Prevenção HIV

Infectologistas de São Carlos comemoram decisão da Anvisa de aprovar novo fármaco

Sunlenca (lenacapavir) se torna nova ferramenta para PrEP e é a grande novidade em 2026 para combater o HIV

13 JAN 2026 • POR Jessica Carvalho R • 17h02

Dois médicos infectologistas ouvidos com exclusividade pelo São Carlos Agora nesta terça-feira, 13 de janeiro, comemoraram a decisão da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) de aprovar o uso do medicamento Sunlenca (lenacapavir) para a prevenção do HIV-1, como profilaxia pré-exposição (PrEP). O fármaco tem alta eficácia contra o vírus e, além da apresentação em comprimido para uso oral, está disponível como injeção subcutânea que precisa ser administrada apenas a cada seis meses, o que facilita a adesão.

A indicação é destinada a adultos e adolescentes a partir de 12 anos, com peso mínimo de 35 kg, que estejam sob risco de contrair o vírus. Antes de iniciar o tratamento, é obrigatório realizar teste com resultado negativo para HIV-1.

Os estudos clínicos apresentados demonstraram 100% de eficácia do Sunlenca na redução da incidência de HIV-1 em mulheres cisgênero, além de 96% de eficácia em comparação com a incidência de HIV de base e 89% superior à PrEP oral diária.

O regime de injeções semestrais mostrou boa adesão e persistência, superando desafios comuns em esquemas diários, informou a Anvisa, por meio de sua assessoria de imprensa.

A infectologista Bárbara Martins Lima afirma que as profilaxias pré-exposição para HIV atualmente disponíveis são eficazes, porém há falhas de adesão, pois devem ser utilizadas diariamente. Segundo ela, o lenacapavir tem a vantagem de ser semestral, o que provavelmente será uma boa estratégia para aumentar a adesão dos usuários.

Na ausência de uma vacina, segundo Bárbara, esse fármaco pode ajudar muito na redução de casos de AIDS. “Sim, se for alcançada melhor adesão pela população que tem indicação da profilaxia, o lenacapavir pode reduzir a incidência do HIV. Essa estratégia tem que ser combinada com as outras estratégias já utilizadas pelo Ministério da Saúde”.

Ela destaca que a medicação foi aprovada pela Anvisa, mas só será disponibilizada pelo SUS se for aprovada pela Conitec, que faz uma avaliação ampla da viabilidade da incorporação da medicação. “Se disponível pelo SUS, o remédio será fornecido para a população que tem indicação da profilaxia, que são as pessoas mais expostas”.

Ela também explica que o lenacapavir não funciona como uma vacina. “É um medicamento que atua precocemente ao atacar o vírus, caso a pessoa seja exposta. Não será administrado em massa, como costumam ser as vacinas, mas sim para populações específicas”. Bárbara ressalta que espera que a ciência consiga chegar à vacina contra o HIV. “Espero que sim! Muitos grupos trabalham para isso”, completa.

O infectologista Daniel Castorina destaca que a expectativa sobre o lenacapavir é muito alta. “É uma injeção semestral para evitar o HIV. Ele é um medicamento aplicado a cada seis meses. Ele mantém uma eficácia de 100% de proteção. Isso é muito importante para o combate à epidemia da AIDS. A expectativa é que o fármaco chegue ao Brasil em 2026, já sendo uma possível realidade para os brasileiros. Porque, às vezes, o estudo sai, mas não chega a todos os mercados. E tem a questão da negociação. Então, a ideia é que, além de ser incorporado pela Anvisa, ele também possa ser incorporado pelo SUS e distribuído gratuitamente para as pessoas se protegerem. Este tipo de fármaco tem a função de evitar que as pessoas que não têm HIV se infectem. Então, mesmo se a pessoa fizer sexo desprotegido com algum portador do HIV, ela não adquire a doença. É como se fosse uma vacina que você toma a cada seis meses e impede a aquisição do vírus”.

O médico explica que a Sunlenca (lenacapavir) não é uma vacina no sentido farmacológico, ou seja, no sentido de gerar uma resposta imune, como a produção de anticorpos. É um medicamento que circula no sangue da pessoa por seis meses, mantendo o efeito de proteção contra a infecção. “Chamamos isso de PrEP (Profilaxia Pré-Exposição). Temos uma alta expectativa de que o fármaco chegue ao Brasil ainda este ano e que seja rapidamente integrado aos medicamentos fornecidos gratuitamente pelo SUS. Ele também poderá ser comprado em drogarias e farmácias, e deve ter custo elevado”, esclarece Castorina.

PENDÊNCIAS PARA UTILIZAÇÃO – De acordo com a Anvisa, a Sunlenca é um antirretroviral inovador composto por lenacapavir, um fármaco de primeira classe que atua inibindo múltiplos estágios da função do capsídeo do HIV-1.

Essa ação impede a replicação do vírus, tornando-o incapaz de sustentar a transcrição reversa, processo necessário para que utilize as células do hospedeiro para se multiplicar.

A agência advertiu que, embora o registro tenha sido concedido, o medicamento ainda depende da definição do preço máximo pela Câmara de Regulação do Mercado de Medicamentos (CMED).

Já sua disponibilização no Sistema Único de Saúde (SUS) será avaliada pela Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no Sistema Único de Saúde (Conitec) e pelo Ministério da Saúde.

PREVENÇÃO – A profilaxia pré-exposição (PrEP) é uma estratégia essencial para prevenir a infecção pelo HIV. Ela envolve o uso de medicamentos antirretrovirais por pessoas que não têm o vírus, mas estão sob risco de contrair a doença, reduzindo significativamente as chances de transmissão.

A PrEP faz parte da chamada “prevenção combinada”, que inclui outras medidas, como testagem regular para HIV, uso de preservativos, tratamento antirretroviral (TARV), profilaxia pós-exposição (PEP) e cuidados específicos para gestantes soropositivas, esclareceu a agência.

O lenacapavir passou a ser recomendado pela Organização Mundial da Saúde (OMS) em julho de 2025 como opção adicional para PrEP, classificando-o como a melhor alternativa após uma vacina, recurso que ainda não está disponível no caso da prevenção do HIV. (Com informações da Agência Brasil).