Oscar 2026

Cineasta da UFSCar afirma que "O Agente Secreto" é retrato do Brasil atual

Segundo Massarolo, ao reconhecer histórias brasileiras, o Oscar redefine o significado das mediações possíveis ao contar e premiar a memória de um povo

26 JAN 2026 • POR Da redação • 14h20
Cena de O Agente Secreto: para especialista, longa revela um país atravessado por memórias de repressão e vigilância, mas também por uma experiência cotidiana marcada pela instabilidade dos laços sociais. - Agência Brasil

Diretor de cinema e professor do curso de Imagem & Som da UFSCar, João Carlos Massarolo afirma que o longa-metragem “O Agente Secreto” desenha um retrato do Brasil contemporâneo: um país atravessado por memórias de repressão e vigilância, mas também por uma experiência cotidiana marcada pela instabilidade dos laços sociais.

“Ao contrário da desintermediação apontada por Kornbluh, Mendonça Filho insiste em mostrar que ainda vivemos cercados de mediações — frágeis, contraditórias, mas inevitáveis. O cinema, nesse sentido, funciona como espaço privilegiado para revelar essas camadas finas de mediação, transformando o caos em imagem e narrativa”, destaca.

Mais do que vitórias individuais, segundo Massarolo, as recentes indicações e prêmios sugerem que o imaginário político do cinema mundial está em mutação. O Oscar, ao reconhecer histórias brasileiras, não apenas amplia seu repertório, mas redefine o significado das mediações possíveis ao contar e premiar a memória de um povo.

O cineasta comemora o fato de o Brasil, pelo segundo ano consecutivo, voltar a brilhar em Hollywood com O Agente Secreto (2025), de Kleber Mendonça Filho, estrelado por Wagner Moura. O longa conquistou quatro indicações de peso: Melhor Filme, Melhor Filme Internacional, Melhor Ator e Melhor Seleção de Elenco. “A presença do diretor pernambucano na disputa reafirma sua força no cenário mundial, após o impacto de obras como O Som ao Redor e Bacurau”, ressalta.

O Brasil também celebra outra indicação significativa: o diretor de fotografia Adolpho Veloso concorre ao Oscar de Melhor Fotografia por seu trabalho em Sonhos de Trem (2025), de Clint Bentley, estrelado por Joel Edgerton. O filme, explica o especialista, chama atenção por emocionar sem recorrer ao melodrama, algo raro no cinema atual, o que reforça a sofisticação de sua estética. Com essas nomeações, o país marca presença em diferentes frentes da premiação, mostrando a vitalidade e a diversidade de sua produção cinematográfica.

João Carlos Massarolo: ““Nesse sentido, o Oscar não apenas consagra filmes brasileiros, mas sinaliza uma reconfiguração simbólica: o passado tenebroso da ditadura militar, encenado por cineastas como Mendonça Filho e Salles, passa a ocupar o mesmo patamar de relevância que os grandes épicos da guerra mundial” 

O Agente Secreto se passa no Brasil de 1977. Marcelo (Wagner Moura), um professor de tecnologia de 40 anos, deixa São Paulo e parte para Recife em busca de uma nova vida. A chegada coincide com o Carnaval, mas as sombras de seu passado misterioso logo o cercam. “O filme, ao revisitar esse período, insere-se em uma tendência já apontada por Ainda Estou Aqui (2024), de Walter Salles, vencedor do Oscar de Melhor Filme. Ambos exploram o passado autoritário brasileiro, mas o que chama atenção é menos o tema em si e mais o deslocamento do olhar da Academia”, conta Massarolo.

O cineasta destaca que, durante décadas, Hollywood privilegiou narrativas centradas na Segunda Guerra Mundial, quase sempre premiadas como paradigma da memória histórica universal. A recente mudança no sistema de votação, porém, parece ter ampliado o espaço para obras que oferecem uma perspectiva geopolítica mais plural, abrindo caminho para histórias vindas do Sul global. O que antes era hegemonia de dramas europeus de guerra agora se transforma em reconhecimento de experiências locais que, ao mesmo tempo, ressoam globalmente.

“Nesse sentido, o Oscar não apenas consagra filmes brasileiros, mas sinaliza uma reconfiguração simbólica: o passado tenebroso da ditadura militar, encenado por cineastas como Mendonça Filho e Salles, passa a ocupar o mesmo patamar de relevância que os grandes épicos da guerra mundial. É uma mudança que revela como o cinema pode ser mediador de memórias coletivas diversas e como Hollywood, pressionada por novos olhares, começa a legitimar narrativas que antes ficavam à margem”, comenta Massarolo.

A filósofa Ana Kornbluh, em Imediatez ou o Estilo do Capitalismo Tardio Demais (2025), observa que a cultura contemporânea se caracteriza pela perda da “mediação”, promovendo uma desintermediação das relações sociais e criativas, algo que, segundo ela, é essencial para compreender o mundo. Vivemos, afirma Kornbluh, sob o signo do “presenteísmo”.

“É justamente nesse ponto que O Agente Secreto se destaca como um cinema de mediações. Seus personagens operam dentro de uma rede de mediadores em permanente desconexão com o real. Tentam construir laços, estabelecem conversas, arranjos amorosos e alianças políticas, mas tudo se desfaz rapidamente, revelando a fragilidade das relações. Os mediadores, afetivos, sociais ou institucionais, tornam-se o centro de um caos organizado, em que a tentativa de dar sentido ao mundo convive com a impossibilidade de sustentar vínculos duradouros”, relata o cineasta.