Luz contra o câncer de pele Novo estudo aponta caminhos para tratamentos mais eficazes
17 JAN 2026 • POR Rui Sintra • 10h33O câncer de pele é o tipo de tumor mais comum no mundo e, apesar de muitos casos serem tratados com sucesso, continua sendo um desafio para os pacientes e sistemas de saúde. Uma pesquisa recente feita por cientistas brasileiros e estrangeiros traz novas pistas sobre como aprimorar uma técnica já utilizada — a terapia fotodinâmica.
Essa terapia combina o uso de uma substância sensível à luz com iluminação direcionada sobre a lesão. Após absorver a substância, o tecido doente é exposto à luz, o que desencadeia reações capazes de destruir as células do tumor. O método é menos invasivo do que a cirurgia e é usado especialmente em lesões superficiais da pele.
A terapia fotodinâmica não é uma novidade absoluta. O conceito começou a ser explorado já no início do século XX, quando pesquisadores observaram que substâncias combinadas com luz poderiam matar células de tumores na pele. Desde então, a técnica evoluiu de simples experimentos para aplicações médicas mais sofisticadas.
É bom recordar que, nas últimas duas décadas, grupos de pesquisa no Brasil, especialmente no Instituto de Física de São Carlos (IFSC/USP), sob a coordenação do cientista são-carlense, Prof. Vanderlei Salvador Bagnato, desenvolveram protocolos e equipamentos específicos para tratar câncer de pele — principalmente o carcinoma basocelular, o tipo mais comum no nosso país.
Essas pesquisas já resultaram na recomendação de incorporação da terapia fotodinâmica pelo Sistema Único de Saúde (SUS), oferecendo uma opção a mais para pacientes que não podem ou não devem passar por cirurgia.
Mais recentemente, estudos em laboratório têm buscado formas de potencializar a eficácia do método. Uma pesquisa conjunta entre cientistas brasileiros e dos Estados Unidos mostrou que associar a luz usada na terapia com agentes que estimulam o sistema imunológico pode aumentar sua eficácia, especialmente contra tumores mais agressivos como o melanoma.
Também há investigações em andamento sobre o uso de novas tecnologias de luz, substâncias sensíveis e até nanocarreadores — estruturas minúsculas que podem transportar os medicamentos com mais precisão até os tumores — para tornar o tratamento ainda mais eficiente e seguro para os pacientes.
Neste novo estudo, os pesquisadores analisaram diferentes formas de aplicar a terapia e observaram não só o efeito direto sobre o tumor, mas também sobre os vasos sanguíneos ao redor. Isso é importante porque esses vasos são responsáveis por levar oxigênio e nutrientes às células do câncer, e danificá-los pode interromper o crescimento do tumor.
Usando camundongos com tumores de pele semelhantes aos humanos, a equipe comparou a aplicação do medicamento diretamente na pele com sua administração pela corrente sanguínea, além de testar diferentes intensidades e tempos de iluminação.
Os resultados mostraram que protocolos de luz mais intensos, aplicados por menos tempo, causaram maiores danos aos vasos sanguíneos do tumor — um fator que pode ser crucial para a eficácia do tratamento. Curiosamente, nem sempre a maior quantidade de medicamento no local significou maior destruição do câncer. Em alguns casos, o impacto sobre a circulação sanguínea foi mais decisivo do que a concentração da substância usada.
Outro achado importante foi observar como a pele saudável reage: logo após o tratamento, houve uma redução temporária do fluxo de sangue na região, seguida de recuperação gradual. Esse comportamento ajuda a explicar por que muitos tratamentos clínicos são realizados em mais de uma sessão, respeitando o tempo de regeneração do tecido.
Os pesquisadores também reforçam uma estratégia já empregada no Brasil, que é realizar duas sessões da terapia no mesmo dia com um intervalo curto entre elas para aproveitar picos temporários de circulação e potencializar os efeitos.
Embora os testes tenham sido feitos em animais, os dados são promissores e ajudam a iniciar um caminho para tratamentos de câncer de pele mais eficazes, menos invasivos e adaptados à realidade do sistema de saúde. A expectativa é que, com mais estudos e refinamentos, essa terapia possa beneficiar um número ainda maior de pacientes, oferecendo resultados melhores e com menos efeitos colaterais.