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sábado, 04 de abril de 2020
Artigo Rui Sintra

“A Insustentável Leveza da Estupidez” - A praça de alimentação na Praça do Mercado - Era o que faltava!!!

15 Fev 2020 - 07h00Por (*) Rui Sintra
“A Insustentável Leveza da Estupidez” - A praça de alimentação na Praça do Mercado - Era o que faltava!!! - Crédito: Divulgação Crédito: Divulgação

Não quero denegrir o famoso conteúdo filosófico presente na obra “A Insustentável Leveza do Ser”, de Milan Kundera, muito menos ensombrar (nem teria capacidade para isso) a extraordinária imagem daquele que foi um dos mais proeminentes escritores checos do Século XX.

Contudo, algo me leva a citar a obra acima, nomeadamente pela característica do autor, onde também nela ele se propõe “sair” do texto original, tecendo comentários paralelos filosóficos e/ou psicológicos sobre suas narrativas, sobre suas histórias.

Mas, o que tem a ver Kundera e a “Insustentável Leveza do Ser” com a construção de uma praça de alimentação na Praça do Mercado, em São Carlos? Nada!! Rigorosamente nada!!! Contudo, “A Insustentável Leveza da Estupidez” é um título que, pessoalmente, me impele a imaginar uma história ou uma cena de um pequeno filme onde eu participo, mas dentro do subgénero teatral - Tragicomédia.

“Eram 19 horas de um dia no futuro, após uma violenta chuva (quase dilúvio) e eu estava sentado numa cadeira relativamente velha, de costas voltadas para o portão principal do Mercado Municipal de São Carlos, dentro do meu velho bote. Já tinha lido e relido centenas de vezes o documento relativo à “Concorrência Pública N.° 01/2020 - Processo Administrativo N.º 29173/2019”, para a construção de 4 (quatro) boxes no Mercado Municipal de São Carlos, para instalação da “Praça da Alimentação”, e pensado várias vezes “quem foi o asno que idealizou isto?”. Meus pensamentos foram momentaneamente interrompidos pelo ronco dos motores de dois jetskys, que mesmo na minha frente descreveram uma curva suave, provocando pequenas ondas e que, como em um bailado, arrastaram algumas peças de roupa. Meu olhar se ergueu um pouco mais, focando em uma dezena de pessoas que arduamente tentavam salvar alguns pertences de uma das lojas perto dali. Mais para a esquerda, distante, vislumbrei uma viatura da Defesa Civil. Consegui ver que o motorista bocejava, aguardando que a água baixasse, enquanto que um pouco mais para baixo alguém se arriscava a nadar naquela água barrenta, com centenas de detritos e lixos vários boiando. Baixei o olhar e pensei comigo mesmo “Quem foi o asno que idealizou isto?”.

Olhei para o céu, coberto de nuvens, dobrei o citado documento da “Concorrência Pública”, publicado anos antes, coloquei ele no bolso e suspirei fundo, levantando-me vagarosamente da cadeira, dobrando-a e colocando-a no fundo do bote. Das janelas dos boxes, cujas persianas estavam dobradas devido à força das águas, escorregavam vagarosamente para o exterior sanduíches, pasteis, pratos, copos, latas de refrigerante, frascos de especiarias, etc.. “Que desperdício, mais uma vez!”, pensei eu, preparando os remos para vagarosamente sair daquele local. Remei lentamente, evitando alguns carros parcialmente imersos, cruzei a loja de aluguel de equipamentos de mergulho e de venda de jetskys. No caminho, me questionei com mais vigor “Quem foi o asno e o ignorante que idealizaram isto”. Cheguei em minha casa, localizada em um segundo andar, e antes de me deitar dei uma olhada no valor do IPTU. Exclamei “PQP!””

Atualmente e sem ser na ficção, ainda sob as lágrimas de quem perdeu quase tudo na Baixa de São Carlos, lança-se agora uma Concorrência Pública para a construção de quatro boxes para uma Praça de Alimentação. Certamente não serei eu que irá comprar um e tenho pena de quem o fará.

(*) O autor é Jornalista profissional / Membro da GNS Press Association (Alemanha) / Correspondente internacional freelancer.

Esta coluna é uma peça de opinião e não necessariamente reflete a opinião do São Carlos Agora sobre o assunto.

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