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sexta, 23 de abril de 2021
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DIA A DIA NO DIVÃ: Você sabe o que é acompanhamento terapêutico (AT)?

13 Nov 2017 - 02h29Por (*) Bianca Gianlorenço
Foto: Marcos Escrivani - Foto: Marcos Escrivani -

O Acompanhamento Terapêutico é um trabalho clínico que visa promover a autonomia e a reinserção social, bem como uma melhora na organização subjetiva do paciente, por meio da ampliação da circulação e da apropriação de espaços públicos e privados.

O AT é indicado para aqueles que se encontram em uma situação de sofrimento psíquico intenso, por vezes em condição de isolamento e com grandes dificuldades para conduzir sua vida e seus projetos. É um recurso utilizado tanto em estados de crise aguda, como em períodos crônicos de angústia e estagnação. O trabalho clínico se desenvolve através de encontros cujo campo de ação é o cotidiano dos sujeitos acompanhados, e um fazer em comum, por meio do qual o paciente pode encontrar uma maneira de conduzir sua vida de forma mais autônoma. Os atendimentos podem acontecer em casa e/ou em outros espaços da cidade como cinemas, lanchonetes, shoppings, teatros, escolas etc. O setting terapêutico não é a clínica, o psicólogo acompanha o paciente que apresenta dificuldade de relacionamento e convívio social, devido a comprometimentos emocionais, limitações físicas, sensoriais e/ou dificuldade de aprendizagem.

O A.T. funciona como um intermediário, um interlocutor, um agente facilitador, auxiliando o sujeito em situações limites. O foco do trabalho está na ação, é no fazer que se vai implementar a intervenção do acompanhante terapêutico, e como o próprio nome sugere, esse profissional oferece um acompanhamento de perto em algumas atividades do indivíduo, oferecendo uma escuta terapêutica quando esta necessidade se apresenta.

O AT pode beneficiar qualquer pessoa, de qualquer faixa etária, desde que seja necessário desenvolver comportamentos que sejam mais dificilmente explorados em contexto clínico. Também é indicado para pessoas que tenham restrições físicas para se locomover até o consultório, pacientes pré e pós cirúrgico, portadores de necessidades especiais, dependentes químicos, pacientes psiquiátricos ou que se recusem a frequentar a terapia no consultório.

Com ajuda do AT, o paciente é encorajado a iniciar um contato com o mundo, fazer amigos, participar de atividades sociais. A prática do AT é uma atividade que pode propiciar maior mobilidade, uma aproximação do universo do paciente com o das demais pessoas. Essa prática pretende oferecer ao indivíduo a possibilidade de transitar por diferentes dimensões da vida, em um movimento de transformação e crescimento.

Como surgiu o AT?

Em meados de 1960, na Europa, iniciava-se um movimento psiquiátrico que visava humanizar os tratamentos de pacientes considerados doentes mentais e que estavam asilados da sociedade. Esse movimento foi marcado por mudanças de paradigma. Passou-se a considerar que o "isolamento" de um paciente em um hospital psiquiátrico seria prejudicial ao seu tratamento, favorecendo assim, a cronicidade dos efeitos impostos pela doença mental.

Alguns psiquiatras da época defendiam que a reinserção social do paciente psiquiátrico seria o propulsor da melhora do indivíduo com sofrimento psíquico. Acreditavam, contrapondo-se a outros movimentos psiquiátricos de sua época, que o ser humano deveria ser considerado em sua totalidade biopsicossocial.

Foi então que em alguns países, em especial na Inglaterra, com Laing e Cooper, e na Itália, com Basaglia, iniciaram-se os trabalhos de desospitalização, com a ajuda de técnicos que se instrumentalizaram para acompanhar os pacientes em sua reintegração social.

Devido à mudança de paradigma no tratamento de pacientes psiquiátricos na América Latina, especialmente na Argentina em meados de 1970, o psiquiatra, Eduardo Kalina introduziu uma nova modalidade de atendimento em saúde mental: o acompanhamento terapêutico (AT).

Assim como na Argentina, esse movimento apareceu no Brasil, por volta da década de 70, percorrendo dois trajetos: primeiro passa por Porto Alegre e chega ao Rio de Janeiro, sendo conduzido por Carmem Dametto. No segundo momento, chega a São Paulo na companhia da psicanalista argentina Beatriz Aguirre, uma das fundadoras do Instituto "A Casa" em 1979.

Hoje no Brasil, alguns famosos, utilizam esse serviço, como por exemplo, o ex jogador de futebol, Casagrande, buscou o A.T. como um dos recursos na luta contra as drogas.

O tempo de cada atendimento pode ser variável e deve ser previamente combinado com o cliente. A frequência e a duração dos atendimentos diminuem conforme a melhora do paciente.

O acompanhamento terapêutico deve ser oferecido por profissionais qualificados, que vão promover a escuta e conduzir o tratamento de forma eficaz, fora do contexto clínico.

(*) A autora é graduada em psicologia pela Universidade Paulista. CRP:06/113629, especialista em Psicologia Clínica Psicanalítica pela Universidade Salesianos de São Paulo e Psicanalista. Atua como psicóloga clínica. Sugestões: biagian@hotmail.com.

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