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quinta, 22 de outubro de 2020
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Como contar as crianças sobre a separação do casal

06 Ago 2018 - 07h00Por (*) Bianca Gianlorenço
Como contar as crianças sobre a separação do casal -

Esse assunto costuma gerar um grande desconforto para o casal, pois ele vem rodeado de tabus, como “meu filho vai ficar traumatizado”, “ele vai me odiar”, etc.

Não é possível evitar o sofrimento dos filhos, afinal, a noticia é triste mesmo. Mas com respeito e diálogo é possível mostrar que não será o fim do mundo e que vocês continuam formando uma família.

Os pequenos precisam entender que a culpa da separação não é deles, pois é assim que eles se sentem no início. É preciso deixar claro que a separação foi entre o casal e não entre pais e filhos, que eles continuarão se vendo, porém pai e mãe, estarão em casas separadas.

As crianças percebem quando as coisas não estão bem, para muitas presenciar brigas, ou ver o sofrimento dos pais, é pior do que realmente chegarem ao consenso de que realmente não dá mais. Sem contar que brigas constantes afeta diretamente a saúde mental das crianças, abordei esse assunto anteriormente. Deixar a criança no meio do fogo cruzado poderá ser desastroso para seu desenvolvimento emocional. Mais importante do que ter uma família nos moldes patriarcais (pai, mãe, filhos,) será constituir um lar harmonioso, com dialogo, respeito, carinho e amor.

O casal precisa se organizar emocionalmente para poder conversar com os filhos, não adianta na hora da raiva querer tentar explicar algo. É importante que eles conversem entre si primeiro, busque todas as estratégias e alternativas para a resolução dos seus problemas. Somente depois de tomada a decisão final sobre a separação, e como vai acontecer, é que se deve conversar com a criança. É preciso transmitir confiança e muitos casais não tem certeza da separação ou de como vão fazer isso e acabam passando informações demais para os filhos, que ainda não possuem desenvolvimento cognitivo para entender tudo o que está acontecendo.

É interessante levar em consideração que falar a verdade não significa dizer tudo o que sente a respeito do outro na relação, mas simplesmente falar o que interessa a criança.

Como, onde e quando contar?

Escolha um local agradável para a criança, em casa, ou outro ambiente, o importante é ser um local onde ela se sinta à vontade para questionar, conversar, se abrir. O ideal é que os pais estejam juntos, pois isso evita que a criança sinta que está perdendo um deles.

Usar frases como as citadas abaixo ajuda a criança entender melhor a situação.

“Nós decidimos que a partir de hoje seremos apenas amigos”,

“Nós amamos muito você”,

“Você poderá ver o papai e a mamãe quando quiserem”

Só resolvam contar realmente para as crianças quando estiverem preparados, pois se começarem a contar e caírem em lágrimas a criança entenderá que isso não é bom, pois elas associam o choro a algo negativo.

Expliquem que a relação de pai e mãe é diferente de marido e mulher, o ideal é utilizar frases assertivas como:

“Quando somos adultos namoramos e casamos, mas pode ser que a gente decida não namorar mais e foi isso que aconteceu com a gente, mas você continuará sendo filho do papai e da mamãe e nós estaremos sempre aqui para você”.

Diga apenas o que a criança quer saber:

É importante tomar cuidado para não falar coisas que a criança não está sentindo ou perguntando, isso é muito comum em função do sentimento de culpa dos pais e do medo intenso de magoar a criança. Então é melhor falar sobre o assunto e ouvir a criança, o que ela pensa, suas dúvidas, inseguranças. A partir daí se desenvolve o diálogo dentro da capacidade de entendimento dela.

Evite tentar descobrir o que a criança está sentindo, com frases do tipo:

“Eu sei que você está triste”

“Eu sei que vai ser difícil no começo

“Se você quiser chorar tudo bem”

Deixe a criança se expressar naturalmente, se ela começar a chorar, acolham e quando ela se acalmar retomem o assunto.

Como fica o psicológico da criança:

Se a situação do casal é conflitante a repercussão no desenvolvimento da criança será mais intenso.

O sofrimento psíquico dessa criança poderá se manifestar através da baixa auto-estima, dificuldades com limites, regressão no desenvolvimento infantil, agressividade, dificuldade de interação ou isolamento social, etc.

Em casos mais graves podem evoluir para uma depressão infantil que inclui perda de interesse na família, nos amigos, no brincar e pode gerar até uma auto-agressão.

A condução do divórcio pelo casal vai influenciar diretamente na relação da criança em meio a tantas mudanças. Existem pais que fazem da separação um segredo, erradíssimo, pois a criança poderá ficar muito angustiada por não saber exatamente o que está acontecendo.

Outros usam a criança como um troféu em relação a outra parte, aproveitando-se desse momento para seu próprio benefício.

Quando um dos pais não aceita a separação, a criança poderá assumir de forma implícita a missão de unir o casal novamente.

Já a criança que tem um bom vínculo com ambos precisa de um tempo maior para conseguir assimilar esse corte afetivo.

Os pais precisam assumir um controle emocional para conseguir demonstrar naturalidade na conversa, se não conseguem falar sozinhos é aconselhável que procure a ajuda e um psicólogo, para preparar a criança e também para auxiliá-los a elaborar a situação caso ainda seja difícil conduzir.

(*) A autora é graduada em Psicologia pela Universidade Paulista. CRP:06/113629, especialista em Psicologia Clínica Psicanalítica pela Universidade Salesianos de São Paulo e Psicanalista. Atua como psicóloga clínica.

Esta coluna é uma peça de opinião e não necessariamente reflete a opinião do São Carlos Agora sobre o assunto.

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