Menu
quinta, 12 de dezembro de 2019
Memória São-carlense

Nelson Prudêncio, o homem que superou barreiras no esporte e na academia

15 Nov 2019 - 07h00Por (*) Cirilo Braga
Nelson Prudêncio, o homem que superou barreiras no esporte e na academia - Crédito: A Folha/Veja/PLACAR/CMSC Crédito: A Folha/Veja/PLACAR/CMSC

O dia 18 de setembro de 1972 foi de muita festa em São Carlos, na recepção ao atleta Nelson Prudêncio - então morador da cidade - que acabava de realizar um grande feito: a conquista para o Brasil da medalha de bronze no salto triplo nos Jogos Olímpicos de Munique. O clima de carnaval se justificava plenamente: formado um ano antes pela Escola Superior de Educação Física de São Carlos, Prudêncio reafirmava o brilho de um excepcional atleta olímpico, que em 1968 conquistara a medalha de prata no México. Um ano antes, foi também o dono da prata nos Jogos Pan-Americanos de Winnipeg.

Registre-se o fato de Prudêncio haver protagonizado no México em 1968 a mais eletrizante final do salto triplo na história: ele, o soviético Viktor Saneyev e o italiano Giuseppe Gentile, na ocasião quebraram o recorde mundial nove vezes durante a disputa, que resultou no ouro para Saneyev, prata para Prudêncio e bronze para Gentile.

A glória de Prudêncio era um orgulho para a cidade de São Carlos que via crescer a fama de “celeiro do esporte” graças à atuação da escola superior de educação física fundada em 1949, que então já contava com atleta medalhista olímpico entre seus alunos. Reconhecida pela excelência na formação de professores de educação física e técnicos esportivos, a instituição atraía estudantes de várias regiões do país e passaria a viver o seu auge.

Um dos maiores nomes da história do esporte brasileiro, Prudêncio contribuiu muito para o prestígio da escola. Isso já era evidente na tarde daquela ensolarada segunda-feira em que desfilou pelo centro da cidade. Aos 28 anos, não havia dúvidas de que estava plenamente incorporado a São Carlos, cidade que adotou como sua.

Um aspecto marcante de Prudêncio na carreira acadêmica que seguiu foi sua dedicação em formar bons profissionais de educação física e atletas, aliada à busca por produzir conhecimento que ajudasse o Brasil a se destacar no atletismo. Para tanto, ele se capacitou: a partir da graduação em 1971, obteve o mestrado pela USP e o doutorado pela Unicamp.

Nascido em Lins, foi agraciado com o título de Cidadão Honorário de São Carlos em 1997, homenagem que transcendeu à sua notoriedade como atleta: constituiu-se no reconhecimento do ser humano notável, capaz de gestos de generosidade e desprendimento presentes na vida de um homem sempre otimista.

Adhemar Ferreira da Silva, seu antecessor nas glórias do salto triplo o prestigiou comparecendo à cidade quando Prudêncio foi homenageado. Assim também seu sucessor João Carlos de Oliveira, o João do Pulo, o visitava, como fez em 1975, ano em que este despontava como recordista mundial de salto triplo nos Jogos Pan-Americanos do México.

Nelson Prudêncio pensava além de produzir atletas de alto rendimento: queria estimular a prática esportiva e, nesse intuito, idealizou a Pista de Saúde da Universidade Federal, que se tornou um ponto de referência na cidade.

Certamente a maior conquista do atleta e professor foi seu triunfo na vida acadêmica, num período de escassa presença de negros nos bancos de cursos superiores no país. Havia, porém, a infatigável determinação de quem se especializara em quebrar barreiras. Professor do departamento de educação física e motricidade humana da Universidade, como docente e coordenador do curso, foi um exemplo de dedicação aos alunos, às aulas e à ética profissional.

Seus colegas na Universidade admiravam sua bela história como atleta e mais ainda sua conduta como pessoa: humilde, parceiro para todas as iniciativas e sempre muito disponível a colaborar.  Maurren Maggi,  medalhista de ouro no salto triplo nos Jogos Olímpicos de Pequim em 2008, orgulhava-se de sua amizade e ensinamentos, tal qual os alunos transformados em discípulos do professor, homenageado ainda em vida com a criação da "Cross Campus Nelson Prudêncio", corrida anual que tem como objetivo incentivar a prática da atividade física no espaço dos campi da UFSCar e integrar as comunidades interna e externa à instituição.

Ao falecer na madrugada de 23 de novembro de 2012, vítima de um câncer no pulmão descoberto ainda naquele mês, Nelson Prudêncio - então vice-presidente da Confederação Brasileira de Atletismo -, remetia suas conquistas e seu exemplo para o panteão dos maiores atletas brasileiros de todos os tempos. Partiu feliz o homem sereno que costumava acordar os filhos cantarolando:  ‘Bom dia amigo, bom dia irmão, basta um sorriso e cante essa canção’.

A Confederação Brasileira de Atletismo, em nota resumiu a dimensão da perda: “O Brasil ficou menor. Em um país com poucos expoentes nas mais diferentes áreas de atividade, acabamos de perder uma das raras referências históricas de nosso desporto.

“Deixou-nos o Mestre Nelson Prudêncio, duas vezes medalhista olímpico, recordista mundial do salto triplo, professor universitário, doutor, dirigente maior, conselheiro das novas gerações de desportistas, companheiro leal e participante sempre presente na luta pelo desenvolvimento da modalidade que tanto engrandeceu.

“Educador nato, em todos os sentidos, homem de conciliação, jamais utilizava uma palavra áspera para se referir a pessoas ou fatos. Com sua fala cadenciada e pensamentos sempre elaborados com precisão, às vezes usando de fina ironia, transmitia com naturalidade seus conhecimentos e suas ideias, quer no exercício da cátedra quer no contato diário com aqueles que dele se acercavam.”

(*) O autor é cronista e assessor de comunicação em São Carlos  (MTb 32605) com atuação na Imprensa da cidade desde 1980. É autor do livro “Coluna do Adu – Sabe lá o que é isso?” (2016).

Esta coluna é uma peça de opinião e não necessariamente reflete a opinião do São Carlos Agora sobre o assunto.

comments powered by Disqus

Leia Também

Últimas Notícias