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sábado, 06 de março de 2021
Dia a Dia no Divã

É psicológico

17 Fev 2020 - 07h00Por (*) Bianca Gianlorenço
É psicológico -

- Não é nada, é psicológico.

- Você não tem nada, é emocional.

- Você está bem, está tudo na sua cabeça.

- Tira isso da cabeça.

Quem é que nunca ouviu uma frase destas? Como se algo psicológico não tivesse importância, é só deixar de pensar, de focar, que algo psicológico desaparece.

Pois não é bem assim!

Se foi você que falou algo assim para outra pessoa imagino que se sentiu bem, pois acreditou estar dando a “solução” para os problemas dela. Mas quando foi você que ouviu uma destas frases imagino que pode ter sentido alguma raiva além da sensação de desolamento e incompreensão por parte de pessoas que muitas vezes eram consideradas sua esperança em encontrar solução.

Estas frases demonstram um certo desrespeito pelo sofrimento alheio.

Ter um problema psicológico não significa que faltou “força de vontade”.

Ter uma depressão não significa que a pessoa “quer sofrer”.

Ter síndrome do pânico não significa que todos os sintomas passarão se esta pessoa “souber que não tem problemas em seu corpo, mas tem em sua mente”.

Ser portador do TOC – transtorno obsessivo - não significa que para ficar curada ela deve “apenas parar de fazer o que vem fazendo”.

Ser bipolar não significa que a pessoa “precisa se controlar”.

Um problema de ordem emocional – mental – comportamental, enfim psicológico, deve ser respeitado e tratado como qualquer doença.

No consultório percebemos isso através da quantidade de pessoas que comparecem para entender o que é psicologia e psicoterapia. A própria pessoa que sofre, muitas vezes, não tem consciência do que seria o atendimento psicológico.

Não há muitas pessoas que ao cortar o dedo avalia a necessidade de um curativo, ela sabe que precisa. Mas quando o corte está “invisível a olho nu”, ou seja no âmbito psicológico, alguns avaliam e reavaliam a necessidade de buscar tratamento.

Por quê?  Porque não temos uma cultura voltada ao cuidado com a Saúde Mental!

PODEMOS CONSIDERAR A NECESSIDADE EM TRATAMENTO PSICOLÓGICO QUANDO:

- Há prejuízos em qualquer nível seja ele pessoal, social, emocional, financeiro, etc.

Sendo assim, pense em uma pessoa com depressão. Muitos chegam ao ponto de incapacidade profissional, pois a depressão pode impedir o raciocínio claro, a tomada de decisões. Outros quadros emocionais podem tirar totalmente a motivação, a vontade de estar com pessoas e o sofrimento pode impedir de fazer até mesmo sua própria higiene pessoal. Uma pessoa com síndrome do pânico pode deixar de sair de casa. Negar o problema a estas pessoas é negar direito à tratamento.

O que me faz sentir muito pesar é que a alguns dos quadros psicológicos pode ser melhor atendido quando tratado no início. Claro que sempre haverá tratamento em qualquer fase, mas para que adiar?

Só depois de algum tempo é que a família pode perceber que a pessoa não se curará sozinha, e que as broncas para “levantar a cabeça e dar a volta por cima” não funcionam.

Muitos comportamentos tidos como naturais, como por exemplo o tímido que não consegue namorar ou mostrar em sua empresa todo seu potencial podem ser auxiliados no processo de psicoterapia.

Problema emocional, dificuldades comportamentais, problemas mentais podem ser estigmatizados pela sociedade. Mas são questões psicológicas que merecem ser tratadas.

O medo da própria fragilidade emocional pode fazer as pessoas desrespeitarem a fragilidade alheia. Pois se você considera que é possível para qualquer ser humano ter problemas psicológicos você terá que admitir que você também está no risco. 

Usamos o termo é tudo psicológico para reduzir a importância das dores, sensações e doenças. Uma alergia, por exemplo, que tenha fundo emocional, muitas vezes não tem tanta importância quanto aquela causada por uma fator externo.

É preciso ter cuidado com o uso da frase “é psicológico” e estar atento ao fato de que a mente está ligada ao corpo.

Se você percebeu que algo é psicológico, não ignore, procure ajuda de um psicólogo!

(*) A autora é graduada em Psicologia pela Universidade Paulista. CRP:06/113629, especialista em Psicologia Clínica Psicanalítica pela Universidade Salesianos de São Paulo e Psicanalista. Atua como psicóloga clínica.

Esta coluna é uma peça de opinião e não necessariamente reflete a opinião do São Carlos Agora sobre o assunto.

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