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Classe C aposta no empreendedorismo, afirma gerente do Sebrae São Carlos

Flexibilidade e ganhos maiores estão entre os atrativos; além disso, existem a pejotização do trabalho e o empreendedorismo por necessidade

31 MAR 2026 • POR Da redação • 06h56
Pequeno negócio: Brasil abriu mais de 5,1 milhões de empresas em 2025, um crescimento de cerca de 18% em relação ao ano anterior. Aproximadamente 96% desses negócios são de pequeno porte, como MEIs e microempresas - divulgação

Quase metade dos empreendedores ou donos de negócios do Brasil pertencem à classe C, chamada classe média. Isso é o que aponta um estudo elaborado pelo Instituto Locomotiva, em parceria com o Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae).

De acordo com o estudo, o empreendedorismo, antes visto como uma fonte alternativa de renda momentânea ou emergencial, “tem se consolidado como uma aspiração de trabalho, fundamentada no desejo de ascensão social e, ao mesmo tempo, na perda de status do trabalho em regime de CLT”.

A gerente regional do Sebrae São Carlos, Ariane Canellas, avalia que o crescimento do empreendedorismo entre pessoas da classe C também está diretamente ligado ao cenário econômico atual e à busca por melhores condições de vida.

“Vivemos hoje um cenário em que o custo de vida está mais alto, o que impacta diretamente o dia a dia das famílias. Nesse contexto, empreender deixa de ser apenas uma alternativa e passa a ser, para muitas pessoas, uma oportunidade concreta de melhorar a qualidade de vida. O próprio negócio traz mais autonomia, permite uma melhor organização da rotina e abre caminhos para ampliar a renda ao longo do tempo”, explica ela.

Segundo Ariane, quando olhamos para os dados, isso fica ainda mais claro. Segundo levantamento do Sebrae, com base em dados da Receita Federal, o Brasil abriu mais de 5,1 milhões de empresas em 2025, um crescimento de cerca de 18% em relação ao ano anterior. Aproximadamente 96% desses negócios são de pequeno porte, como MEIs e microempresas, o que mostra a força de quem está investindo no próprio negócio em todo o país.

A gerente regional do Sebrae São Carlos, Ariane Canellas: “o crescimento do empreendedorismo entre pessoas da classe C também está diretamente ligado ao cenário econômico atual e à busca por melhores condições de vida”

Além disso, o Sebrae aponta que o país já soma cerca de 47 milhões de brasileiros envolvidos com algum tipo de atividade empreendedora. A maior parte desses novos negócios está no setor de serviços, o que também indica uma entrada mais acessível e uma adaptação mais simples à rotina.

Ao mesmo tempo, percebemos uma mudança importante: empreender não é mais apenas uma alternativa em momentos de necessidade, mas também um projeto de vida. Por isso, o Sebrae-SP atua para apoiar esse público, oferecendo orientação e capacitação para que cada empreendedor consiga estruturar melhor o seu negócio e torná-lo sustentável. Com mais preparo, aumentam as chances de crescer, gerar renda e até criar oportunidades para outras pessoas. Dessa forma, o empreendedorismo contribui não só para a melhoria da vida individual, mas também para o desenvolvimento da economia local.”

A flexibilidade, a autonomia e a expectativa de ganhos superiores têm sido os principais fatores para a escolha pela atividade. Para os interessados, abrir o próprio negócio pode oferecer melhores condições de vida e evitar longas jornadas de trabalho, deslocamentos exaustivos e, por vezes, ambientes de trabalho tóxicos ou abusivos.

Ao analisar os dados, o economista e pesquisador Euzébio de Sousa, da Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo (FESPSP), reforçou que o empreendedorismo é fundamental para o desenvolvimento do país e defendeu a qualificação do negócio.

“Nem toda abertura de CNPJ, nem todo trabalho por conta própria, nem toda prestação de serviços pode ser tomada automaticamente como expressão de iniciativa empreendedora. É necessário distinguir o empreendedorismo propriamente dito, associado à inovação e à ampliação da capacidade produtiva, das formas de trabalho subordinado disfarçadas de autonomia, muitas vezes organizadas por meio da pejotização, e também das atividades de mera subsistência que costumam ser chamadas de empreendedorismo por necessidade”, disse à Agência Brasil.

O empreendedorismo por necessidade, destacou Sousa, costuma ocorrer quando a pessoa abre um negócio por não ter encontrado opção satisfatória no mercado de trabalho, "situação comum em contextos de desemprego, informalidade elevada, baixos salários, precarização do trabalho e ausência de proteção social”.

Em sua visão, o empreendedorismo “não pode decorrer da pobreza ou da ausência de alternativas”. “Quando isso ocorre, não se está diante do empreendedorismo inovador capaz de promover desenvolvimento, mas de estratégias defensivas de sobrevivência em um contexto de forte precariedade social e ocupacional”, explicou. (Com informações da Agência Brasil)