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quinta, 20 de junho de 2019
Memória São-carlense

A cidade das casas de café

14 Jun 2019 - 07h00Por (*) Cirilo Braga
A cidade das casas de café - Crédito: FPMSC/Divulgação Crédito: FPMSC/Divulgação

As casas de café proliferam na cidade, espalhando o aroma inigualável de um apreciado produto que percorre a história de São Carlos. Fechando os olhos diante da xícara de café, dá para imaginar um cenário repleto de pessoas elegantemente trajadas, os bondes vermelhos da CPE circulando pelas ruas e uma permanente brisa a soprar sobre as três colinas de São Carlos.

Não seria exagero se em vez do “Venho dos Bandeirantes”, escrito em latim no brasão de armas no município, constasse “Venho do Café”.

O café influenciou na formação da cidade desde a primeira metade do século 18, duas décadas antes da fundação de São Carlos, quando o pioneiro das terras do Pinhal, Carlos José Botelho, o Botelhão plantou na Sesmaria os primeiros cinco mil pés da planta.

O resto da história a gente já sabe: os escravos africanos sustentaram a produção das fazendas. O ouro verde trouxe a ferrovia, influenciou a política e fez a riqueza dos Barões do Café, em cujas propriedades trabalharam os imigrantes, em especial os italianos.

Em 1928, no Almanach de São Carlos a Torrefação Paulista na rua Jesuíno de Arruda, anunciava um “produto muito puro, o melhor de todo o Estado”.

“Pelo seu grau de pureza” – dizia – “é muito delicioso, porque não contém excesso de cafeína que é sempre amargosa e muito excitante dos nervos e do coração”. 

E concluía fazendo um solene convite: “Experimentai o nosso café e não vos arrependereis, podemos afiançar”.

Nos anos 1960, líderes de indústrias importantes do diversificado parque fabril são-carlense se reuniam no prosaico “Bar Pistelli”, de Ernesto e Irmãos, para trocar ideias, conferir os indicadores econômicos ou simplesmente bater descontraídos papos matinais.

Na mesma época, o Café Brasília, na Avenida São Carlos, defronte ao Hotel Accacio, tinha decoração alusiva à nova capital do país. A casa era requintada, “o tampo do balcão e a estrutura de madeira eram creme, e parede externa almofadada com tapeçaria bordô e no centro algum detalhe em creme” recorda ainda hoje Alfeo Rohm, um de seus frequentadores de então. “As banquetas eram altas com o assento almofado, as paredes internas tinham molduras na cor creme, fundo bordô e no centro o logo de Brasília”.

Além do café, a atração era um chocolate quente sem igual. “Não adiantava fazer em casa que não ficava igual”. Tradicional vento sul são-carlense parecia ameno quando se estava diante de uma xícara desse chocolate quente.

O Brasília teve vida curta, contudo no seu auge concorreu com bares tradicionais do centro da cidade na época, que ficava ali pertinho: o Bar São Paulo, na esquina da Avenida com rua Sete de Setembro, e o Café do Centro, onde hoje se localiza a farmácia Raia, na Avenida.

Ainda que as casas esmerassem no conforto dos clientes, muitos deles apreciavam se posicionar ao lado do balcão, seguindo a tradição do princípio do século 20, quando figuras da elite política e intelectual batiam ponto na Casa Arruda, na rua Conde do Pinhal, no local conhecido por “Caldeirão”. Ali pontificavam entre os habitués, personagens como Amadeu Amaral, Tiago Masagão, o juiz Octaviano da Costa Vieira e seu cunhado, o famoso escritor Euclides da Cunha, o Major José Inácio, Casemiro Guimarães, Geminiano Costa, Gastão de Sá, Serafim Vieira de Almeida entre outros.

Gosto de me lembrar da São Carlos que conheci nos anos 1970, a então Capital do Clima, que já possuía duas universidades e um delicioso aroma soprado pelas chaminés das torrefadoras na região do mercado.Na região estavam instaladas as torrefações do Café Ouro Brasileiro, dos Zavaglia, na Rua Geminiano Costa, e do  Café Novaes, na Rua Jesuino de Arruda. Eram tempos do  Café Yará, dos Dragueta, na Rua Tiradentes, e o Café Villani, na Rua Bento Carlos.

O Bar Pistelli, as padarias Venezia dos irmãos Margarido, e Caruso faziam as honras da casa, esbanjando tradicionalismo. Os sanduíches deliciosos – era digno de nota o “bauru do Pistelli” – se faziam acompanhar, nos bares tradicionais, do café tirado na hora e das notícias também saídas do forno e estampadas em murais.

A família Conti mantinha dois cafés, o do Sebastião, na Rua Major José Inácio e o Bar do Conti na Rua Sete de Setembro, quase defronte à Câmara Municipal, como lembra o amigo Alfeo Rohm.

Os anos 1980 trouxeram o Café com Letras Bar e Livraria, o Café Concórdia e o Dona Julia – na única esquina da cidade com nome próprio: Marino Pellegrini, do antigo Bar São Paulo.

O Café com Letras gerou similares em outros cantos, porque se a literatura, a música e a arte reúnem pessoas, em especial no outono não haveria pedida melhor que um café para celebrar essa reunião. Disso já sabiam os mentores de bares-símbolos do legítimo “café com prosa”, como o Café do Centro e seu toque revolucionário. A resistência ao regime de exceção passava ali pelas cercanias da Praça Coronel Salles. Assim como o dom de oratória dos juristas de plantão foi atração do “Bar do Arnaldo” ali ao lado do Fórum.

Na virada dos anos 1970-80, o colunista Aduar Dibo, frequentador do local onde encontrava amigos, informava em sua coluna dominical que no Bar do Arnaldo eram servidas cerca de seis mil xícaras de café por mês.

No Café Concórdia, na Avenida São Carlos, costumava se apresentar o cantor Zezinho Santilli, “a voz de ouro”. Em junho de 1981, ele reuniria os amigos no local para o lançamento do LP “Zezinho Santilli Especial” pela gravadora Califórnia. Bons tempos!

Hoje em dia, uma profusão de novos empreendimentos no ramo busca reviver a era dos cafés – lugar ideal para se reunir, trocar ideias ou simplesmente dar uma pausa na rotina.

Espaços onde São Carlos, de certa forma, encontra-se com seu passado. O cardápio pode ficar mais sofisticado, assim como a mobília, o layout da casa e as variações no servir do produto. Mas o café, acompanhado do clima singular da cidade, estimula o hábito saudável da convivência e da boa prosa. Toda divergência, afinal, é dissipada na fumaça saída da xícara onde se deposita a bebida que, para Talleyrand, deveria “estar quente como o inferno, ser negro como o diabo, puro como um anjo e doce como o amor”.

(*) O autor é cronista e assessor de comunicação em São Carlos  (MTb 32605) com atuação na Imprensa da cidade desde 1980. É autor do livro “Coluna do Adu – Sabe lá o que é isso?” (2016).

Esta coluna é uma peça de opinião e não necessariamente reflete a opinião do São Carlos Agora sobre o assunto.

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