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sexta, 22 de janeiro de 2021
Todo cuidado é pouco

Em meio a pandemia, infectologista da UFSCar recomenda Natal e Ano Novo a distância

Médico, Bernardino Souto diz que segunda onda da Covid-19 chegou ao Estado de São Paulo e cidade tem aumento de casos

03 Dez 2020 - 07h11Por Marcos Escrivani
“É muito importante e necessário que as pessoas só saiam de casa em caso de extrema necessidade” - Crédito: Divulgação“É muito importante e necessário que as pessoas só saiam de casa em caso de extrema necessidade” - Crédito: Divulgação

“Todo cuidado é pouco”. Com esta frase, o professor no Curso de Medicina da UFSCar, Bernardino Geraldo Alves Souto, 57 anos, justificou o momento em que São Carlos atravessa quanto a pandemia da Covid-19.

Médico intensivista e clínico com especialização Lato sensu em epidemiologia, com mestrado, doutorado e pós-doutorado em infectologia, Souto forneceu informações sobre o atual momento da pandemia, salientando que nas festas de final de ano, as tradicionais confraternizações não são recomendadas, a não ser aquelas em que as pessoas residam na mesma casa.

“É absolutamente desaconselhável aglomerações, festas, reuniões familiares com pessoas que não moram na mesma casa”, orientou Souto. O professor da UFSCar observou ainda que, quando menos intimidade física, mais seguro. “É importante evitar chegar perto das pessoas por uma distância menor que 2m. Além do uso de máscara e álcool em gel”, analisou.

AUMENTO DE CASOS EM SÃO CARLOS

Durante a entrevista fornecida ao São Carlos Agora, Souto disse que nas últimas semanas os casos de pessoas infectadas pela doença aumentou e isso seria um sinal de alerta tanto para a população, quanto para as autoridades sanitárias, uma vez que ocorreu um certo afrouxamento. “A última semana em São Carlos foi a que acumulou maior número de mortes em relação às semanas anteriores. Nesse sentido, realmente há uma expectativa de aumento da demanda por internações hospitalares de pessoas com Covid-19”, alertou.

SEM NOVO-NORMAL

O chamado “novo normal” irá demorar um pouco na opinião de Souto. Segundo ele, a perspectiva para isso ficará somente para 2022, após pelo menos 85% da população Brasileira, o que corresponde a aproximadamente 400 milhões de pessoas estarem imunizadas.

“Fazer tudo isso leva tempo, logística e investimento. Provavelmente não teremos tudo isso concluído em 2021 e precisaremos adentrar 2022 ainda vacinando pessoas na tentativa de alcançar uma quantidade de pessoas vacinadas tal que consiga efetivamente conter a doença na população”, analisou, salientando que, dessa forma, em 2021 o ano letivo estará novamente comprometido. “A ausência de qualquer política pública qualificada no país para o combate à pandemia e para a modernização dos processos de ensino-aprendizagem é o que mais colabora para o sacrifício da educação neste momento”, pontuou.

A ENTREVISTA

São Carlos Agora - Com a proximidade do final de ano e consequentemente Natal e Ano Novo, datas conhecidas como confraternização familiar e de amigos. Em tempos de pandemia, como proceder? É aconselhável reuniões?

Bernardino Geraldo Alves Souto - A segunda onda da epidemia já começou e ameaça ser pior que a primeira. É absolutamente desaconselhável aglomerações, festas, reuniões familiares com pessoas que não moram na mesma casa, etc. É muito importante e necessário que as pessoas só saiam de casa em caso de extrema necessidade, não se aglomerem, usem máscaras sempre que saírem, nunca se aproximem de ninguém fora de casa por uma distância mínima de 2m, não frequentem ambientes fechados e mal ventilados, evitem usar transporte coletivo, lavem as mãos e objetos com frequência, etc.

SCA - É momento de abraços e beijos entre parentes e amigos? O perigo é iminente?

Bernardino Souto - Infelizmente, quanto menos intimidade física, mais seguro. É importante evitar chegar perto das pessoas por uma distância menor que 2m, bem como não dar aperto de mão, beijos ou abraços quando for cumprimentar. É chato isso, mas, é o que é mais seguro contra a transmissão do vírus da Covid-19.

SCA - Em nota divulgada pela assessoria de imprensa da Santa Casa, dá conta que a média móvel da infecção aumentou em São Carlos. O que o senhor credita a esse fato?

Bernardino Souto - Segundo os dados divulgados da diariamente no site da Prefeitura, a média de pessoas diariamente em internação com diagnóstico confirmado de Covid-19 no mês de novembro não mudou muito em relação ao mês anterior. Entretanto, a taxa de transmissibilidade da doença aumentou, mostrando um potencial de reascensão do número diário de novos casos, o que pode repercutir em aumento das internações. A última semana em São Carlos foi a que acumulou maior número de mortes em relação às semanas anteriores. Nesse sentido, realmente há uma expectativa de aumento da demanda por internações hospitalares de pessoas com Covid-19. Os dois últimos boletins (de 30/11 e 1/12/2020) mostram uma taxa de ocupação hospitalar de 50% contra 35,8% no mesmo período do mês anterior.

SCA - Acha que estamos entrando em uma segunda onda da Covid-19?

