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Da escola pública à USP: ex-aluno de cursinho popular retorna à sala onde tudo começou como coordenador do Projeto Aprender

Trajetória de João Buzzo mostra como iniciativas de educação popular ajudam a romper barreiras e ampliar o acesso à universidade pública

27 JAN 2026 • POR Jessica Carvalho R. • 18h10
“Nosso objetivo é desmistificar o que é uma universidade pública. Mostrar para quem estuda no ensino médio, em uma escola estadual, que é um direito estar aqui dentro e utilizar esses recursos. Esse é o nosso lugar também”, conta João.(crédito da imagem:

Quando cursava o primeiro ano do ensino médio em uma escola pública de Campinas, no interior de São Paulo, João Buzzo sequer sabia o que era uma universidade pública. Doze anos depois, ele está novamente sentado na mesma sala de aula onde deu os primeiros passos rumo ao ensino superior: a sala 3-011 do Instituto de Ciências Matemáticas e de Computação (ICMC) da USP, em São Carlos.

Foi ali que, em 2016, João foi acolhido como aluno do Projeto Aprender, cursinho popular voltado a estudantes da rede pública. Hoje, ele veste literalmente a camisa azul da iniciativa, da qual é um dos coordenadores. “Nosso objetivo é desmistificar o que é uma universidade pública. Mostrar para quem estuda no ensino médio, em uma escola estadual, que é um direito estar aqui dentro e utilizar esses recursos. Esse é o nosso lugar também”, afirma.

Um lugar que João nunca imaginou ocupar, assim como muitos estudantes da educação básica que não se veem dentro de uma universidade pública. É para romper essas barreiras que existe o Projeto Aprender, que está com inscrições abertas até o dia 15 de fevereiro. Para participar, basta preencher o formulário disponível no site do ICMC.

A descoberta do Aprender em São Carlos

A aproximação de João com o projeto aconteceu após a mudança da família de Campinas para São Carlos, durante o segundo ano do ensino médio. Na Escola Estadual Sebastião de Oliveira Rocha, ele passou a ouvir dos professores sobre universidades públicas. “Foi assim que se abriu a primeira porta para que eu procurasse um cursinho popular”, relembra.

Sem condições financeiras de arcar com um cursinho pago, João encontrou no Projeto Aprender a oportunidade de se preparar para o vestibular. “Até hoje, a gente oferece aulas no período da noite justamente porque entende que muitos alunos estudam em escola de período integral, trabalham ou já concluíram o ensino médio e precisam conciliar os estudos com o trabalho”, explica.

Foi naquele mesmo espaço do ICMC que ele teve o primeiro contato com a universidade. “Em 2016, comecei a entender o que era uma universidade pública. Aqui eu conheci os primeiros professores do Projeto Aprender, muitos deles amigos que carrego até hoje”, conta.

No fim daquele ano, João conquistou uma vaga no Bacharelado em Física na USP São Carlos, iniciando uma nova etapa de descobertas.

Da física à computação

O início da graduação não foi simples. “Quem vem da rede pública carrega uma defasagem muito grande. A adaptação é mais lenta e as reprovações no primeiro ano acabam sendo comuns até que a gente aprenda a estudar de verdade”, relata.

Mesmo com as dificuldades, João persistiu. Durante a graduação, passou a se interessar pela física computacional e percebeu que se identificava cada vez mais com a área de computação. Ainda assim, demorou a tomar a decisão de mudar de curso. “Existe uma pressão para que o aluno saiba exatamente o que quer ao sair do ensino médio, mas não é bem assim”, reflete.

Após uma tentativa frustrada de transferência em 2020, João decidiu retomar os estudos para o vestibular. O esforço valeu a pena: em 2022, conquistou uma nova vaga na USP, desta vez no curso de Ciências de Computação do ICMC. “Encontrei uma atmosfera diferente, aprendi coisas que realmente gostava e fui quebrando barreiras que eu mesmo havia criado”, diz.

De aluno a professor — e aprendiz

Já na computação, João encarou outro desafio: superar a ansiedade social. Passou a se envolver em projetos de extensão e, em 2024, retornou ao Projeto Aprender como monitor de física. “Dar aula, mesmo para turmas pequenas, era muito difícil para mim”, admite.

O desafio aumentou quando assumiu o papel de professor. “Era uma sala maior, o nervosismo voltou forte. Teve vezes em que precisei parar no meio da aula. Mas também aprendi que errar faz parte. Hoje, se não sei algo, digo que vou pesquisar e trazer a resposta depois. E seguimos.”

De volta ao Projeto Aprender, agora como educador, João afirma que também se tornou aprendiz. “Sempre digo que nós, voluntários, também somos alunos dos nossos alunos. Aprendemos com eles como melhorar enquanto professores e como ajudá-los melhor. Esse desenvolvimento acontece dos dois lados.”

Desde o início de 2025, João integra a coordenação do projeto. No começo de 2026, retornou a Campinas, onde atua como Analista de Operações de Sistemas Júnior na empresa chinesa de tecnologia BYD. Mais um passo em uma trajetória marcada por descobertas, persistência e pela certeza de que a universidade pública também é lugar de quem vem da escola pública.