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Alunos da USP São Carlos criam chatbot no WhatsApp para checar fake news e levam projeto à Brazil Conference nos EUA

Ferramenta usa inteligência artificial multimodal para verificar textos, áudios, imagens e vídeos e será apresentada em março, em Harvard e no MIT

9 FEV 2026 • POR Jessica Carvalho R • 16h27
Os estudantes Cauê Paiva Lira, Luiz Felipe Diniz Costa e Pedro Henrique Ferreira Silva se conheceram e colaboraram em grupos de extensão como o RAIA e o DATA, da USP, desenvolvendo projetos e competições em machine learning | (Crédito da imagem: Arquivo p

Atentos ao impacto da desinformação no debate público brasileiro, especialmente com a proximidade das eleições de 2026, três alunos do Instituto de Ciências Matemáticas e de Computação (ICMC) da USP, em São Carlos, desenvolveram um sistema de verificação de fatos que funciona diretamente no WhatsApp. Batizado de “Tá certo isso AI?”, o chatbot utiliza inteligência artificial (IA) multimodal — capaz de analisar e combinar texto, áudio, vídeo e imagem — para checar mensagens com base em fontes confiáveis.

A ferramenta foi criada por Cauê Paiva Lira, Luiz Felipe Diniz Costa e Pedro Henrique Ferreira Silva, estudantes de Ciência da Computação, e venceu o Programa AI4Good, desafio promovido pela Brazil Conference, evento organizado pela comunidade brasileira de estudantes nos Estados Unidos. Com o reconhecimento, o grupo foi selecionado para apresentar o projeto na 12ª edição da Brazil Conference, que acontece de 27 a 29 de março, nos campi da Universidade de Harvard e do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT), em Cambridge.

O evento deve reunir lideranças e personalidades brasileiras de destaque — entre elas, o ex-jogador de futebol Cafu — além de estudantes premiados, com todas as despesas custeadas pelos programas da conferência. Para Luiz Felipe e Pedro, esta será a primeira viagem internacional. “Estou bem empolgado em conhecer o MIT e Harvard e ansioso pelo jantar especial. Acredito que será um momento importante para fazer networking”, relata Luiz Felipe.

Da ideia ao reconhecimento internacional

O Tá certo isso AI? nasceu durante o hackathon 2025 do grupo de extensão Rede de Avanço em Inteligência Artificial (RAIA), da USP, cujo tema era Soluções para mitigar o impacto das fake news na sociedade. Em apenas 10 horas, os estudantes desenvolveram o protótipo e conquistaram o primeiro lugar. Pouco depois, ao saber da abertura do edital do AI4Good, Cauê incentivou o grupo a se inscrever. “Foram cerca de 170 grupos inscritos e apenas oito selecionados para a fase de mentoria e aceleração”, conta.

Durante seis semanas, o projeto passou por um processo de amadurecimento técnico e estratégico. Segundo os estudantes, a principal evolução em relação ao protótipo inicial foi a criação de uma plataforma de analytics, inexistente no hackathon. “Na maratona, o tempo era muito curto. Precisávamos provar a ideia, não a robustez do sistema. Isso foi aprimorado durante a aceleração do AI4Good”, explica Pedro.

Outro avanço relevante foi o fortalecimento do processo de busca e validação das informações. Diferentemente de soluções que recorrem indiscriminadamente a conteúdos disponíveis na internet, o chatbot passou a operar com curadoria prévia de fontes confiáveis, como sites institucionais, veículos jornalísticos consolidados e plataformas especializadas em checagem de fatos. “O bot não aceita qualquer fonte. Ele verifica apenas bases que já passaram por esse filtro de confiabilidade, o que reduz o risco de erro e aumenta a qualidade das respostas”, resume Luiz Felipe.

Com esses aprimoramentos, a proposta ficou entre as três vencedoras do desafio AI4Good. Além do impacto social, o programa considerou o nível de desenvolvimento técnico alcançado e o potencial de escala da ferramenta, especialmente sua capacidade de alcançar um número cada vez maior de usuários.

Como o chatbot funciona

O Tá certo isso AI? opera inteiramente dentro do WhatsApp, sem necessidade de instalar aplicativos extras ou acessar sites externos. Há duas formas principais de uso:

  • Chat privado: o usuário adiciona o número (35) 8424-8271 aos contatos ou acessa o link disponível no site do projeto (https://bit.ly/4adKZnc). Em seguida, basta encaminhar ao bot qualquer conteúdo suspeito — texto, link, imagem, vídeo, áudio ou figurinha. Em poucos instantes, o sistema retorna a análise, indicando o que é verificável, quais afirmações são verdadeiras ou falsas e as fontes utilizadas.

  • Grupos de WhatsApp: o bot pode ser adicionado ao grupo. Quando surgir uma mensagem duvidosa, qualquer participante pode responder marcando o bot (@). A verificação é feita no próprio grupo, com o resultado visível a todos.

Segundo os criadores, a proposta é tornar a checagem tão simples quanto encaminhar uma mensagem. “Focamos muito na experiência do usuário para que, inclusive, pessoas com pouca familiaridade com tecnologia consigam usar”, explica Pedro Henrique.

Além do atendimento direto, o sistema funciona como uma Plataforma de Analytics. As mensagens encaminhadas alimentam um painel público no site do projeto, permitindo acompanhar tendências e temas recorrentes. “O WhatsApp é uma caixa-preta. Não sabemos com que frequência uma desinformação é encaminhada. A plataforma nos permite entender, em tempo real, como está o cenário da rede”, destaca Cauê.

Esse recurso, segundo os estudantes, é um dos principais diferenciais da ferramenta e foi pensado para apoiar jornalistas, pesquisadores e organizações que atuam no enfrentamento à desinformação. “A ideia é estabelecer parcerias para que essas instituições avaliem as análises produzidas pelo sistema. A partir desse retorno qualificado, conseguimos aprimorar os modelos de IA, tornando a checagem cada vez mais precisa”, afirma Cauê.

Custos e próximos passos

Manter o chatbot no ar envolve custos com domínio, infraestrutura e consumo de APIs, mas, de acordo com os estudantes, os valores ainda são baixos para um projeto em fase inicial, contando com apoio de créditos e testes em nuvem. Para Luiz Felipe, o próximo passo é ampliar o alcance da ferramenta e estruturar parcerias que contribuam tanto para a divulgação quanto para o aprimoramento contínuo do sistema.

“Acreditamos que a visibilidade proporcionada pela Brazil Conference pode abrir caminho para colaborações com órgãos governamentais e veículos de comunicação, já que o enfrentamento à desinformação é um interesse comum. Além disso, pode impulsionar nossas trajetórias profissionais por meio do desenvolvimento de projetos com impacto social”, conclui o estudante do ICMC.