Estudo aponta avanço na restauração da Mata Atlântica com recuperação de 1,67 milhão de hectares em uma década
17 MAR 2026 • POR Jessica Carvalho R • 18h49Um estudo publicado no periódico científico Perspectives in Ecology and Conservation revela que a Mata Atlântica registrou um avanço significativo na restauração florestal na última década. Entre 2011 e 2021, aproximadamente 1,67 milhão de hectares de florestas nativas foram recuperados no bioma, segundo análise baseada em dados da iniciativa MapBiomas.
De acordo com o levantamento, o processo de recuperação foi mais intenso nos estados de Minas Gerais, responsável por 26,4% das áreas restauradas, seguido por Paraná (18,6%), Bahia (12,9%) e São Paulo (12,7%). Embora o mapeamento não diferencie áreas que passaram por regeneração natural daquelas que receberam ações de restauração ativa, os pesquisadores indicam que grande parte do crescimento da cobertura florestal ocorreu por processos naturais.
Segundo Vinicius Tonetti, primeiro autor do estudo e pesquisador de pós-doutorado no Centro de Ciência para o Desenvolvimento “Estratégia Mata Atlântica”, os resultados demonstram que a recuperação do bioma em larga escala é possível. “Os dados mostram que restaurar a Mata Atlântica é um caminho viável e necessário para proteger a biodiversidade e enfrentar as mudanças climáticas, mesmo em paisagens com intensa atividade produtiva”, afirma.
O Centro recebe apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) e está sediado no Campus Lagoa do Sino da Universidade Federal de São Carlos. A pesquisa tem como responsável o professor Paulo Guilherme Molin, do Centro de Ciências da Natureza.
A pesquisa também aponta que 75,2% do aumento da cobertura florestal ocorreu em áreas classificadas como “mosaicos de uso”, regiões onde há mistura de pequenas lavouras, pastagens e vegetação em regeneração. Esses locais frequentemente incluem pastagens abandonadas ou pouco produtivas, que podem se recuperar naturalmente quando as condições ambientais são favoráveis.
Apesar dos avanços, os pesquisadores alertam que nem toda floresta regenerada permanece preservada ao longo do tempo. A análise mostra que cerca de 568 mil hectares de áreas que haviam se recuperado deixaram de existir até 2023, último ano considerado no levantamento. Para Tonetti, o dado reforça a necessidade de políticas públicas e incentivos que garantam a permanência dessas áreas. “O trabalho de restauração não termina quando a floresta começa a crescer. É fundamental proteger as florestas jovens para que elas se consolidem e continuem oferecendo benefícios ambientais”, explica.
Entre as medidas apontadas como estratégicas estão pagamentos por serviços ambientais, fiscalização ambiental e políticas específicas para a proteção de florestas secundárias, consideradas essenciais para a conservação da biodiversidade, o armazenamento de carbono e a regulação do ciclo da água.
O estudo também destaca o papel da regeneração natural como uma estratégia eficiente e de menor custo para recuperar grandes áreas. Segundo Tonetti, esse processo depende fortemente da atuação da fauna. Muitas espécies de árvores tropicais têm sementes dispersas por aves e mamíferos frugívoros, que transportam e espalham as sementes pela paisagem, favorecendo a regeneração das florestas.
Ao todo, a pesquisa reuniu 16 cientistas de 14 instituições, entre universidades, organizações não governamentais e coletivos de restauração. Todos os autores integram o Pacto pela Restauração da Mata Atlântica, iniciativa que articula diferentes atores para promover a recuperação do bioma em larga escala, com benefícios ambientais, sociais e econômicos.