Dia Internacional da Mulher

Em 160 anos, Poder Legislativo foi ocupado por apenas 13 mulheres

A história do Poder Legislativo, poder que representa toda a sociedade, revela que São Carlos foi dominada por homens, evidenciando o machismo do cotidiano; mas algumas delas conseguiram vencer os obstáculos e chegar à Casa de Leis.

8 MAR 2026 • POR Da redação • 07h38
Vereadoras de São Carlos na atualidade - Divulgação

O predomínio dos homens no poder político de São Carlos fica bastante nítido quando verificamos que, em 160 anos do Poder Legislativo, apenas 13 mulheres conseguiram conquistar cadeiras no parlamento municipal. A Câmara Municipal de São Carlos, instalada em 1865, completa 160 anos em 2025.

Foi apenas em 1947, 81 anos depois de criada a Casa de Leis, que o município elegeu a professora Elydia Benetti (1906–1965) como sua primeira vereadora, interrompendo o até então “Clube do Bolinha”.

Todas as vereadoras conquistaram seu mandato pelo voto popular, a partir da redemocratização do país em 1947, quando foram realizadas, em todo o país, eleições municipais para o Legislativo e o Executivo.

Elydia Benetti atuou na legislatura de 1948 a 1951. Depois disso, houve um longo hiato de 26 anos para que outra mulher conquistasse uma cadeira no Legislativo. Em 1976, é eleita a professora Mirjam Schiel, que toma posse em 1977 pelo MDB. Mirjam, anos depois, ajudou a fundar o PT em São Carlos.

Com relação à Presidência da Casa, até hoje somente uma mulher exerceu o cargo em toda a história. Essa proeza foi conquistada pela professora Diana Cury, no biênio 2005-2006. Laíde das Graças Simões, defensora dos animais, presidente da UIPA e fundadora da Arca de São Francisco, foi eleita para cinco legislaturas e é a vereadora com maior número de mandatos em São Carlos.

A legislatura em que o maior número de vereadoras esteve presente foi entre 2001 e 2004, quando cinco mulheres ocupavam as cadeiras do Legislativo Municipal: Diana Cury, Géria Maria Montanari Franco, Julieta Lui, Laíde das Graças Simões e Silvana Donatti.

No atual mandato, quatro vereadoras exercem o cargo na Câmara, eleitas para o mandato de 2021 a 2024: Cidinha do Oncológico (PP), Raquel Auxiliadora (PT), Fernanda Castelano (PSOL) e Larissa Camargo (PC do B). Em um total de 21 cadeiras, as quatro mulheres representam aproximadamente 20% do total.

SORTEIO – O machismo na política de São Carlos já foi bem maior e chegou a ganhar repercussão internacional. A ex-vereadora Julieta Lui (PSOL) foi vítima desse preconceito já em seu primeiro mandato. Julieta relembra que os vereadores de então, os quais ela classificou como “machistas” e “preconceituosos”, se reuniram em um restaurante e fizeram uma enquete para saber quem entre eles conseguiria ter relações sexuais com ela primeiro.

“Eles fizeram uma votação na mesa daquele restaurante, num guardanapo, e mandaram como se fosse uma correspondência oficial da Câmara Municipal para mim. Quando eu abri, me deparei com aquilo: eles marcando com X quem iria ter relações sexuais comigo primeiro. Foi uma coisa lamentável, que nós tivemos que recorrer até à Justiça. A sociedade naquele momento era extremamente machista. Nós, mulheres, estávamos muito aquém dos nossos direitos”, lamentou.

A professora também recorda quando foi assediada por outro colega no plenário da Câmara Municipal. O ato ocorreu durante a discussão da pauta do dia, momento em que os vereadores se aproximam da mesa onde fica o presidente da Câmara.

“Estavam todos os vereadores na frente do presidente para, juntos, discutir como seria o andamento. E ele ficou esbarrando em mim o tempo inteiro. Foi uma coisa muito lamentável. Infelizmente, eu não aguentei, perdi a cabeça mesmo, e tive que agredi-lo com um tapa no rosto”, completa.

A vereadora Raquel Auxiliadora lamentou que, muitas vezes, as mulheres na política sejam vítimas da violência de gênero.

“Para que a nossa democracia seja, de fato, representativa, é necessário que todos os corpos ocupem os espaços de poder, para que sua voz, sua vivência e o seu olhar sobre aquela sociedade estejam ali garantidos, para que, de fato, o poder político seja representativo. Nós, mulheres, lutamos muito ao longo do tempo para ocupar esses espaços e agora para permanecer. Infelizmente, a violência política de gênero é algo que cresce muito no dia a dia na política brasileira e tem um objetivo claro, que é afastar as mulheres desses espaços.

Essa violência de gênero afasta todas as mulheres desse espaço. Eu senti isso e vi muitos relatos logo no primeiro caso de violência que sofri. Ouvi muitas mulheres dizendo: ‘Eu não quero estar ali para sofrer o que você sofreu’.

Continuamos a ser as maiores responsáveis pelo trabalho doméstico, pelos filhos e pelo trabalho do cuidado. A grande maioria dos homens não quer trabalhar no cuidado doméstico, e isso acaba sendo também mais um obstáculo para a mulher participar da política.”

Todas as vereadoras de São Carlos:

Elydia Benetti
Julieta Lui
Géria Maria Montanari Franco
Silvana Donatti
Raquel Auxiliadora
Diana Cury
Professora Neusa
Laíde Simões
Cidinha do Oncológico
Regina Bortolotti
Mirjam Schiel
Larissa Camargo
Fernanda Castelano