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domingo, 11 de abril de 2021
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Abaixo-assinado quer inclusão de tratamento precoce contra a Covid-19 em São Carlos

Publicitário que idealizou a iniciativa afirmou que medicamentos podem ser utilizados na fase inicial da doença; infectologista contesta

06 Abr 2021 - 14h18Por Marcos Escrivani
Para Daniel Lima, tratamento precoce da Covid-19 iria ajudar pacientes diagnosticados na fase inicial da infecção - Crédito: DivulgaçãoPara Daniel Lima, tratamento precoce da Covid-19 iria ajudar pacientes diagnosticados na fase inicial da infecção - Crédito: Divulgação

De iniciativa do publicitário Daniel Lima, foi idealizado em São Carlos, uma petição pública a favor do tratamento precoce contra a Covid-19, a qual já tem mais de 3,1 mil assinaturas. Já o médico especialista em epidemiologia, clínica médica e medicina intensiva, Bernardino Geraldo Alves Souto, com mestrado, doutorado e pós-doutorado em infectologia, professor no Departamento de Medicina e no Programa de Pós-graduação em Gestão da Clínica e coordenador técnico do Comitê Gestor da Pandemia da UFSCar, contesta. Segundo ele, “o abaixo-assinado vem em uma hora infeliz”.

Diante do quadro de evolução da pandemia, com o número de óbitos passando as 200 mortes em São Carlos, onde o sistema de saúde se encontra colapsado com 100% dos leitos de UTI ocupados, na rede pública e privada, o tratamento precoce poderia ser uma alça auxiliar no combate à Covid-19 na ótica do publicitário.

''O abaixo-assinado nasceu quando fiz uma live, na casa de meu pai (o pediatra Normando Lima), o qual também apoia o tratamento precoce, onde milhares de pessoas visualizaram o vídeo com centenas de comentários apoiando a iniciativa. Porém, no dia seguinte o vídeo foi denunciado e bloqueado pelo Facebook. O que estranhamos muito'', afirmou Daniel.

''Mais do que o apoio popular, são os relatos dos médicos sobre os êxitos quando se fecha diagnóstico precocemente e começa a tratar o paciente logo no início dos sintomas. O tratamento precoce é uma conduta-padrão médica. Toda, absolutamente toda doença quando diagnosticada e tratada precocemente, isto é, na fase inicial da doença, o prognóstico é de aumentar as chances de cura. Essa terapêutica é padrão. E no combate ao Covid não há de ser diferente, ainda mais quando vemos toda uma sociedade sofrer os reflexos que ela provoca'', salientou o publicitário.

O abaixo-assinado tem como objetivo sensibilizar toda a classe médica para que adote o tratamento precoce, com o apoio e o clamor popular, para que as terapêuticas médicas sejam abordadas de forma mais pontual e assertiva, no momento inicial dos sintomas.

''Várias são as cidades que estão adotando o tratamento precoce e tendo sucesso. Veja o caso de Chapecó, São Lourenço, Orlândia, Búzios, Porto Feliz, Porto Seguro, cidades do Pará e centenas de outras as quais já apresentam uma melhora significativa no número de internações e óbitos, que vem diminuindo drasticamente. O tratamento não é uma promessa de cura, mas uma alternativa ao doente, e que deseja assim ser tratado com medicamentos seguros, prescritos por médicos, sempre'', observou.

O abaixo-assinado será encaminhado primeiramente à Sociedade Médica de São Carlos, Unimed, Grupo São Francisco, Santa Casa, Prefeitura, Câmara Municipal, Acisc, Ciesp, OAB, Ministério Público e Defensoria Pública.

Hoje o documento conta com mais de 3,1 mil assinaturas, onde as pessoas desejam, por força desse manifesto popular, pedir às autoridades médicas e instituições que possibilitem mais essa abordagem terapêutica para com o paciente de Covid-19.

Daniel salienta que o tratamento precoce pressupõe todos os medicamentos já entendidos como auxiliares no combate à infecção, quando do estágio inicial da doença, a evitar na fase 1 a replicação viral e o fortalecimento imunológico do paciente. Os medicamentos são drogas já entendidas como seguras e, quando administradas por médicos, considerando as características de cada paciente, apresentam resultados positivos na recuperação e, principalmente, evitando que o paciente não vá para a fase inflamatória na forma aguda e, assim, o paciente não precisaria, em sua grande maioria, de internação hospitalar.

Segundo Daniel, muitos são os casos de médicos de São Carlos, que estariam tratando há um ano pacientes que teriam tido a Covid, onde o número de internações necessárias são baixíssimos.

