HPV

Vacinação atinge apenas 54% dos jovens, infectologista são-carlense lamenta antivax e desinformação

Vírus é responsável por 99% dos casos de câncer de colo do útero e por boa parte dos tumores de ânus, pênis, boca e garganta

30 MAR 2026 • POR Da redação • 19h41
Vacinação de jovens: Vírus pode causar câncer no útero, ânus, pênis, boca e garganta Foto: Fabio Rodrigues-Pozzebom/ Agência Brasil Fabio Rodrigues-Pozzebom/ Agência Brasil

O Sistema Único de Saúde oferece um método seguro para a prevenção de vários tipos de câncer: a vacina contra o HPV. Mas, para alcançar a sua máxima eficiência, essa precaução precisa ser tomada no final da infância ou início da adolescência, o que não acontece com boa parte do público-alvo.

A Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar (PeNSE), divulgada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) na última quarta-feira (25), mostra que apenas 54,9% dos estudantes, com idades entre 13 e 17 anos, tinham certeza de que foram vacinados contra o HPV, sigla para papilomavírus humano.

Esse vírus é responsável por 99% dos casos de câncer de colo do útero e por boa parte dos tumores de ânus, pênis, boca e garganta.

O médico infectologista são-carlense Daniel Castorino destaca que é lamentável que alguém possa ser contaminado com doenças tão graves por pura falta de informação. “Nós ficamos um pouco chateados. Nós temos uma vacina que previne câncer. Ela tem um impacto gigantesco de evitar complicações gravíssimas na vida das pessoas. E, mesmo assim, a gente vê a população-alvo não fazer uso da vacina como deveria. Temos uma parte importante de hesitação vacinal. Temos o movimento antivax. Existem pessoas que normalmente se vacinariam, mas ainda falta, na nossa sociedade, mais informação. É necessário ampliar a adesão à vacinação, ampliando a informação”, comenta ele.

Castorino lamenta que o brasileiro médio não tem acesso ao posto de saúde. “Ele não o procura. Os postos de saúde, por melhor que possam trabalhar, não têm a capilaridade de chegar a essas pessoas, que são as que mais precisam. Falta informação para que possamos propagar a prevenção. Parte é hesitação vacinal, outra boa parte não tem informação de que tem direito à vacina e acaba não se prevenindo. Assim, temos muitos desafios pela frente”, enfatiza.

PROTEÇÃO GRATUITA - A vacina que previne contra o HPV está disponível em todas as unidades de saúde do Brasil e deve ser tomada por meninas e meninos entre 9 e 14 anos.

Essa faixa etária foi definida porque o vírus é transmitido principalmente por via sexual, e a vacina é mais eficaz se for tomada antes da primeira relação.

Apesar disso, 10,4% dos estudantes entrevistados pelo IBGE ainda não estavam vacinados, e 34,6% não sabiam se tinham recebido a vacina ou não.

Isso representa quase 1,3 milhão de adolescentes desprotegidos e outros 4,2 milhões potencialmente vulneráveis à infecção.

A mesma pesquisa identificou que 30,4% dos estudantes de 13 a 17 anos já tinham vida sexual ativa e que a idade média de iniciação sexual foi de 13,3 anos para os meninos e de 14,3 anos para as meninas.

Os dados foram coletados pelo IBGE em 2024 e mostram ainda que a porcentagem de estudantes que se vacinaram caiu 8 pontos percentuais na comparação com a edição anterior da pesquisa, de 2019.

Apesar de uma proporção maior de meninas ter se vacinado — 59,5%, contra 50,3% dos meninos —, a queda da cobertura vacinal entre elas foi ainda mais expressiva, de 16,6 pontos.

FALTA DE INFORMAÇÃO - Considerando apenas os estudantes que não se vacinaram, metade deles alegou não saber que precisava tomar a vacina. Para a diretora da Sociedade Brasileira de Imunizações, Isabela Ballalai, isso prova como a falta de informação tem sido preponderante.

"Todo mundo acha que a hesitação vacinal se resume às fake news, mas não é isso. A desinformação é só uma das coisas que causam a hesitação vacinal. As outras são a falta de acesso, a baixa percepção do risco da doença e a falta de informação. E isso é um problema máximo no Brasil. Muitas pessoas não sabem quando têm que se vacinar e quais as vacinas disponíveis".

Outros motivos foram apontados, mas em proporção bem menor:
7,3% dos estudantes disseram que o pai, a mãe ou o responsável não quiseram que eles fossem vacinados;
7,2% não se vacinaram porque não sabiam qual a função da vacina;
7% alegaram dificuldade de chegar ao local de vacinação.

A pesquisa também apontou algumas diferenças entre alunos da rede pública e privada. Entre os primeiros, 11% não se vacinaram, contra 6,9% do segundo grupo.

Por outro lado, a resistência dos pais contra a vacina foi a razão da hesitação de 15,8% dos alunos da rede privada e de apenas 6,3% entre os da rede pública.

Para a diretora da Sociedade Brasileira de Imunizações, a escola pode cumprir um papel primordial: "Quando você pega os principais fatores de hesitação vacinal, a escola resolve todos eles. Resolve a desinformação, educando o adolescente. Resolve a falta de informação, quando eles são informados de que vai ter a vacinação. Resolve o acesso, porque é muito difícil levar um adolescente ao posto de saúde, mas vacinar na escola é muito mais simples. E resolve a conscientização dos pais".