DRA. ALEKSANDRA LOPES: “Para o feminicida, a mulher é uma extensão do seu próprio ego, um ‘objeto’ que validava sua identidade e poder”
Segundo a psicóloga, historicamente, a sociedade brasileira foi construída sobre uma base em que o homem detém o poder e a mulher é vista como sua propriedade ou subordinada.
8 MAR 2026 • POR Da redação • 07h30O número absurdo de casos de feminicídio e violência contra a mulher no Brasil tem raízes na falta de serviços mais eficazes do Estado na fase em que começam as agressões, na conivência da sociedade com os agressores e na cultura popular que coloca o ciúme como sinônimo de amor. A análise, feita com exclusividade para o SÃO CARLOS AGORA, é da psicóloga Aleksandra Lopes (CRP: 6/123404), especializada em Psicanálise e Saúde pelo Instituto de Ensino e Pesquisa Albert Einstein.
Aleksandra afirma que a normalização da violência é muito reforçada pelos comportamentos de ciúme e controle amplamente divulgados nas emissoras de entretenimento, demonstrando, em filmes, novelas e histórias, que “amar é ter ciúmes”. Essa ideia também aparece nas músicas de “sofrência”.
“Muitos agressores entendem a parceira como um objeto de posse e não aceitam o fim do relacionamento ou a autonomia de suas parceiras. Quando o homem tira a vida de uma mulher, o que ele sentia não era amor, mas sim um profundo sentimento de posse e controle disfarçado de afeto. Quando a relação acaba, o agressor não perde uma parceira; ele sente que perdeu um ‘objeto’ que validava sua identidade e poder. Muitos agressores possuem traços de personalidade narcisista ou dependente. Para eles, a mulher é uma extensão de seu próprio ego”, comenta.
SÃO CARLOS AGORA – Por que existem tantos casos de feminicídio no Brasil?
DRA. ALEKSANDRA LOPES – Historicamente, a sociedade brasileira foi construída sobre uma base em que o homem detém o poder e a mulher é vista como sua propriedade ou subordinada.
A normalização da violência é muito reforçada pelos comportamentos de ciúme e controle amplamente divulgados nas emissoras de entretenimento, demonstrando, em filmes, novelas e histórias, que “amar é ter ciúmes”. Essa ideia também está presente nas músicas de “sofrência”.
Muitos agressores entendem a parceira como um objeto de posse e não aceitam o fim do relacionamento ou a autonomia de suas parceiras.
Impunidade e falhas na proteção
Embora a Lei Maria da Penha (2006) e a Lei do Feminicídio (2015) sejam avanços legislativos gigantescos, a aplicação prática ainda enfrenta barreiras:
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Descumprimento de medidas protetivas: muitas vítimas são mortas mesmo após denunciar e possuir medidas judiciais contra o agressor.
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Dificuldade de acesso: em muitas cidades do interior ou periferias, não há Delegacias da Mulher (DEAMs) ou casas de acolhimento suficientes.
A dependência financeira é um dos principais motivos que impedem uma mulher de sair de um ciclo de violência.
Ciclo de violência: sem recursos próprios ou rede de apoio, a vítima acaba retornando ao convívio com o agressor, onde as agressões tendem a escalar até o crime fatal.
Os dados mostram que o feminicídio não atinge todas as mulheres da mesma forma. No Brasil, mulheres negras são as maiores vítimas. Isso ocorre porque o racismo estrutural limita ainda mais o acesso dessas mulheres à segurança, saúde e justiça, tornando-as alvos mais frequentes da violência letal.
O feminicídio é o estágio final de um ciclo de abusos. Ele raramente acontece “do nada”; geralmente é precedido por violência psicológica, moral ou física.
SCA – Como é possível combater um crime como este? É aumentando a punição, educando as crianças, fazendo campanhas educativas? Ou como?
