Entrevista

RUBENS MASSÚCIO RUBINHO: "Minha prisão é um ponto de interrogação até hoje"

Segundo Rubinho, quando um político que já esteve no poder se vê sem poder e sem condições financeiras, ele chega ao fundo do poço.

10 MAR 2026 • POR Da redação • 19h16
Rubinho: ex-prefeito teve como grande legado a conquista da fábrica de motores da Volkswagen que hoje, trinta anos depois, formou uma classe metalúrgica de classe média em São Carlos - Jean Guilherme

Depois de completar 80 anos no dia 27 de fevereiro deste ano, o ex-vereador e ex-prefeito de São Carlos, Rubens Massúcio Rubinho, afirmou, nesta terça-feira, 10 de março, que está aposentado e cuidando da saúde.

Sua última ação política foi uma candidatura a vereador em 2024. Ele teve cerca de 1.000 votos concorrendo pelo Solidariedade, mas não conseguiu se eleger. Porém, Rubinho, sempre bem-humorado, não descartou uma possível candidatura no futuro. “Se o cavalo passar arreado, temos que montar”, destacou.

Rubinho foi do céu ao inferno na política. Em 1992, foi eleito prefeito contra todas as pesquisas que indicavam a vitória de seu então adversário, o engenheiro Dagnone de Melo. Em 1993, em seu primeiro ano de mandato, foi eleito o prefeito mais popular do Brasil em uma pesquisa do Datafolha. O gabinete do povo, onde atendia a todos, a distribuição de remédios e o trabalho social que fazia, com contato direto com a população, lhe renderam tal popularidade. Tentou voltar em 2000, mas não teve sucesso.

Após a pesquisa de 1993, sua gestão foi marcada por polêmicas e uma oposição ferrenha, principalmente à direita, que conseguiu formar uma aliança totalmente inesperada que disputou as eleições em 1996, terminando com a vitória de Melo nas eleições de outubro. O candidato de Rubinho, o então deputado estadual Lobbe Neto, ficou em terceiro lugar.

Durante seu mandato, a principal conquista foi a implantação da fábrica de motores da Volkswagen. “Nós pleiteamos a fábrica de caminhões para São Carlos, porém o presidente da República, Fernando Henrique Cardoso, queria a fábrica no Estado do Rio de Janeiro para compensar problemas de violência que o estado enfrentava. Assim, articulei, no silêncio, com o então presidente nacional da VW, Pierre Alain De Smedt, a implantação da fábrica de motores em São Carlos. Mantive o segredo e a cidade, disputando com várias outras cidades importantes, acabou vencendo esta disputa. Hoje a Volks paga alguns dos melhores salários da cidade”, ressalta.

Alguns anos depois, em 2005, acabou sendo preso. Até 2010 enfrentou problemas com a Justiça, com prisões em regime aberto e fechado, até receber a liberdade de forma definitiva. Depois de décadas de disputas e brigas com Melo e com o também ex-prefeito Paulo Altomani, hoje se reconciliou com ambos, que agora classifica como “amigos”.

Em outubro de 1999, o Tribunal de Justiça de São Paulo determinou que a Volkswagen devolvesse o terreno onde instalou sua fábrica de motores em São Carlos. Parte da área voltou à posse do município.

A fábrica funcionava há três anos em um terreno de 310 alqueires doado pela Prefeitura de São Carlos. A decisão do TJ, tomada em votação por um colegiado de desembargadores, considerou ilegal a doação do terreno. O investimento total da Volkswagen em São Carlos foi de R$ 270 milhões.

O processo contra a Volkswagen foi iniciado em 1996. O Ministério Público entrou com uma ação civil pública contra a Volkswagen, a Prefeitura, o ex-prefeito Rubens Massúcio Rubinho e os vereadores que aprovaram a doação do terreno.

O TJ julgou que não houve má-fé por parte do ex-prefeito, dos vereadores e da empresa. O julgamento anulou a doação sem punir as partes. O terreno ocupado pela Volkswagen em São Carlos foi desapropriado pela Prefeitura em um processo que envolveu uma indenização no valor de R$ 5 milhões.

A área pertencia ao Horto Florestal Johann Faber, à Fazenda Capão das Antas e ao Sítio do Mello. O processo expropriatório da área está na Justiça, e o valor atual chegaria a R$ 7 milhões. A desapropriação foi paga com dinheiro do Governo do Estado, que arcou com R$ 3 milhões, e pela Prefeitura de São Carlos, que contribuiu com R$ 2 milhões.

A doação foi aprovada pela Câmara Municipal. O terreno foi entregue à montadora no final de 1995. No ano seguinte, a fábrica foi inaugurada.

Alguns anos depois, em 2005, acabou sendo preso. Até 2010 enfrentou problemas com a Justiça, com prisões em regime aberto e fechado, até receber a liberdade de forma definitiva.

“Minha prisão é até hoje um ponto de interrogação. Entre prisão, volta, sai, espera, vai com medida cautelar, se arrastou dois anos e meio até conseguir restabelecer minha vida. Quando você está no poder e tem força, vê tudo com mais possibilidade. Sem força e sem condições financeiras, você chega ao fundo do poço. Não tenho vergonha de falar, não. Foi uma vida difícil, foi uma vida de penúria. Minha família passou todas as humilhações que podem existir; eu passei por todo sofrimento que possa existir.”

Depois de décadas de disputas e brigas com Melo e com o também ex-prefeito Paulo Altomani, hoje se reconciliou com ambos, que agora classifica como “amigos”.