Perigo virtual

Em São Paulo, 82% dos idosos sofreram tentativas de golpes virtuais

Uso indevido de dados pessoais é a modalidade mais preocupante entre pessoas com 60+; advogada especialista no tema dá orientações importantes para prevenção contra esses crimes

22 ABR 2026 • POR Da redação • 18h02
Idoso celular - Joédson Alves/Agência Brasil

Levantamento inédito da Fundação Seade revela que 82% das pessoas com 60 anos ou mais, no Estado de São Paulo, já sofreram tentativas de golpes virtuais por meio de mensagens, e-mails ou ligações fraudulentas. Embora o percentual seja inferior ao observado entre pessoas de 30 a 59 anos — faixa em que os índices superam 90% —, o dado evidencia que a população 60+ também está amplamente exposta aos riscos digitais.

A pesquisa, realizada entre julho e setembro de 2025 e publicada na série Seade SP TIC, aponta que o menor uso das tecnologias de informação e comunicação não impede que idosos sejam alvo de abordagens fraudulentas. “A digitalização ampliou a exposição de todos os grupos etários. No caso das pessoas de 60+, ainda que a intensidade de uso da internet tenda a declinar, há vulnerabilidades específicas, especialmente em golpes que envolvem o uso fraudulento de dados pessoais”, afirma Irineu Barreto, analista de pesquisas da Fundação Seade.

Entre as modalidades de golpe efetivamente consumadas, destaca-se a abertura fraudulenta de contas bancárias ou contratação de empréstimos não autorizados, situação que atinge 12% das pessoas 60+, a maior proporção entre os grupos etários analisados.

RISCO NAS COMPRAS ON-LINE — Também merecem atenção os dados sobre a ocorrência de compras on-line fraudulentas. A experiência de adquirir produtos pela internet e descobrir que a loja ou o vendedor não existiam foi relatada por 40% da população paulista. Entre pessoas com 60 anos ou mais, o percentual é inferior (26%). No entanto, esse grupo concentra a maior proporção de indivíduos que nunca realizaram compras on-line, o que indica que a menor vitimização está associada, parcialmente, à menor inserção no comércio eletrônico.

SENTIMENTO DE VULNERABILIDADE — A percepção de insegurança é mais elevada entre os idosos, considerando que 68% acreditam que atualmente é praticamente impossível se proteger de golpes on-line, percentual 17 pontos percentuais superior ao registrado entre jovens de 18 a 29 anos. Também é maior, nesse grupo, a parcela dos que se declaram nada confiantes em sua capacidade de evitar fraudes digitais.

Os dados indicam que, mesmo com tendência de menor inserção no ambiente digital, a população idosa permanece vulnerável e demonstra maior sensação de risco diante do avanço dos golpes on-line.

REFORÇAR MEDIDAS PREVENTIVAS — Especialista em Direito Bancário, a advogada Gabriela Caldeira de Souza, que conseguiu, em 2025, recuperar R$ 90 mil para uma aposentada que foi vítima de um golpe em São Carlos, ressalta que, diante desse cenário, é fundamental reforçar medidas preventivas simples, mas eficazes, capazes de reduzir significativamente o risco de prejuízos financeiros.

“Em primeiro lugar, é importante destacar que instituições financeiras não solicitam senhas, códigos de verificação ou dados pessoais por telefone, mensagens ou aplicativos. Assim, qualquer contato dessa natureza deve ser considerado suspeito. A orientação é que o consumidor desligue a ligação e procure diretamente o banco por canais oficiais”, explica a profissional, que tem tido grande atuação em casos de fraudes bancárias.

Outro ponto relevante, segundo ela, é a necessidade de jamais compartilhar códigos enviados por SMS ou aplicativos, uma vez que tais informações funcionam como chaves de acesso às contas bancárias. O fornecimento desses dados a terceiros pode permitir a realização de transações indevidas em poucos segundos.

“Também é essencial que o consumidor desconfie de situações que envolvam urgência ou pressão psicológica, como mensagens informando bloqueio iminente de conta ou supostas movimentações suspeitas. Tais abordagens são frequentemente utilizadas por golpistas para induzir decisões precipitadas”, comenta.

DESCONFIAR DE PREÇOS MUITO BAIXOS — No ambiente digital, de acordo com a advogada, recomenda-se cautela redobrada em compras on-line, especialmente diante de ofertas com preços muito abaixo do mercado. A verificação da idoneidade da empresa, mediante consulta ao CNPJ, reputação e avaliações de outros consumidores, é medida indispensável.

“No caso específico da população idosa, a orientação familiar exerce papel fundamental. É recomendável que familiares auxiliem no uso de tecnologias, estabeleçam regras de segurança e incentivem a consulta prévia antes da realização de qualquer transação financeira”, destaca a especialista.

“Por fim, caso o consumidor seja vítima de fraude, é imprescindível agir com rapidez, comunicando imediatamente a instituição financeira, solicitando a adoção dos mecanismos de segurança disponíveis, como o bloqueio de valores e o acionamento do Mecanismo Especial de Devolução (MED), além do registro de boletim de ocorrência”, orienta Gabriela.

Segundo ela, sob a perspectiva jurídica, é importante ressaltar que, nos termos do Código de Defesa do Consumidor e da jurisprudência consolidada dos tribunais, as instituições financeiras respondem objetivamente por falhas na prestação de serviços, especialmente quando não adotam mecanismos eficazes de prevenção e contenção de fraudes. “Assim, em muitos casos, é possível a restituição dos valores indevidamente subtraídos, bem como a reparação por danos morais”, conclui a advogada.