História

Matsuri nasceu da vontade da comunidade japonesa de manter tradições

Depois de chegar a São Carlos em 1910 para atuar na agricultura, orientais passam por diversas fases e se rearticulam no Século XXI com uma festa tradicional

17 MAI 2026 • POR Da redação • 11h00
O Matsuri: evento destaca cultura, música e costumes dos japoneses e mantém via suas tradições - Divulgação

A festa Matsuri, que terá sua 15ª edição realizada neste fim de semana na FESC, em São Carlos, nasceu em 2008, há 18 anos, da vontade da comunidade japonesa de manter tradições, mas também de uma pesquisa realizada pela Fundação Pró-Memória entre os anos de 2004 e 2012.

A historiadora da Pró-Memória, Leila Massarão, conta que os japoneses em São Carlos, mesmo sem formarem uma comunidade representativa em número de pessoas, têm uma participação muito ativa no comércio local, nas universidades e na produção de hortifrútis. “É uma comunidade que trabalha bastante. Eles chegaram em São Carlos em 1910 para cultivar arroz em Santa Eudóxia. Foi no início do Século XX que as primeiras famílias japonesas vieram para cá. Depois, eles acabaram se estabelecendo principalmente no que chamamos de cinturão verde, ou seja, os vários sítios que cercam a cidade, onde se produziam verduras, legumes e bicho-da-seda”, destaca ela.

Mais à frente, segundo Leila, este grupo vai se incorporando à cidade, principalmente com a Associação Nipo-Brasileira de São Carlos, criada em 1949. O grupo vai se articulando e se envolvendo com a cidade. Eles tinham times de futebol e promoviam eventos. Então, passam a se misturar com a cidade. “Quando chegam os anos 1980, também chega o fenômeno que a gente chama de dekassegui. Isso fez com que muitos japoneses e descendentes de japoneses de São Carlos voltassem para o Japão para trabalhar. Muitos deles acabaram não voltando para o Brasil e muitos dos que voltaram foram para outras cidades. Então houve um retrocesso nesta comunidade. Nos anos 1990 houve uma baixa e desarticulação desta população e inclusive da Associação”, narra a historiadora.

Nos anos 2000, a Fundação Pró-Memória iniciou um projeto chamado ‘Presença Imigrante em São Carlos’, que trabalhava com vários grupos de imigrantes. “Em 2004, quando entrei na Pró-Memória, sugeri trabalhar com os japoneses e começamos a desenvolver esta pesquisa, que foi longa e durou até 2012, quando termina o projeto. Neste bojo nasceu o Matsuri”, destaca Leila.

Ela explica que a festa deste fim de semana nasceu da iniciativa dos descendentes de japoneses de se rearticularem como comunidade. “Isso surgiu da comunidade japonesa que existe em São Carlos e que desejava se articular, envolvendo os japoneses que viviam aqui, os que tinham ligação com as universidades e os jovens descendentes que chegavam de outras localidades para estudar na USP ou UFSCar. Eles ainda tinham alguma identidade com a cultura japonesa. Desde os anos 2000, esta comunidade se articulou e hoje está muito ligada à realização do Matsuri”, afirma.

Ela revela ainda que o Matsuri nasceu a partir de dois eventos. “Em 2007 foi realizada a Festa das Nações e, em 2008, comemorou-se o centenário da Imigração Japonesa para o Brasil. O primeiro Matsuri foi realizado em 2008. Este evento celebra e demonstra a reconstrução desta comunidade, com esta identidade étnica e como ela ainda está presente na cidade. Hoje não são mais os que vieram para trabalhar na lavoura. Atualmente, os descendentes estão mais presentes nas indústrias e nas universidades, mas ainda representam um grupo bem articulado na cidade”, conclui.