Saúde

Inflamação intestinal ativa aumenta risco de distúrbios do sono, ansiedade e depressão, aponta estudo da USP

Pesquisa inédita com pacientes com doença de Crohn reforça ligação entre intestino e saúde mental e defende tratamento integrado

22 JAN 2026 • POR Jessica Carvalho R • 12h14

Sempre houve indícios de que as doenças inflamatórias intestinais (DII) estariam associadas a alterações na saúde mental. A explicação envolve o chamado eixo intestino-cérebro: quando há inflamação intestinal, substâncias do sistema imunológico podem circular pelo organismo e interferir no funcionamento cerebral, impactando o humor, o sono e o bem-estar emocional.

Agora, um estudo conduzido pela Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP) traz novas evidências que fortalecem essa relação. A pesquisa analisou dados clínicos e laboratoriais de pacientes com doença de Crohn e constatou que aqueles com inflamação intestinal ativa apresentavam maior probabilidade de sofrer com sono de má qualidade, fadiga, cansaço ao despertar e sintomas de ansiedade e depressão.

O trabalho, desenvolvido por uma equipe multidisciplinar formada por coloproctologistas, nutricionistas, fisioterapeutas e profissionais de educação física, é inédito e conquistou o primeiro lugar na 6ª Semana Brasileira das Doenças Inflamatórias Intestinais (SEBRADII), maior congresso sobre DII da América Latina, realizado em Campinas em agosto de 2025.

Segundo a médica Carolina Bortolozzo Graciolli Facanali, uma das coordenadoras do estudo, a doença de Crohn é uma inflamação crônica autoimune que acomete principalmente o final do intestino delgado e o intestino grosso. “A enfermidade alterna períodos de atividade inflamatória com fases de remissão, quando os sintomas estão controlados ou ausentes”, explica.

Ela destaca que, ao longo dos anos, a doença pode evoluir de um estágio inflamatório limitado à mucosa para formas mais graves, como a estenosante — com estreitamento do intestino — e a penetrante, caracterizada pelo surgimento de fístulas. “Embora não tenha cura, é possível controlar as crises com medicamentos, ajustes na alimentação e, em alguns casos, cirurgia”, afirma.

Sono ruim e sintomas emocionais

As análises revelaram que pacientes com inflamação ativa apresentaram quase três vezes mais chances de ter sono de má qualidade e sintomas depressivos. O estudo também mostrou que indivíduos no fenótipo inflamatório, típico da fase inicial da doença, dormiam pior do que aqueles nas fases estenosante ou penetrante, associadas à forma crônica.

Para o coloproctologista e professor da FMUSP Carlos Sobrado, um dos coordenadores da pesquisa, esse resultado pode estar ligado à adaptação dos pacientes ao longo do tempo. “Pessoas com doença de longa duração tendem a desenvolver maior resiliência após enfrentar fases mais críticas, aprendendo a lidar melhor com novos desafios”, avalia.

Entre os participantes, mais de dois terços apresentavam inflamação intestinal ativa. A maioria também relatou problemas de sono: 69% afirmaram que o descanso não era reparador e 71% classificaram a qualidade do sono como ruim.

Os achados confirmam resultados de um estudo anterior do mesmo grupo, publicado em 2023 na revista Clinics, que identificou alta prevalência de depressão maior em pessoas com doença de Crohn, especialmente durante a fase ativa. Naquela análise, que incluiu 283 pacientes, as mulheres apresentaram risco cinco vezes maior de desenvolver depressão em comparação aos homens.

Como a pesquisa foi feita

Para avaliar a atividade inflamatória, os pesquisadores quantificaram os níveis de calprotectina fecal, biomarcador que indica inflamação intestinal quando acima de 250 µg/g. A qualidade do sono foi analisada por meio do Índice de Pittsburgh, da Escala de Epworth e de questionários específicos para ansiedade e depressão.

Além disso, os pacientes utilizaram acelerômetros — dispositivos semelhantes a relógios — durante a noite, permitindo medir de forma objetiva o tempo para adormecer e os despertares noturnos. Após sete dias, os participantes retornaram ao ambulatório do Hospital das Clínicas para a devolução dos aparelhos e entrega das amostras, possibilitando a análise conjunta dos dados clínicos, laboratoriais e de sono.

Cuidado além do intestino

Para os pesquisadores, os resultados reforçam a importância de um olhar mais amplo sobre a doença de Crohn. “A inflamação intestinal não se restringe ao trato digestivo e pode ter impactos significativos na saúde mental e na qualidade de vida”, afirma Sobrado.

Ao evidenciar a forte correlação entre atividade inflamatória, distúrbios do sono e sintomas emocionais, o estudo defende a incorporação da avaliação do sono, do apoio psicológico e da atenção nutricional ao cuidado de rotina dos pacientes.

“O estudo surgiu da observação clínica diária e buscou comprovar cientificamente uma percepção já presente na prática médica: corpo e mente estão interligados”, resume Carolina Facanali.

Segundo a pesquisadora, os dados apresentados no congresso fazem parte de um projeto mais amplo, desenvolvido por uma equipe multiprofissional do Departamento de Gastroenterologia e Nutrologia da FMUSP. O trabalho também integra sua tese de doutorado, realizada em parceria com o professor Celso Carvalho, do Departamento de Fisioterapia, Fonoaudiologia e Terapia Ocupacional da instituição.

Por assessoria de comunicação USP