DRA. ALEKSANDRA – Mulheres que têm medida protetiva, muitas vezes, por estarem vulneráveis, buscam opiniões de amigos, parentes e até religiosos. Isso pode ser muito mais complexo, culminando em um “conselho errado”, do tipo: “Perdoe, que isso é o que Deus quer de nós”, “Todo mundo pode errar na vida”, “O que Deus uniu o homem não separa”, “O que as pessoas vão pensar?”.
Muitas vezes, não largam o relacionamento por dependência emocional, pois estão tão intoxicadas que acreditam nas afirmações do abusador: “Você tem que agradecer a Deus por me ter”, “Se eu te largar você não arruma ninguém”, “Você é ingrata”.
A dependência financeira também pode ser um fator que torne a mulher refém do relacionamento, uma vez que muitas mulheres que engravidam se afastam do trabalho para se dedicar aos cuidados do bebê e da casa.
Sob o olhar da psicologia, a falta de medidas governamentais robustas não é apenas uma falha administrativa, mas um fator que aprofunda o trauma e a paralisia social. Quando o Estado falha, ele envia mensagens psicológicas poderosas tanto para a vítima quanto para o agressor.
Quando uma mulher tenta buscar ajuda (denuncia, procura um abrigo ou uma medida protetiva) e encontra barreiras ou lentidão, ela pode desenvolver o que a psicologia chama de desamparança aprendida, que nada mais é do que a sensação de que, não importa o que ela faça, o resultado será o mesmo: a violência continuará.
Isso gera efeitos como apatia, depressão profunda e a desistência de lutar pela própria vida, pois o Estado, que deveria ser a “figura de proteção”, se mostra omisso.
É importante falar também da revitimização decorrente do mau atendimento público, causada pelo despreparo para lidar com esse tipo de situação.
Psicologicamente, ser mal atendida em uma delegacia ou esperar anos por uma decisão judicial pode ser tão traumático quanto a agressão original.
O Estado atua como um “agressor secundário” quando questiona a conduta da mulher ou minimiza a ameaça, quebrando a confiança básica que o indivíduo deveria ter nas instituições.
Se o governo não aplica penas rápidas ou monitoramento eficaz, o agressor entende que seu comportamento de domínio é socialmente aceitável ou, no mínimo, tolerado, o que aumenta a escalada da violência.
SCA – Para a senhora, que lida com a mente humana, o que leva um homem a tirar a vida de uma mulher depois de ser rejeitado? O que pode levar alguém a tirar a vida do ser que diz amar? O que leva alguém a ficar com alguém que a agride? Dependência econômica ou afetiva?
DRA. ALEKSANDRA – Grupos de Reflexão para Homens tentam desconstruir essa ideia de “posse” para evitar que novos ciclos comecem. A psicologia entende que prender o homem resolve o problema imediato de segurança da vítima, mas não altera a “configuração mental” que o levou a ser violento. Se ele sair da prisão com a mesma mentalidade de posse, fará uma nova vítima.
Muitos juízes hoje aplicam, além da pena de prisão ou restrição de direitos, a participação obrigatória nesses grupos (prevista no Art. 45 da Lei Maria da Penha).
Objetivo: desconstruir o que chamamos de “masculinidade tóxica”.
Como funciona: o homem é confrontado com a realidade de que seu ato foi um crime, não um “descontrole por amor”. Trabalha-se a autorresponsabilização.
Resultados: dados de tribunais brasileiros mostram que a reincidência de homens que passam por esses grupos cai drasticamente (em alguns estados, de 75% para menos de 10%).
Também existem os grupos de reflexão preventivos (não penalizados).
Eles são voltados para homens que percebem que estão perdendo o controle ou para aqueles que a rede de saúde ou assistência social identifica como potenciais agressores.
Foco: inteligência emocional e comunicação não violenta.
Abordagem: ensinar que a frustração, o ciúme e o fim de um ciclo fazem parte da vida e que a violência é uma escolha, não um instinto incontrolável.
