-Cruz da Ordem do verso/Só não sabe que um dia eu fui deposto.../Desde esse dia esta nação floresce/Na fecunda traição do seu silêncio...”

Nascido em São Carlos no dia 25 de abril de 1924, Homero Frei formou-se professor primário pela Escola Normal “Álvaro Guião” em 1948.

Casou-se com Diva Rodrigues Frei com quem teve dois filhos, Marcos Frei e Fernando Frei. Homero ficou viúvo e posteriormente se casou com Rosa Isabel Lozano. Ele foi autor de sete obras e, atualmente, é estudado e admirado por diversos linguistas.

Entre 1961 e 1967 foi Chefe da Seção de Instrução Primária, Educação e Cultura (incluindo as escolas rurais) e também excepcionais. De 1968 a 1970 foi Chefe da Seção de Biblioteca, Museu histórico e Pinacoteca, responsável pela organização da Biblioteca, pelo ordenamento e catalogação dos livros. Em 1970 dirigiu o DEC e entre 1973 a 1983 foi Assessor do Conselho Municipal, em 1983 foi Assessor do DEC e em 1985 prestou serviços no Escritório Regional de Governo em São Carlos. Faleceu em 21 de setembro de 2008 aos 84 anos.

Já em 2009, um ano após sua morte, Frei foi homenageado pelo Sistema Integrado de Bibliotecas de São Carlos (SIBI), ligado à Secretaria Municipal de Educação, na 5ª edição da Estação Leitura. A homenagem incluiu divulgação da vida e obra em todas as bibliotecas do SIBI, com um painel sobre o homenageado e exposição de alguns livros de sua autoria.

Em 29 de novembro de 2014, foi inaugurada o Cemei que leva o nome de Homero Frei, localizada na Rua Francisco Lopes, s/n, no bairro Santa Felícia, denominação oficializada pela Lei Municipal No.15.233/10. Ato de reconhecimento e gratidão que eternizou a inspiradora lembrança da importante participação do poeta na educação e cultura de sua terra natal.

(*) O autor é cronista e assessor de comunicação em São Carlos  (MTb 32605) com atuação na Imprensa da cidade desde 1980. É autor do livro “Coluna do Adu – Sabe lá o que é isso?” (2016).

Esta coluna é uma peça de opinião e não necessariamente reflete a opinião do São Carlos Agora sobre o assunto.

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