Oscar 2026

Cineasta são-carlense destaca produção brasileira, apesar de derrota

Segundo João Massarolo, O Agente Secreto tinha suas controvérsias; quanto ao longa que ganhou o melhor filme, "Uma Batalha Após a Outra", ele afirma que a vitória valeu pelo talento do diretor Paul Thomas Anderson

18 MAR 2026 • POR Da redação • 08h45
Cena do Agente Secreto - divulgação

Apesar da enorme expectativa e de uma campanha internacional aclamada, o filme brasileiro O Agente Secreto encerrou sua participação na cerimônia do Oscar 2026, na noite deste domingo (15), sem estatuetas. Mas isso, perto do avanço do cinema brasileiro, é algo irrelevante, diz o cineasta são-carlense e diretor do curso de Imagem & Som da UFSCar, João Massarolo.

O longa dirigido por Kleber Mendonça Filho concorria em quatro categorias: Melhor Filme, Melhor Filme Internacional, Melhor Ator (Wagner Moura) e Melhor Direção de Elenco (categoria que estreou nesta edição).

O audiovisual brasileiro, segundo Massarolo, tem muito mais o que comemorar. “O Brasil não levou nenhuma estatueta nesta premiação. Porém, na avaliação como um todo, eu penso que o Brasil está muito bem posicionado no cenário internacional, não só por conta dos filmes do Oscar, mas pela própria representação que a produção audiovisual brasileira tem em outros espaços. Nós somos muito atuantes nas redes sociais, nós temos uma indústria das telenovelas que é fantástica, nós temos uma plataforma de streaming que pelo menos consegue se contrapor aos grandes conglomerados internacionais, à indústria do streaming internacional, o que é muito raro no mundo inteiro. Temos a Globoplay, que consegue defender seu território, no caso, o próprio país, desta invasão avassaladora. Por vários motivos, o Brasil, apesar de ser frágil em termos de regulamentação, de instituição e de organização do streaming, trabalhando com IA, apesar de todos esses problemas, consegue mostrar a criatividade brasileira”, destaca ele.

Quanto a O Agente Secreto, o cineasta são-carlense, diretor de O Quintal dos Guerrilheiros (2005), confessa que não tinha muita expectativa. “Não porque o raio não cai duas vezes no mesmo lugar, não é isso. Mas, sim, porque o filme tem uma certa controvérsia. Vi muita gente mudando de opinião, até por uma certa ênfase de mídia e de posicionamentos políticos. Viu uma vez, não gostou. Voltou uma segunda vez dizendo que sim. O filme não é ruim, claro, é um retrato das possibilidades de mediações. A personagem de Wagner Moura praticamente está morta. Ela começa o filme como morta. Então, é um espírito que vaga ali, mas sem produzir nenhum tipo de mediação social, política, afetiva. Nada funciona. Isso mostra o quanto a ditadura está entranhada”.

Mostrar a beleza de Recife para o planeta foi o grande ganho do longa-metragem, segundo Massarolo. “Mas eu acho que o principal ganho que o filme trouxe foi tornar Recife uma cidade cosmopolita. Uma visão de Recife como uma cidade do mundo. Isso, para nós brasileiros, importa muito. Levar esta imagem, esta paisagem, é importante. Hoje, como o audiovisual está globalizado, interessa muito divulgar essas paisagens que são bacanas. Não tanto a história, mas sim a história dentro de uma paisagem. Quando a pessoa faz isso, ela encerra a sua história dentro de uma paisagem que chame a atenção, ela atingiu o seu objetivo, está no caminho certo”.

RESGATE DO PAI – Massarolo ressalta ainda que os filmes que ganharam o Oscar 2026 tinham suas qualidades. “Eu fui de Valor Sentimental, com melhor filme, melhor ator, ganhou em todas as categorias em que concorreu. É realmente o filme mais impactante de uma temática que está muito presente no cinema atual, que é a figura do pai. A figura do pai atravessa praticamente toda a produção audiovisual dos últimos anos. Esta preocupação social, de uma certa perda de importância desta figura, de uma certa descaracterização desta figura, a impiedade com que a Lei Maria da Penha é usada para ganhos pessoais, o que é coisa notória. O homem não tem defesa nenhuma”.

Massarolo denuncia uma sociedade onde a figura do pai foi diminuída. “Na separação, as mulheres costumam usar os filhos contra os pais. Então, os pais são afastados da vida familiar, sem defesa. A Justiça nunca e jamais atuou de forma equânime e justa, principalmente aqui em São Carlos, isso não existe, é piada, não é? Ela simplesmente segue o comboio. Então, se botar grama, a Justiça vai de quatro atrás, porque nunca jamais vai defender equidade nas relações. A pensão, por exemplo, entendo que só é justa para as mulheres que forem comprovadamente necessitadas. Fora isso, há classe média morando de pensões em mansões exuberantes e alicerçada pela Justiça, é uma vergonha, é uma vergonha pública. Isso quebra a espinha dorsal do que a mulher pode representar em suas lutas. Para mim, isso é uma contradição. Só que isso não é falado. O filme mostra outro aspecto que importa. Não é a defesa econômica da mulher e da família, mas sim os valores sentimentais que estão em jogo, que é o que desapareceu, não é? Então, este filme, para mim, seria o grande ganhador”.

Quanto aos demais concorrentes, Massarolo fez sua avaliação pessoal. “Acho que Pecadores deveria ter ganho algumas coisas a mais. Fiquei surpreso com Avatar ter ganho, mas merecidamente, sem discussão. Fórmula 1 teve melhor edição de som, sem dúvida nenhuma. Frankenstein, na questão de arte, foi muito bom, embora a história não seja boa. E nós temos Paul Thomas Anderson, um dos maiores cineastas desta geração atual e da anterior. Então, o filme dele ter ganho não é porque o filme dele é bom. Considero médio apenas. Mas ele ganhou porque representa muito para a indústria cinematográfica norte-americana. E, dentro deste vazio que vivemos hoje, ele tinha que ser a figura realmente premiada. Então, com toda justiça, pois o cara é muito grande”.

OS GANHADORES – Apesar da enorme expectativa e de uma campanha internacional aclamada, o filme brasileiro O Agente Secreto encerrou sua participação na cerimônia do Oscar 2026, na noite deste domingo (15), sem estatuetas.

O longa dirigido por Kleber Mendonça Filho concorria em quatro categorias: Melhor Filme, Melhor Filme Internacional, Melhor Ator (Wagner Moura) e Melhor Direção de Elenco (categoria que estreou nesta edição).

Na categoria Melhor Filme Internacional, o representante brasileiro foi superado pelo norueguês Valor Sentimental, dirigido por Joachim Trier.

Na categoria de Melhor Ator, Wagner Moura, que foi ovacionado pela crítica por seu papel como professor Marcelo, viu a estatueta ir para as mãos de Michael B. Jordan, pelo terror gótico Pecadores, de Ryan Coogler.

Já em Melhor Direção de Elenco, o troféu ficou com Uma Batalha Após a Outra, de Paul Thomas Anderson, que também levou o prêmio principal de Melhor Filme.

Antes da cerimônia do Oscar, O Agente Secreto já havia consolidado sua relevância internacional no Globo de Ouro. A produção brasileira venceu na categoria de Melhor Filme em Língua Estrangeira, enquanto Wagner Moura conquistou o troféu de Melhor Ator em Filme de Drama.