Com tecnologia e grandes investimentos, economia cafeeira produziu São Carlos
Do caldo cultural que misturou africanos, italianos, asiáticos e outras etnias, à ferrovia que corta a cidade e aos casarões que a embelezam, as marcas do café estão em toda a cidade.
14 ABR 2026 • POR Da redação • 20h05O dia 14 de abril é mundialmente celebrado como o Dia Mundial do Café, homenageando uma das bebidas mais consumidas no mundo, com destaque para a produção brasileira. A bebida tem uma ligação direta com São Carlos, que nasceu, cresceu e enriqueceu com o cheiro e o gosto do café.
A relação entre o café e a história de São Carlos é de fundação e desenvolvimento, sendo o "ouro verde" o principal motor econômico e social que transformou a cidade de um pequeno núcleo no interior paulista em um polo urbano e agrícola entre o final do século XIX e o início do século XX.
Pioneirismo e Expansão (1840-1870): O cultivo de café foi introduzido na região, principalmente na Fazenda Pinhal, por Carlos José Botelho, por volta de 1840, iniciando a primeira grande atividade econômica do município. As terras férteis da região atraíram fazendeiros e estimularam a apropriação de novas áreas.
Ferrovia e Infraestrutura (1884): A chegada da ferrovia em 1884 foi crucial, permitindo o escoamento eficiente da produção cafeeira de São Carlos até o porto de Santos, consolidando a economia local.
Mão de Obra e Imigração: A cafeicultura impulsionou a transição do trabalho escravo para o trabalho livre, atraindo milhares de imigrantes, principalmente italianos, que moldaram a cultura e a demografia da cidade.
Riqueza e Barões do Café: A prosperidade trazida pelo café financiou a construção de casarões urbanos (como os dos "Barões do Café") e a modernização da área central, tornando a cidade um centro político e econômico de destaque.
Legado Histórico e Turismo: Hoje, fazendas históricas como a Fazenda Santa Maria do Monjolinho e a Fazenda Pinhal (tombada pelo IPHAN) preservam essa memória e funcionam como atrações de turismo pedagógico e histórico.
A historiadora da Fundação Pró-Memória, Leila Massarão, afirma que o café representou um grande salto de progresso para várias cidades do Estado de São Paulo e até para o interior fluminense, a partir da segunda metade do século XIX. Ela destaca que mesmo cidades que já existiam viveram períodos de grande desenvolvimento graças à produção da monocultura do café e à exportação para o exterior.
“São Carlos nasce a partir de 1857, assim como várias outras cidades. O sucesso da exportação do café e seu consumo em todo o planeta, principalmente nos EUA e na Europa, possibilitaram a geração de uma riqueza que passou a ser aplicada nestes espaços urbanos, mudando estas paisagens para sempre. A economia cafeeira não era só o plantio e a colheita do café na lavoura. Com ele, o café, surgiram novas formas de produção, novas formas de transporte, novas formas de comércio. A ferrovia é determinante para a economia cafeeira e vai ser determinante para a história de São Carlos, por exemplo”, destaca Leila.
Novas necessidades de consumo, novos profissionais, novas tecnologias e mercadorias surgiam no interior paulista a partir da indústria cafeeira. “Vamos ter o nascimento de indústria voltada à economia cafeeira, mas que já diversifica o tipo de trabalhadores. Vamos ter um desenvolvimento muito grande. Se o campo é o grande produtor de café e a zona rural era, até então, o grande local da elite brasileira e local, com a ascensão da economia cafeeira e dos núcleos urbanos, este centro se desloca do campo para as cidades que começam a se desenvolver. O fim da escravidão e a chegada de imigrantes europeus causam um outro impacto. Se, de um lado, temos os ex-escravizados que vão sair do campo e habitar as periferias das cidades, de outro chegam imigrantes europeus trazendo uma nova cultura, conhecimentos que até então eram bastante restritos no país. Teremos, em São Carlos, por exemplo, a chegada de milhares de italianos que vão impactar nos nomes, na indústria, na construção civil, além da economia cafeeira. Teremos então um mundo em transformação a partir da economia cafeeira”.
DIAS ATUAIS — Atualmente, São Carlos busca valorizar esse passado com a criação de rotas turísticas do café e o fomento à produção de cafés especiais.
O Sebrae-SP busca atualmente o fortalecimento do turismo gastronômico. A iniciativa visa reunir produtores locais e representantes do trade turístico para fomentar a cadeia produtiva do café na região.
O objetivo do evento é incentivar a formação de uma Cadeia Produtiva Local (CPL), estruturada em torno do café, produto tradicional na região da Babilônia. A proposta é unir esforços para promover experiências turísticas que integrem gastronomia, cultura e natureza, como visitas a propriedades rurais, trilhas, cachoeiras e degustações.
Segundo o consultor de negócios do Sebrae-SP, Luís Adriano Alves Pinto, a ideia é mobilizar diferentes atores do território em torno de uma vocação histórica. “A proposta é organizar a cadeia produtiva do café, conectando stakeholders da região. Existe ali uma economia latente e um café de excelência, cultivado em altitudes acima de 900 metros. A história do café em São Carlos remonta a 1870, e isso dá força para buscar, por exemplo, o reconhecimento por indicação geográfica”, explicou.
Ele destacou ainda o potencial turístico dessa vocação. “A partir desse contexto, é possível criar uma rota turística do café, unindo a apreciação da bebida a experiências culturais e naturais. Queremos atrair tanto visitantes quanto moradores que desconhecem esse pedaço do município. A ideia é oferecer uma jornada com gastronomia, paisagens e histórias locais, em pequenos deslocamentos. Isso pode fortalecer o turismo de fim de semana ou de bate-volta na região”, afirmou.
Com a formalização da Cadeia Produtiva Local (CPL), será possível pleitear recursos do Governo do Estado, que variam entre R$ 250 mil e R$ 750 mil, conforme previsto no programa SP Produz. A ação também busca incluir São Carlos no recém-lançado projeto Rotas do Café de São Paulo, iniciativa estadual de fomento ao turismo regional. “São Carlos ainda não integra a rota, mas tem potencial e história para fazer parte dela. Nosso objetivo é criar as condições para que essa inclusão aconteça em breve”, ressaltou o consultor.