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sábado, 17 de abril de 2021
Memória São-carlense

Um personagem extraordinário que se chamou Vicente Camargo

19 Abr 2019 - 07h00Por (*) Cirilo Braga
Um personagem extraordinário que se chamou Vicente Camargo - Crédito: Marco Antonio Leite Brandão/Thomaz Ceneviva Acervo SCC Crédito: Marco Antonio Leite Brandão/Thomaz Ceneviva Acervo SCC

Houve um são-carlense, homem do teatro, do direito e da comunicação que não conheci em vida, dele só ouvi falar e li bastante a respeito. Os textos, as fotos, os depoimentos, todavia, revelaram-me uma personalidade solar. Um ser humano cujo entusiasmo expandiu sua existência, infelizmente curta, como se já a seu tempo recitasse o verso de Tom Jobim: “Longa é a arte, tão breve a vida”.

Coloco-o, sem pestanejar, no panteão dos nomes dos grandes vultos da história local, e não é nenhum exagero. Seu nome: Vicente Paulo de Arruda Camargo (1921-1981).

 Em “Almanaque de São Carlos – Vicente Camargo e o Teatro Estudantil”, de 2011, o historiador Marco Antonio Leite Brandão, lançou luzes sobre sua trajetória, deixando ver a grandeza de um legado valioso para a educação, a cultura, a advocacia e a comunicação desta terra.

“Há pessoas que parecem predestinadas a elevar, a servir e amar as comunidades em que vivem, constituindo-se num ponto luminoso deste vasto universo”, resumiu o cronista Eduardo Kebbe, num texto publicado em sua partida, definindo-o, com justiça, como “uma figura extraordinária”.

Filho de Cleonice e José de Arruda Camargo, Vicente casou-se com Leonetti Zambel Camargo (1929-2000) e teve três filhos, Rubens, Heloisa e Vicente Filho. Fez seus estudos no Externato São Vicente de Paula em Campinas, depois nos grupos escolares em Jaboticabal, Bebedouro e Escola Modelo de São Carlos. Formou-se pelo então Colégio Estadual e Escola Normal Dr.Álvaro Guião, quando iniciou no mundo do teatro quando o estabelecimento era dirigido por Francisco Marmorato.

Presidiu o Centro Estudantino São-carlense, fundado em 1938, representando a escola. A entidade congregava alunos de várias escolas da cidade: Escola Profissional Paulino Botelho, Escola Técnica de Comércio D.Pedro II, Colégio São Carlos, Ginásio Diocesano e Colégio Estadual e Escola Normal Dr. Álvaro Guião.

Vicente prosseguiu os estudos em Campinas, licenciando-se em Filosofia pela Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras e, no Rio de Janeiro, graduando-se bacharel pela Faculdade de Direito de Niterói. As atividades de educador foram iniciadas em Campinas, na Academia de Comércio São Luiz e depois em Jaú, no Colégio Horácio Berlinck onde funda o “Teatro Educativo” e finalmente em São Carlos, onde sucedeu o professor Geraldo Pereira Lima na cadeira de Filosofia na Escola Normal em 1947. A peça “Pão Duro”, de Francisco Amaral Gurgel, inspirada em “O Avarento”, de Molière, revelou o talento de Vicente na pele de Augusto, o personagem central. A peça logo seria montada pelo TESC (Teatro do Estudante de São Carlos), conhecido como Teatro Normalista. Como diretor e ator, outros espetáculos do período, levados ao Cine São Carlos e ao Teatro São José, revelavam o talento de Vicente.

“Pão Duro” chegou a ser encenada com a presença de Pascoal Carlos Magno, ex-secretário da embaixada do Brasil em Londres, jornalista, poeta, romancista e autor de diversas peças de teatro.  Magno fundou o Teatro do Estudante do Brasil, que lançou o ator Sérgio Cardoso. Vicente também encenou “Anastácio” para o autor de peça, Joracy Camargo.

