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terça, 22 de setembro de 2020
Memória São-carlense

Romeu Aversa, o professor que marcou época na Imprensa e no poder público

05 Out 2018 - 07h00Por (*) Cirilo Braga
Romeu Aversa, o professor que marcou época na Imprensa e no poder público - Crédito: Arquivo público e álbum de família Crédito: Arquivo público e álbum de família

A gargalhada solta de Romeu Salvador Aversa após uma frase espirituosa, foi o instantâneo que me veio à mente, dia desses, ao ver a imagem dele ainda jovem, numa foto tirada na inauguração do estádio “Professor Luis Augusto de Oliveira”. Estava no gramado com ar circunspecto ao lado do padre e das autoridades, acompanhando atentamente a cerimônia.

Lá se vão cinquenta anos e o amigo saudoso (falecido precocemente na década passada), tornara-se um espelho para mim a partir da surpresa de conhecê-lo mais de perto no princípio dos anos 1980.

Eu já o conhecia à distância, como todo morador da cidade onde ele militou na educação, na política, na administração pública e na comunicação. Não era pouca coisa e encontrá-lo pessoalmente era estar diante do mestre que ilustrava os matutinos com sua sabedoria, o dono da voz grave e impostada do talentoso noticiarista, então correspondente da “Folha de S.Paulo”. Era marcante o jeito que ele pronunciava a palavra “Washington” na Rádio Progresso, na leitura matinal dos despachos de agências de notícias.

Romeu vivia uma situação surreal, no desterro ao qual fora lançado por questões políticas, por volta de 1984. Uma página que ele virou com sabedoria a partir da insólita presença no Museu Histórico e Pedagógico “Cerqueira César”, para mim transformado numa escola. Ali eu bebia na fonte da inteligência do professor em prosas saborosas que eram verdadeiras aulas de vida.

O mestre nem tinha os cabelos grisalhos, mas encantava ao falar das coisas da vida e do tempo e expressar com clareza a maneira como via o mundo. Humilde, agradecia minhas visitas de todas as tardes ao Museu quando, na verdade, eu é que tinha muito a agradecer.

O que ele imaginava ser um gesto apenas de solidariedade era para mim um sortilégio Vencíamos de certa maneira, o peso das dificuldades que ele enfrentava em razão da lealdade aos antigos governantes. “Poxa, que bom que você chegou!  Imagine que veio aqui um camarada tentando me provar que existe uma casca envolvendo o planeta.Vou acabar acreditando”, me dizia.

Ali no museu, que ficava no subsolo da Câmara, Romeu narrou a antiga lenda segundo a qual um rei que estava muito doente, ouviu dizer que seria salvo se pudesse encontrar um homem feliz e vestir sua camisa. Ordenou seus mensageiros que saíssem à procura desse homem.Eles cavalgaram por todo o reino, mas só encontravam gente que tinha algo a reclamar da vida. As esperanças quase findavam quando seu filho cavalgava pelos campos e, ao passar perto de uma cabana ouviu alguém dizer: "Obrigado Senhor! Concluí meu trabalho diário e ajudei meu semelhante. Comi meu alimento, e agora posso deitar-me e dormir em paz. O que mais poderia desejar?"  Exultante por ter, finalmente, encontrado um homem feliz, o príncipe mandou que seus homens fossem até lá e levassem a camisa do homem ao rei e lhe pagassem o quanto pedisse. Mas quando os mensageiros do rei entraram na cabana para despir a camisa do homem feliz, descobriram que ele era tão pobre que sequer possuía uma camisa.

Eu reparava no reluzente anel de rubi que o identificava como um advogado,um homem das ciências jurídicas. Alguém que cultivava a simplicidade sem abrir mão de refinados conceitos estéticos e do aroma achocolatado dos cachimbos, companheiros na produção dos textos publicados em “A Tribuna”, recheados de dizeres em latim. “Quousque tandem abutere Catilina patientia nostra?” era a frase que emprestava de Cícero para dar a medida de sua indignação, vez por outra. Para dizer que num determinado momento, alguns líderes deterioravam o prestígio da cidade perante os governos, titulou: “Delenda São Carlos”,numa alusão ao dizer de outro romano, Catão ("Delenda est Cartago”).Eram sutilezas a que recorria esgrimindo com a espada da cultura, sua mais poderosa arma. Pode ter havido na história local alguém com o mesmo talento, mas ninguém melhor que Romeu Aversa para compor as epístolas da São Carlos de uma época do qual não foi mero observador; foi figura de proa.

Romeu tinha a inquietude de quem parecia sempre estar iniciando algo novo. A simbiose do professor e do repórter resultava num homem realista. Não era um realismo acomodado, mas transformador. Isso fascinava o menino que eu era, tanto quanto ouvir dele a frase: “Eu sou você amanhã”, com que brincava citando o então famoso comercial da vodka Orloff.

Dali do Museu e nas páginas do jornal puxou a mobilização que manteve de pé o prédio da Escola Coronel Paulino Carlos na Praça Coronel Salles. Outro amigo já falecido, Walter Blanco, gostava de recordar os momentos em que a “prisão” do Romeu virava um “bunker” naquela empreitada cívica. Incrível que houvesse perspectivas sombrias no momento em que o Brasil se vestia de amarelo para pedir Diretas Já.

Nascido em 1940, Romeu começou a trabalhar aos 10 anos de idade em consequência da morte do pai. O primeiro emprego foi como balconista de uma loja de autopeças, mas o destino lhe reservaria o privilégio de testemunhar capítulos importantes da trajetória de sua cidade natal. Foi vereador aos 19 anos, depois presidente do SAAE, coordenador de estágio na Faculdade de Direito, secretário municipal de Educação e de Comunicação da Prefeitura, coordenador do Procon e da Defesa Civil e nome de destaque na imprensa da cidade como jornalista de “A Folha”, “A Tribuna” e “Primeira Página” e radialista da Rádio Progresso.

Em todas as vertentes de atuação, fez valer seu preparo intelectual e notável presença de espírito. Mas seu grande feito, segundo ele próprio, foi construir uma família com a esposa Ângela. O pai de Amelinha, Walkyria e Robinson sustentava que um lar é a maior obra que um homem pode edificar. Repetia isso muitas vezes com aquele seu jeito de mirar fixamente os olhos do interlocutor, entre uma conversa e outra.

Citava Horácio e Sêneca: “É feliz e senhor de si mesmo quem ao fim do dia pode dizer: eu vivi”. “Enquanto o homem não souber para a que porto quer ir, nenhum vento será o vento certo”. Imagino como se divertiria hoje nesses tempos de internet, redes sociais e comunicação instantânea.

Romeu sempre soube o caminho de seu navegar e teve a generosidade de indicar a rota para quem o seguia. A vida é muito breve e é preciso se dar conta da importância de aproveitar cada momento, guardar no coração os bons sentimentos e nunca perder a conexão com o amor e a beleza.

Estas as lições que Romeu Aversa deixou gravadas no pergaminho de sua vida. Sendo verdade que cada um de nós vem ao mundo para dar um recado pessoal, ele cumpriu a contento a sua missão. Até hoje é lembrado com saudade por seus amigos e colegas – cada um recordando-se de um trecho do caminho que trilhou.

(*) O autor é cronista e assessor de comunicação em São Carlos  (MTb 32605) com atuação na Imprensa da cidade desde 1980. É autor do livro “Coluna do Adu – Sabe lá o que é isso?” (2016).

Esta coluna é uma peça de opinião e não necessariamente reflete a opinião do São Carlos Agora sobre o assunto.

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