Saúde

Estudo da UFSCar aponta que Tamiflu reduz mortalidade em idosos hospitalizados com influenza, mesmo após 48 horas

11 FEV 2026 • POR Jessica Carvalho R • 10h20
Pesquisa usou dados de mis de 8 mil pacientes idosos canadenses (Foto: Pexels)

Uma pesquisa conduzida pelo professor Henrique Pott, do Departamento de Medicina (DMed) da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), revelou que o uso do antiviral oseltamivir — mais conhecido como Tamiflu — reduz o risco de mortalidade em idosos hospitalizados com influenza, mesmo quando administrado após 48 horas da internação. O estudo foi realizado em colaboração com o Departamento de Medicina da Dalhousie University, no Canadá, e foi selecionado como um dos melhores artigos publicados em 2025 pelas revistas da Sociedade Americana de Doenças Infecciosas (IDSA).

O oseltamivir é recomendado para o tratamento de adultos hospitalizados com influenza. No entanto, ainda existe, na prática clínica, certa hesitação em iniciar o antiviral quando o diagnóstico ocorre de forma tardia.

“Essa hesitação está relacionada, em parte, à percepção de que o benefício do tratamento estaria restrito a uma janela terapêutica limitada. Os resultados do estudo contribuem para esclarecer esse ponto, ao demonstrarem que, em idosos hospitalizados, o efeito protetor do antiviral se mantém mesmo quando iniciado após 48 horas, com impacto relevante na redução da mortalidade”, explica Pott.

Metodologia e abrangência

A pesquisa analisou dados sobre doenças respiratórias graves em cinco províncias canadenses durante as temporadas de influenza entre 2012 e 2019. A investigação foi baseada em informações provenientes de sistemas de vigilância e bases administrativas de saúde do Canadá, que integram dados clínicos, laboratoriais e desfechos hospitalares.

Ao todo, foram incluídos 8.135 pacientes com 65 anos ou mais, acompanhados quanto à evolução clínica e à ocorrência de óbito em até 30 dias após a internação.

Resultados

A análise mostrou que aproximadamente três quartos dos pacientes receberam oseltamivir, enquanto uma parcela expressiva não foi tratada com o antiviral. Entre os que utilizaram o medicamento, foi observada redução de cerca de 18% no risco de óbito em até 30 dias.

O benefício foi mais evidente nos casos de influenza A. Já para influenza B, não houve associação estatisticamente significativa com redução da mortalidade. Segundo os pesquisadores, isso pode ser explicado pelo menor número de casos desse subtipo na amostra e por diferenças conhecidas no comportamento biológico do vírus, fatores que limitam o poder estatístico para detectar efeitos nesse grupo específico.

“Esses achados são particularmente relevantes porque idosos frequentemente apresentam manifestações clínicas atípicas de influenza, o que pode atrasar o reconhecimento da infecção e o início do tratamento. Além disso, trata-se de uma população com maior carga de comorbidades e maior risco de evolução desfavorável, o que torna o impacto potencial do tratamento antiviral ainda mais significativo do ponto de vista clínico”, reforça o docente da UFSCar.

Contribuição científica e impacto no Brasil

De acordo com Pott, o estudo também ajuda a preencher uma lacuna importante na literatura científica. “Idosos costumam estar sub-representados em ensaios clínicos, e grande parte das evidências sobre antivirais deriva de populações mais jovens. Ao analisar um grande corte populacional de idosos hospitalizados, a pesquisa oferece dados consistentes sobre a efetividade do oseltamivir justamente no grupo com maior risco de desfechos graves”, destaca.

O professor ressalta que os resultados são plenamente aplicáveis à realidade brasileira. O perfil clínico dos pacientes analisados é semelhante ao observado no Sistema Único de Saúde (SUS), assim como o manejo hospitalar da influenza e a indicação do oseltamivir como antiviral de primeira linha.

“As diretrizes brasileiras também reconhecem os idosos como grupo prioritário para tratamento antiviral, inclusive quando o início dos sintomas ocorreu há mais de 48 horas, o que torna os achados diretamente relevantes para a prática clínica nacional”, pontua.

Para Pott, os dados reforçam que o oseltamivir permanece como ferramenta central no manejo da influenza em idosos hospitalizados. “A demonstração de redução de mortalidade, inclusive fora da janela terapêutica tradicional, sustenta uma abordagem mais ativa na prescrição do antiviral e evidencia a importância do reconhecimento precoce da doença nesse grupo de alto risco”, afirma.

Reconhecimento internacional

O artigo foi destacado pelos editores-chefes das revistas Clinical Infectious Diseases, The Journal of Infectious Diseases e Open Forum Infectious Diseases, publicações ligadas à IDSA, como uma contribuição significativa para a área de Infectologia.

Segundo os editores, os trabalhos selecionados representam pesquisas meticulosas e inovadoras, que enriquecem tanto as publicações quanto o campo científico como um todo.

Para Henrique Pott, autor principal do estudo, o reconhecimento evidencia a excelência científica e o impacto internacional da pesquisa conduzida na UFSCar. “Esse destaque reforça o prestígio do Departamento de Medicina e de seus colaboradores no cenário global da Infectologia”, celebra.