Artigo Rui Sintra

Câncer de pele avança rapidamente no Brasil

5 MAR 2026 • POR Rui Sintra • 08h00
Câncer de pele - Fabio Rodrigues Pozzebom/Agência Brasil

Dados recentes divulgados pelo Jornal da USP indicam a dimensão silenciosa, porém alarmante, do avanço do câncer de pele no Brasil. Segundo a reportagem, baseada em informações da Sociedade Brasileira de Dermatologia, o país registrou um aumento de cerca de 1.500% nos casos em apenas dez anos — um salto impressionante que revela não apenas um problema de saúde pública, mas também um retrato do nosso comportamento coletivo ao longo das décadas.

Ao analisar esses números, percebo que não se trata de um crescimento repentino e inexplicável. O pesquisador Bruno Fantini, professor da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto, explica nessa reportagem que a pele possui memória e que a exposição excessiva ao sol, especialmente durante a infância e juventude — quando o uso de protetor solar era raro — cobra seu preço anos depois. Essa ideia me faz pensar em quantas pessoas da geração atual de idosos viveram sob intensa radiação solar sem qualquer proteção, sem imaginar que décadas mais tarde isso poderia se transformar em doença.

Outro ponto que considero relevante é o envelhecimento populacional. Quanto mais tempo vivemos, maior é a chance de que os danos acumulados da radiação ultravioleta se manifestem clinicamente. Assim, o aumento da expectativa de vida, que representa um avanço social, também traz desafios médicos importantes.

A reportagem mostra ainda que as regiões Sul e Sudeste lideram os registros. Ao refletir sobre isso, compreendo que não é apenas uma questão climática, mas também genética e estrutural. Populações com pele mais clara são mais vulneráveis ao sol, e nessas regiões há maior acesso a serviços de diagnóstico, o que naturalmente eleva os números oficiais. Isso não significa necessariamente que haja mais casos reais ali — mas sim que eles são mais detectados.

Outro dado que me impacta é o fato de que, apesar dos avanços diagnósticos, o câncer de pele ainda provocou mais de 30 mil mortes em uma década. Esse número reforça, para mim, a importância do diagnóstico precoce. Como destaca Fantini, identificar a doença no início torna o tratamento simples e altamente eficaz, enquanto a demora pode levar a consequências graves e procedimentos complexos.

Nesse contexto, considero fundamental destacar também o trabalho iniciado e desenvolvido há mais de duas décadas no Instituto de Física de São Carlos (IFSC/USP) pelo grupo de pesquisa do professor Vanderlei Salvador Bagnato. Ao longo desse período, sua equipe tem obtido resultados bastante positivos no combate ao câncer de pele por meio do desenvolvimento e aplicação de técnicas baseadas em luz, especialmente terapias fotodinâmicas e métodos ópticos de diagnóstico.

Estudos clínicos conduzidos pelo grupo demonstram altas taxas de sucesso no tratamento de lesões iniciais, com procedimentos menos invasivos, menor tempo de recuperação e redução significativa de cicatrizes quando comparados a abordagens cirúrgicas tradicionais. Além disso, algo que considero particularmente relevante é que esse aumento expressivo da incidência já vinha sendo prognosticado pelo cientista são-carlense anos antes, com base em análises epidemiológicas e no acompanhamento longitudinal de dados clínicos — o que evidencia não apenas a consistência de suas pesquisas, mas também a capacidade da ciência de antecipar tendências de saúde pública.

Projetos itinerantes e parcerias com sistemas públicos de saúde também ampliaram o acesso da população a essas tecnologias, demonstrando que a pesquisa científica, quando integrada à prática médica, pode produzir impacto direto e mensurável na qualidade de vida das pessoas. Segundo o Ministério da Saúde, o câncer de pele representa cerca de 30% dos tumores malignos diagnosticados no país.

Concluo, assim, que a prevenção precisa deixar de ser uma preocupação sazonal, restrita ao verão, e passar a fazer parte da rotina das pessoas durante todo o ano. Cuidar da pele diariamente é um ato de responsabilidade com o próprio futuro. Usar protetor solar, evitar exposição intensa entre 10h e 16h e observar sinais suspeitos na pele não são exageros — são medidas simples que podem salvar vidas.