Ciência por Elas

Tatiana Sampaio teme ser transformada em "vilã" por pesquisa sobre cura da paralisia

Pesquisadora é a cabeça por trás das pesquisas sobre a polilaminina substância que tem mostrado resultados promissores na recuperação de movimentos após lesões completas na medula.

15 MAR 2026 • POR Da redação • 07h54
Cientista Tatiana Lobo Coelho de Sampaio - SCA

A cientista Tatiana Lobo Coelho de Sampaio afirmou que tem medo de ser transformada de heroína em vilã por conta de suas pesquisas voltadas para a busca da cura para lesões na medula, ou seja, a cura da paralisia. Tatiana é a cabeça por trás das pesquisas sobre a polilaminina – substância que tem mostrado resultados promissores na recuperação de movimentos após lesões completas na medula – e não tem perfis em redes sociais.

“Eu tenho muita segurança do que afirmo e tenho muita segurança de que sou cautelosa também. É lógico que eu tenho medo. Tenho medo de ser transformada em vilã, mas não consigo trilhar outro caminho. Mas meu trabalho vale a pena, sim”, afirma ela.

Ela confessou não conhecer o trabalho do pesquisador Gilberto Chieriche, que criou a fosfoetanolamina, que ficou conhecida como a pílula do câncer. Muita gente disse ter sido curada pela fosfoetanolamina, o que gerou muita polêmica. Chierice acabou sendo processado pela própria USP por charlatanismo. “Com relação à fosfoetanolamina, eu realmente não sei o que aconteceu. Tenho curiosidade de saber se houve alguma defesa dele. Eu acho que, se ele anunciou que tinha cura, não deveria ter feito assim, sem nenhum controle. Prefiro não me posicionar”, destaca ela.

As afirmações foram feitas durante o evento “Ciência por Elas”, realizado no Salão de Eventos da USP São Carlos, no campus 1. Reconhecida por estudos em medicina regenerativa e polilaminina para lesões medulares, ela palestrou sobre os desafios científicos e o protagonismo feminino na ciência.

Aos 59 anos, a professora de histologia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) vive uma realidade distante do glamour das telas: sua rotina vem sendo marcada pelo toque incessante de um telefone que não para, trazendo pedidos desesperados de quem busca, nela, a cura para a paralisia.

Mãe de dois filhos biológicos e de uma “filha agregada” – uma ex-aluna órfã que foi acolhida na família –, a pesquisadora ganhou fama a partir de setembro de 2025, quando foram divulgados os primeiros resultados de sua pesquisa com a substância que vem sendo tratada de modo informal (e, de certo ponto, até equivocado) como a “cura para a paralisia”.

Tatiana sempre foi apaixonada pela ciência e começou sua carreira acadêmica como estudante no curso de Biologia na UFRJ. A escolha se deu porque, segundo a pesquisadora, era o caminho mais rápido para que ela se tornasse cientista.

Para desenvolver a pesquisa, ela contou com o financiamento da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro (Faperj) e com a estrutura da UFRJ. A parceria com o Laboratório Cristalia, empresa privada que é a única autorizada a produzir a polilaminina, começou com certa desconfiança por parte da pesquisadora.

“Eu tinha medo de entrar em contato. Eu sempre fui uma cabeça de esquerda, então nunca imaginei que ia ter que fazer uma cooperação com uma empresa, porque me parecia uma coisa meio perigosa, a princípio”, disse Sampaio em entrevista no canal TV 247 no YouTube.

A autorização exclusiva de fabricação é fruto da única patente da polilaminina, registrada no Brasil junto ao Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI). A substância chegou a ser submetida para patenteamento na Europa, nos Estados Unidos e em um escritório de âmbito mundial. Todos os registros, porém, foram perdidos.

O fato foi detalhado pela pesquisadora durante a mesma entrevista. Segundo ela, cortes de verbas federais realizados nos anos de 2015 e 2016 fizeram com que a universidade não tivesse mais dinheiro para pagar os escritórios internacionais e manter as patentes.