Bernardino Souto - O Brasil e o Estado de SP já entraram na segunda onda. São Carlos ainda mantém uma certa instabilidade do número de novos casos diários com tendência a crescimento. A taxa de transmissibilidade, que mede o quanto a doença se espalha, em São Carlos subiu de 1,19 para 1,25 entre outubro e novembro, mostrando um crescimento na disseminação da doença. Este dado depende muito das testagens que são feitas. No caso de São Carlos, no mês de outubro houve uma queda do número de testes que vinha sendo realizado mensalmente, podendo isso fazer com que o número de casos notificados e a taxa de crescimento fiquem subestimados. O número de testes aumentou em novembro em relação a outubro e isso pode estar influenciando os crescimentos apontados. Entretanto, os demais indicadores de controle da pandemia como número de novos casos diários, proporção de testes positivos entre todos os testados, etc, apontam para uma epidemia ainda fora de controle em São Carlos com potencial de crescimento do número de novos casos diários da doença.

SCA - Há temor que ocorra restrições no comércio para que se evite a propagação ou orientação para que a população procure obedecer os protocolos de segurança?

Bernardino Souto - A condição para as coisas funcionarem é combater a epidemia. Quando falamos em retorno ou manutenção de atividades sem colocar como pré-requisito o controle da pandemia, erramos no encaminhamento. É preciso ter clareza que se não combatermos a epidemia, não tem como voltar nada ao normal. Portanto, seria interessante que parássemos de falar em retorno de escolas, comércio, etc. e passássemos a combater a epidemia para que esses retornos sejam possíveis sem que tenham que causar morte de pessoas. Protocolos de segurança só são efetivamente úteis para combater a pandemia quando o número diário de novos casos começar a cair. Antes disso, não há protocolo suficientemente seguro contra a pandemia, ainda que possa, de algum modo, ajudar na proteção individual. É importante entender a diferença entre risco individual e risco coletivo. Quando uso máscara e me protejo em um ambiente qualquer, estou controlando o meu risco pessoal; o risco individual. Quando circulo pela cidade e vou aos lugares, por mais que esses lugares tenham protocolos contra a Covid-19, ajudo a manter o vírus circulando também. Esta circulação (transmissão comunitária) é o que mais pode favorecer a ocorrência de casos que, afetando pessoas com maior risco de morrer por Covid-19 devido à sua condição biológica (idosos, pessoas com diabetes, pressão alta, obesidade, etc.), poderá levar grande número de pessoas à morte. A única maneira de evitar tudo isso é impedindo a circulação comunitária do vírus. Para isso, é preciso muito isolamento social e serviços de vigilância epidemiológica e atenção básica de saúde com infraestrutura, equipamento, apoio jurídico, pessoal, etc. para que consiga garantir isolamento e testagem de pessoas com suspeita de Covid-19 e seus contactantes em um momento muito inicial da infecção. Se o comércio não quer restrições, é preciso combater a epidemia. Se não houver nenhuma restrição no cenário atual, a epidemia ficará pior, o que é ruim para o próprio comércio.

SCA - O senhor acredita que, em 2021, com a chegada de vacinas a vida retornará a rotina diária ou isso irá demorar?

Bernardino Souto - Ainda não existe vacina contra a Covid e não sabemos exatamente quando existirá. Os estudos clínicos atuais estão com previsão de conclusão até junho de 2021. Depois disso, é necessário produzir e controlar a qualidade da vacina em larga escala, treinar pessoa para vacinação, criar estrutura para transporte e conservação de vacinas, montar as condições necessárias com insumos (seringas, agulhas, etc.) para vacinar as pessoas, entre outras coisas. Além disso, para que a curva epidêmica caia à custa da vacina, é preciso ter 85% ou mais da população vacinada, o que, no Brasil, significa em mais de 400 milhões de doses aplicadas. Fazer tudo isso leva tempo, logística e investimento. Provavelmente não teremos tudo isso concluído em 2021 e precisaremos adentrar 2022 ainda vacinando pessoas na tentativa de alcançar uma quantidade de pessoas vacinadas tal que consiga efetivamente conter a doença na população. Se a vacina, ao ser aplicada inicialmente em pessoas que correm risco de morte por Covid-19, já for capaz de, pelo menos, diminuir a mortalidade na população por esta doença, já vai ser um grande ganho. Talvez este seja o melhor resultado que podemos esperar para o fim de 2021.

SCA - Em 2020 o ano letivo foi prejudicado. Em 2021 isso pode ocorrer novamente?

Bernardino Souto - O ano letivo de 2021 provavelmente ficará prejudicado também porque as próximas ondas da epidemia que já estão aí prometem ser piores do que o que foi em 2020. A ausência de qualquer política pública qualificada no país para o combate à pandemia e para a modernização dos processos de ensino-aprendizagem é o que mais colabora para o sacrifício da educação neste momento.

SCA - Considerações finais:

Bernardino Souto - Precisamos pressionar os governos para efetivamente combaterem a epidemia no país. A ausência de políticas públicas minimamente competentes para isso nos colocou numa situação de expor a vida ao risco de morte ao tentar mantê-la. Ao mesmo tempo, as pessoas precisam colaborar: usar máscara, só sair de casa em caso de extrema necessidade, não ser reunirem nem se aglomerarem nas festas de fim de ano e outras, manter os espaços sempre arejados, manter distância física mínima de 2m entre uma pessoa e outra, etc. Ultimamente tem sido comum vermos barzinhos e outros estabelecimentos cheios de pessoas próximas umas das outras e sem máscara, mas, é importante que as pessoas entendam que, fazendo isso, estão colaborando para a morte de milhares de outras.

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