“É importante ressaltar que qualquer medicamento pode ter reação adversa em qualquer paciente. Os poucos casos que foram informados sobre complicação renal e do fígado, não ficou claro nas reportagens as condições de que esse paciente se acometeu, podendo ter se auto medicado, o que é uma prática condenável. Sempre os medicamentos devem ser prescritos pelo médico com o devido acompanhamento. E, quando isso acontece, nenhum caso de hepatoxidade foi relatado, em São Carlos”, informou o publicitário. ''Estamos num momento de guerra, e temos que combater esse inimigo invisível com as armas que temos. A clínica médica tem mostrado que, quando combatidos com as armas que já temos, medicamentos consolidados em outras terapêuticas, foi estabelecido que podem e devem também serem usados para essa batalha (a qual os médicos estão vencendo, em sua maioria). Não se tem tempo para estudos duplo cego randomizado in vitro. Eficácia gold 1A demora anos e anos para se ter. E o momento é de guerra. E é isso que o povo clama e precisa. Ter o suporte necessário para que as vidas não sejam ceifadas. Ter uma presença médica mais assertiva e propositiva. É o que clamamos como povo.'' reiterou Daniel Lima.

Várias discussões tomaram as páginas dos noticiários quanto à Nota da AMB - Associação de Médicos do Brasil, contrária ao tratamento precoce, porém o CFM (Conselho Federal de Medicina), órgão máximo da medicina no Brasil, em nota oficial de 25 de março, frisou a independência do médico em usar as terapêuticas que ele assim julgar melhor, ainda mais num momento de excepcionalidade que vivemos.

Além disso, de acordo com Daniel, uma nota oficial com milhares de médicos que apoiam o tratamento precoce, foi entregue ao CFM, os quais fazem parte do movimento Médicos pela Vida, plataforma que traz suporte aos médicos quanto às informações, estudos, palestras e debates que embasam e atualizam os médicos em relação ao combate à Covid-19 (https://medicospelavidacovid19.com.br/).

''É diante do bem maior à vida das pessoas que este abaixo-assinado foi elaborado. Para dar força à classe médica, daqueles que apoiam esse tratamento e, principalmente aos doentes de hoje e de amanhã'', finalizou Daniel Lima.

O abaixo-assinado encontra-se neste link. (Por volta das 14h30 a plataforma Change Brasil onde o abaixo-assinado estava hospedado retirou do ar, sem explicação, o documento. Daniel Lima disse que entrou em contato e quer explicações sobre o motivo de tal atitude).

NENHUM MEDICAMENTO É EFICAZ

Bernardino Alves Souto é professor do curso de medicina e coordenador técnico do Comitê Gestor da Pandemia da UFSCarBernardino Alves Souto é professor do curso de medicina e coordenador técnico do Comitê Gestor da Pandemia da UFSCar

Sobre a questão do tratamento precoce, o São Carlos Agora procurou ouvir o médico especialista em epidemiologia, clínica médica e medicina intensiva, Bernardino Geraldo Alves Souto, com mestrado, doutorado e pós-doutorado em infectologia, professor no Departamento de Medicina e no Programa de Pós-graduação em Gestão da Clínica e coordenador técnico do Comitê Gestor da Pandemia da UFSCar. Segundo ele, o abaixo- assinado vem em uma hora infeliz.

Souto foi taxativo ao afirmar que não existe nenhum medicamento capaz de evitar a replicação viral do SARS-CoV-2 ou de fortalecer o sistema imunológico contra este vírus. “Os medicamentos que têm sido leigamente propostos para uso nas fases iniciais e não complicadas da covid para evitar má evolução clínica, como como ivermectina, cloroquina, azitromicina e outros são drogas com potencial tóxico e sem nenhum efeito sobre a Covid-19. Os estudos a respeito não identificaram resultados positivos na recuperação de pacientes com Covid por meio desses medicamentos. O que pode prevenir a Covid e reduzir a necessidade de internação hospitalar é a vacina e as medidas não farmacológicas como uso de máscara, distanciamento social, isolamento de infectados, etc.”, alertou. “O abaixo-assinado não tem nenhum potencial de ajuda em relação a controle da Covid”, reforçou.

O infectologista disse ainda que o perigo da adoção do tratamento precoce contra a Covid-19 com medicamentos potencialmente tóxicos e que não têm comprovação científica do benefício é que as pessoas poderão demorar mais para procurar hospital acreditando na medicação, atrasando o socorro médico necessário e tendo complicações por causa disso; poderão ter problemas de saúde induzidos pelos medicamentos; e poderão negligenciar outros cuidados preventivos acreditando que estariam protegidas pelos medicamentos.

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