Esses grupos ainda operam em uma escala muito pequena e precisam de muito mais ênfase.
Quanto à educação e orientação infantil:
Sem educação emocional, as crianças crescem reproduzindo o ciclo de abuso que veem em casa, entendendo a violência como uma forma legítima de resolver conflitos ou expressar sentimentos.
Diante desse cenário, as políticas públicas devem focar na prevenção antes de pensar na punição. A punição, por sua vez, deve ser rápida e rigorosa. As crianças devem receber educação emocional nas escolas, e as mulheres deveriam ter um espaço, por meio de programas sociais efetivos, onde pudessem habitar e pagar simbolicamente por ele, através de treinamento e aprendizado profissional, além de contar com apoio psicológico e psiquiátrico durante todo o processo.
SCA – Um homem que realmente ama uma mulher é capaz de matá-la?
DRA. ALEKSANDRA – Sob a ótica da psicologia, a resposta curta — e dura — é que, nesses casos, o que o agressor sentia não era amor, mas sim um profundo sentimento de posse e controle disfarçado de afeto. Quando a relação acaba, o agressor não perde uma parceira; ele sente que perdeu um “objeto” que validava sua identidade e poder.
Muitos agressores possuem traços de personalidade narcisista ou dependente. Para eles, a mulher é uma extensão de seu próprio ego.
A ferida narcísica: o término é interpretado como uma humilhação pública e uma rejeição insuportável.
O raciocínio: “Se você não é minha, não será de mais ninguém”. A morte da vítima é a forma definitiva de retomar o controle que ele sente ter perdido.
Na estrutura do machismo, o amor é frequentemente ensinado como algo que se “tem” (posse), em vez de algo que se “vive” (compartilhamento).
Quando a mulher decide ir embora, ela exerce sua autonomia. Para o agressor, essa autonomia é vista como um “defeito” ou uma “traição” à hierarquia que ele estabeleceu.
A lógica do crime: matar é o ato final de silenciar a vontade da outra pessoa.
Para alguns, o fim do relacionamento gera um pânico existencial. Eles não possuem recursos emocionais para lidar com a frustração ou com o luto do término.
Desregulação emocional: o indivíduo não consegue processar a dor e a transforma em raiva explosiva.
O “script” da paixão fatal: a cultura muitas vezes romantiza o ciúme e a obsessão (“morro por você”, “mato por você”), o que serve de combustível psicológico para validar o crime na cabeça do agressor.
Dificilmente o feminicídio acontece sem sinais prévios. A psicologia identifica uma progressão:
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Controle sutil: monitorar o celular, criticar as roupas.
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Isolamento: afastar a mulher da família e dos amigos (para que ela dependa apenas dele).
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Violência psicológica: destruir a autoestima dela para que ela não se sinta capaz de sair.
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A ameaça real: quando ele percebe que o controle falhou e que ela realmente vai sair, recorre à violência física letal como “último recurso” de domínio.
Amor pressupõe o desejo de que o outro seja livre e feliz, mesmo que não seja ao seu lado.
Abuso pressupõe que a felicidade do outro só é permitida se estiver sob o seu comando.
SCA – E como ficam os órfãos dos vários casos de feminicídio no Brasil?
DRA. ALEKSANDRA – Pouco se fala sobre as crianças que ficam. Quando um homem mata a mulher e depois se mata ou é preso, ele aniquila uma família inteira.
É importante pensar no trauma transgeracional. Sem acompanhamento, essas crianças têm um risco altíssimo de repetir o ciclo de violência na fase adulta, porque esse foi o modelo de amor introduzido, onde “gritar é ato de amor”, “bater é para lutar pelo amor”, “humilhar para ensinar sua mãe”.
É importante saber reconhecer os sinais de alerta, pois às vezes a conduta violenta é explicada pelo agressor como: “Estou cuidando de você”.