Dia Internacional da Mulher

Cientista política da UFSCar defende cotas femininas nos parlamentos

O México aprovou 50% para as mulheres; uma decisão considerada avançada para a política contemporânea

8 MAR 2026 • POR Da redação • 07h36
A cientista política Gleidylucy Oliveira da Silva: "Larissa é uma liderança que vem da base. Ela não chega à Câmara de Vereadores só com o um raio em céu. Ele vem de um trabalho de base, de militância de representação de seu território, de sua trajetória - Arquivo pessoal

A doutora em Ciência Política da UFSCar, Gleidylucy Oliveira da Silva, afirma que um dos meios de garantir às mulheres um espaço na política proporcional à sua presença na sociedade é garantir cotas de representação nos espaços de poder, como uma porcentagem de cadeiras nos parlamentos em todos os níveis, cotas nos ministérios e secretarias estaduais e municipais, além de cotas também no Poder Judiciário. Nesta entrevista ao SÃO CARLOS AGORA, ela comenta as causas da sub-representação da mulher e os desafios que teremos que enfrentar para vencer o machismo e termos as mulheres com representação mais equânime nos espaços decisórios.

SÃO CARLOS AGORA – Apesar de ser a maioria da população, a mulher ainda é sub-representada na política. Como mudar esta realidade?

GLEIDYLUCY OLIVEIRA DA SILVA - De fato, a presença das mulheres na política ainda não é proporcional à presença delas na sociedade e na população. Temos ainda um déficit entre a presença nos cargos eletivos e a presença populacional. Isso se dá por diversos fatores. Dentro do que temos visto de experiências de sucesso no mundo, o que tem funcionado é garantir vagas não nas candidaturas, mas nas cadeiras do espaço de representação. Porque, mesmo com a garantia de cotas para candidaturas, muitas vezes a presença destas mulheres com estas candidaturas não tem tanto apoio para que sejam tão competitivas quanto candidaturas masculinas. A solução diante disso é garantir parcelas das cadeiras tanto no Poder Legislativo quanto em ministérios quanto no Judiciário, para que possamos garantir uma maior presença das mulheres nos processos decisórios.

SCA – Existe alguma experiência de sucesso que encontre um denominador comum?

GLEIDYLUCY - Um exemplo interessante é o do México. Lá foi aprovado que 50% das cadeiras fossem definidas por questão de gênero. É uma decisão considerada avançada para a política contemporânea.

SCA – No Brasil, o que precisamos fazer?

GLEIDYLUCY - Precisamos ter, de fato, candidaturas viáveis, fortes e capazes de resultar no processo decisório. Se, de um lado, temos que garantir a presença de mulheres no espaço decisório, de outro lado temos que investir e enfrentar as relações sociais que ainda são pautadas no machismo e na misoginia. É preciso que se entenda que a mulher existiu e existe histórica e socialmente. É uma questão de papéis sociais. E o papel social da mulher, historicamente, no Brasil, em especial das mulheres negras, é de não estar nos espaços públicos e muito menos nos espaços de decisão e, sim, de estar em um espaço privado, com trabalho remunerado, no trabalho do cuidado. Portanto, se há mudanças institucionais nas regras, de outro lado também existe um desafio de mudar este entendimento e esta compreensão, e isso é um desafio de médio e longo prazo. Não se muda a trajetória histórica da noite para o dia, não se muda um conjunto de hábitos e comportamentos que vem assentado em séculos de dominação das mulheres. Nós já tivemos avanços importantes, mas eles ainda são insuficientes, e estes avanços têm que começar também nas nossas micro-relações.

SCA – Deveria existir uma matéria nas escolas desde a base ensinando sobre política? Isso poderia incentivar a participação das mulheres na política?

GLEIDYLUCY - Tem crescido a violência contra mulheres já muito jovens. Então, é necessário, sim, formar as novas gerações para uma sociedade mais equitativa. Existem algumas experiências interessantes que mostram que as crianças não são previamente machistas. Os meninos não são previamente violentos e as meninas não são previamente reprodutoras de modelos específicos de mulheridade. Mas, com o passar do tempo, com a socialização em sociedade e com hábitos machistas, eles vão reproduzir isso. Então, temos o desafio de formar as novas gerações e de enfrentar a violência que a geração atual e que a sociedade atual já têm.

SCA – Como a senhora vê a eleição de Larissa Camargo como a primeira mulher negra em mais de 160 anos da história do parlamento?

GLEIDYLUCY - Considero um avanço. Foi uma conquista. Larissa é uma liderança que vem da base. Ela não chega à Câmara de Vereadores como um raio em céu azul. Ela vem de um trabalho de base, de militância, de representação de seu território, de sua trajetória, e isso é um avanço especial porque sabemos que a violência contra a mulher atinge todas nós, porém existem graus, e isso é ainda mais grave quando estamos diante da vivência de mulheres negras. Temos pesquisadoras maravilhosas com trabalhos importantes que mostram, ao longo do século XX, que a vivência da mulher negra é ainda mais desafiadora, dada a situação de subalternidade econômica, a falta de acesso à formação educacional, o acesso a empregos muitas vezes informais ou de baixa remuneração, a solidão da mulher negra. Ou seja, compartilhamos, como mulheres, viver em uma sociedade machista, mas, ao mesmo tempo, também compartilhamos que existem dificuldades ainda mais gritantes para certas parcelas da sociedade. Então, ter um espaço importante de representação política no município é algo que deve ser comemorado e que deve ser ampliado.