O monólogo “As Mãos de Euridice” foi sem dúvida o grande momento de Vicente Camargo como ator. A peça do dramaturgo carioca Pedro Bloch, cuja obra era estudada pelo ator são-carlense, foi encenada em 1952 na comemoração do quinto aniversário do TESC, no Cine Teatro São José. O sucesso se repetiu no dia 3 de fevereiro 1953, com renda em prol da Catedral, no Cine Teatro Avenida, inaugurado na semana anterior. A peça foi levada a mais de uma dezena de cidades do interior paulista, recebendo elogios de grandes nomes do Teatro, como Joracy Camargo, Pascoal Carlos Magno, Décio de Almeida Prado, Luiz Peixoto, Heckel Tavares e outros.

Vicente Camargo também teve participação na política local. Nas eleições municipais de 1955 concorreu a vereador pelo PRP (Partido de Representação Popular). Elegeu-se como o segundo mais votado. Na época exerceu também o cargo de consultor jurídico do SESI.

Na Rádio Progresso, fundada em 5 de abril de 1958, assumiu a função de diretor-gerente e organizador da programação cultural e artística.  No pequeno auditório da emissora, grandes programas foram apresentados, como o “Programa Infantil” aos domingos e “Divertimento Progresso” às quintas-feiras. Ali Jair Rodrigues se apresentava interpretando músicas de Agostinho dos Santos.

Em 1957, Vicente Camargo rearticulara o TESC para as celebrações do Centenário de São Carlos, dirigindo e atuando na peça de Molière “Médico à Força”. Os novos afazeres o impediram de seguir m atividade constante com os alunos da velha escola, restringindo-se às apresentações do monólogo. Em 1965, participou de comissões de organização e de júri da Federação de Teatro Amador do Estado de São Paulo (FETAC), ocupando também o cargo de conselheiro fiscal.

Em 1969, encenou pela última vez “As Mãos de Eurídice” para um festival de teatro de despedida do diretor Marcus Siqueira no Recife. Em 1972 assinaria o roteiro de “Esta noite falamos de Brasil”, encenado pelo grupo TIN (Teatro do Instituto).  Vicente, incansável, impulsionou em 1976 o “novo Teatro do Estudante”, o Clube de Teatro da Escola Alvaro Guião, tendo exaltado pela cronista Tania Censoni “o espírito criador de um verdadeiro gênio”.

Professor emérito, radialista cuja voz consagrou o popular “Informativo Progresso”, Vicente faleceu em novembro de 1981. São Carlos perdia, no dizer de Eduardo Kebbe “o guia seguro de gerações de estudantes, o orientador, o professor talentoso, o chefe de família exemplar, grande amigo, excelente intérprete de As Mãos de Euridice num tempo em que pouco se falava de teatro nesta cidade”.

“Benditas mãos criadoras de arte e de esperança, mãos que inovaram, que renovaram (...) mãos que ajudaram, que não odiaram, que não torturaram, que não se corromperam, que não se aviltaram, que não se envileceam, que não se envaideceram”, escreveu o cronista.

Sobre ele, o poeta Ambrosio dos Santos versejou: “Quem vê, na rua, o moço modelar/Que a modéstia possui por ornamento/Não pode, nem por sonhos calcular/Toda altura de seu grande talento”.

Vicente Camargo nunca perdia a humildade, como demonstrou em entrevista ao jornal “A Folha” em 1969, quando disse: “Fico nervoso antes de cada representação como se fosse a primeira. Nunca consegui libertar-me do medo desse “monstro de mil cabeças” que é o público”.

E acrescentava: “Meus maiores fãs são aqueles que estão em casa. Aliás, não poderia ser de outra forma, pois a família está comprometida com minha aventura teatral desde as suas origens. Comecei a namorar Leonetti numa representação de “Deus lhe pague”. Eu fazia o mendigo e ela a Nancy. Aí começou uma história que, felizmente, não terminou ao fechar o pano”.

Vicente de Arruda Camargo dá nome à Casa da Cultura, inaugurada em 11 de novembro de 1982, atual sede da Secretaria municipal de Educação, e também a uma praça localizada no bairro Jardim Cruzeiro do Sul. (Fonte Marco Antonio Leite Brandão/Thomaz Ceneviva Acervo SCC)

(*) O autor é cronista e assessor de comunicação em São Carlos  (MTb 32605) com atuação na Imprensa da cidade desde 1980. É autor do livro “Coluna do Adu – Sabe lá o que é isso?” (2016).

Esta coluna é uma peça de opinião e não necessariamente reflete a opinião do São Carlos Agora sobre o assunto.

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