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sexta, 25 de setembro de 2020
Cirilo Braga

Cronista do SCA publica texto em homenagem a São Carlos

04 Nov 2018 - 11h06Por Cirilo Braga
Cronista do SCA publica texto em homenagem a São Carlos - Crédito: OWL Drones Crédito: OWL Drones

O aroma da cidade se guarda na memória das antigas chaminés das torrefadoras de café da baixada do mercado municipal. O gosto também é o de um bom café passado na hora numa de suas esquinas.O som é aquele do apito da fábrica que antigamente anunciava novas manhãs.O clima é o de sempre, feito da boa e velha brisa e da incerteza se vai chover ou continuar fazendo Sol. A imagem é a marcante cúpula amarela de sua Catedral. Ou a impagável expressão facial de Ronald de Golias, o filho mais famoso.

“Surpreender-se é começar a entender”, dizia a frase grafitada num muro perto de casa, quando desembarcamos vindos de Boa Esperança no começo dos anos 1970.

Pude compreender, tempos depois, que se tratava de um epitáfio da São Carlos de um passado que não conheci. Foi substituída e aquele era o momento da mudança.Entre edifícios de tom pastel, surgia uma outra cidade.

Não há lugar que deixe de revelar a alma de seu povo e confessar,mais cedo ou mais tarde, a sua genuína identidade.As cidades da arquitetura pós moderna guardam semelhanças tantas que parecem cópias umas das outras. Porém São Carlos tem sutis diferenças. É singular desde sempre ao colocar um olho no futuro e outro no passado. É a cidade dos casarões e da tecnologia, dos doutores e dos trabalhadores da lavoura e das indústrias, da Festa do Clima e do Festival Chorando sem Parar.

A cidade que nasceu na primavera seduz calmamente. Em pouco tempo aqui é possível estar conjugando o verbo sãocarlar sem se dar conta. Destino de quem bebe dessa água e, se consegue ir embora, um dia volta.

Uma das qualidades de São Carlos é permitir que os são-carlenses, de nascimento, fé e teimosia, construam cada um o seu universo particular. É como um caderno novo à espera de nossas histórias. E todos têm uma receita própria para extrair, aqui e acolá, o néctar de viver em um lugar onde cabem muitos outros lugares. As colinas que formam vales e os humores do clima colaboram. O mundo inteiro diz que o clima do planeta enlouqueceu, mas aqui isso é notícia velha. Mais precisamente de meados dos anos 1960, quando Antonio Stella Moruzzi, um são-carlense que amou este lugar concebeu a Festa do Clima, para saudar o zigue-zague do tempo.

Amiga de uma boa polêmica, que de resto tem origem na sua própria história, São Carlos tem queda para o debate.Até hoje não se chega a conclusão alguma sem que se estabeleçam homéricas discussões, entre gestos largos e um sotaque meio puxado para o italiano.Sorte que tudo acaba em pizza.

Meio Peter Pan, meio irmã da gente, São Carlos tem indicadores sociais acima da média nacional, mas um breve caminhar pelas ruas repletas de retalhos no asfalto e pontos de parada de ônibus na maioria sem abrigo ou placas informativas a revela uma cidade tipicamente brasileira. Tem índios, bandeirantes, nobres donatários e imigrantes no seu DNA. “Entende-la é começar a surpreender-se” digo eu, parafraseando o grafite.

Abro a janela para olhar a cidade, em mais um aniversário dela.A janela é como um espelho que reflete o que somos. A cada novembro ficamos mais são-carlenses e um pouco narcisos a olhar detidamente o nosso próprio rosto na imagem da cidade. Assimilamos um pouco a alma de Golias.

Ô Cride, fala pra mãe que São Carlos aos 161 anos segue fazendo soprar como um afago a velha brisa matinal, nos dando sempre uma imaginária sensação de que lhe falta algo mais. Bobagem. Na verdade o que a cidade carece – em seu espaço concreto, abstrato e simbólico – é de algo muito simples: o carinho da gente.

(*) O autor é cronista e assessor de comunicação em São Carlos  (MTb 32605) com atuação na Imprensa da cidade desde 1980. É autor do livro “Coluna do Adu – Sabe lá o que é isso?” (2016).

 

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