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domingo, 20 de junho de 2021
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Coluna de Rui Sintra: A perseguição

28 Jul 2015 - 08h55Por Rui Sintra - Colunista
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Pelo fato de não estarmos sós no mundo e de convivermos abertamente com outros povos, outras culturas e outras realidades, sempre estamos sujeitos a elogios ou críticas, consoante a nossa própria atuação. Isso tanto vale para o cidadão comum, quanto para um conjunto de cidadãos, quanto para uma nação inteira e, neste caso, quase que é uma regra global - excluindo-se, claro, casos pontuais (de alguma forma sinistros) como o da Coréia do Norte, ou de um ou outro que ainda possa eventualmente existir dentro desses parâmetros. E o Brasil, como grande Nação que é - essencialmente devido ao seu povo - não está imune a comentários, análises elogios ou críticas mais ou menos azedas.

Tudo isto a propósito do editorial intitulado Recessão e corrupção: a podridão crescente no Brasil, publicado pelo prestigiado jornal britânico, Financial Times que, em sua edição de 23 de julho, considerou o atual panorama do Brasil como uma espécie de um filme de terror sem fim, enfaticamente sublinhando que a incompetência, arrogância e corrupção quebraram a magia do país. As citações vão para a presidente Dilma e seu governo, com questionamentos dirigidos também ao ex-presidente Lula, acerca de um eventual tráfico de influências em contratos no exterior da construtora Odebrecht, e, claro, para o presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha, citado por um delator da operação Lava-Jato.

Até aqui, nada de novo. Ou seja, o Financial Times tem todo o direito de noticiar e de fazer críticas a quem quer que seja - no seu próprio país, no Brasil e no mundo -, assim como nós, brasileiros, temos o direito de nos insurgir, criticar, dar risada e tirar o sarro do fato de um famoso político "Lorde" britânico ter sido flagrado (filmado), ainda no decurso desta semana, cheirando cocaína com duas garotas de programa e trajando roupas íntimas femininas. É óbvio que, ao contrário do que acontece por cá, ele não tem foro privilegiado: foi obrigado a pedir demissão do cargo e a polícia tomou conta do caso... Ponto final!

Contudo, por cá, o povo brasileiro precisa ter doses infinitas de paciência e de esperança tênue, até porque, como diz a presidente da república "estamos em um ano de travessia (embora ninguém saiba ainda onde vai dar essa bendita travessia - se direta para o paraíso, se para o inferno, ou se para o deserto)". Também por cá, já são poucos aqueles que tendem a ter uma dose ampliada de complacência, quando ouvem o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirmar que "a esquerda no Brasil está sendo perseguida que nem judeus no nazismo, ou que nem cristãos pelos romanos". É óbvio que o ex-presidente certamente deverá ter dito isso no âmago de um discurso improvisado mais acalorado, pois é pouco provável que ele não tenha lido sobre esses temas através de obras consagradas e de cunho histórico-documental. O fato é que a esquerda no Brasil não está sendo perseguida, não está sendo encurralada em guetos, não está sendo assassinada sumariamente e cremada em fornos, não está sendo despojada de seus bens patrimoniais, não está sendo apartada de seus familiares, não está sendo objeto de pesquisas físicas, não está sendo chicoteada e crucificada. O que de fato está acontecendo é que a esquerda (a do PT!) no Brasil, está, sim, sendo abandonada por todos, inclusive pelos seus próprios correligionários e o que causou essa debandada das hostes já é do conhecimento de todos. Temos de estar de acordo com as opiniões do Financial Times ou com qualquer outro meio de comunicação? É óbvio que não!!! Aliás, é da discussão de ideias contrárias que sempre nasce a luz! Agora, afirmar, por exemplo, que esse jornal sempre foi hostil para o Brasil, como alegou o Ministro da Defesa, Jaques Wagner, numa tentativa de servir de escudo missionário e heroico ao governo e à presidente, é algo surrealista. Tão surrealista quanto o fato de ele estar visivelmente adormecendo enquanto a presidente da república discursava durante a reunião realizada com o presidente Obama e com seus conselheiros, na sua mais recente viagem aos Estados Unidos. É só rever o vídeo dessa reunião e ver o nosso nobre Ministro sentado atrás da presidente. Haja paciência!!!

(*) O autor é jornalista correspondente

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