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terça, 18 de junho de 2019
Artigo Raquel Auxiliadora

Quantas Gravelinas terão ainda que morrer?

27 Fev 2019 - 13h24Por (*) Raquel Auxiliadora
Quantas Gravelinas terão ainda que morrer? - Crédito: Maycon Maximino Crédito: Maycon Maximino

Em março de 1997, a morte de Gravelina Terezinha Lemes chocou a cidade de São Carlos. Morta pelo marido ela buscou ajuda nos órgãos de proteção e nenhum teve condições de protegê-la. A cena do crime - uma mãe morta, com o seu bebê que ainda sugava o leite do seu seio - ainda está na memória de muitas pessoas que passaram a lutar pelo fim da violência contra a mulher.

Bastou uma Gravelina morrer para que o ex-Prefeito Newton Lima Neto, em seus primeiros atos, inaugurasse a Casa Abrigo “Gravelina Terezinha Lemes”, que desde então vem salvando a vida de muitas mulheres.

Porém, em 2019, já sofremos o nosso terceiro feminicídio em São Carlos. Digo nós, pois toda vez que uma mulher morre, toda a sociedade também é vitima. Da impunidade, da ausência de políticas publicas, de humanidade. O Brasil é o 5º pais no ranking de feminicídos do mundo, com três mulheres mortas por dia. E, infelizmente, esses índices estão em crescimento.

Quantas Gravelinhas terão de morrer em nosso município para que o atual Prefeito Airton Garcia tome uma atitude e reabra o Centro de Referência da Mulher (CRM)?

O CRM é uma unidade pública que além de atender as mulheres vítimas de violência, é um centro de expertise no tema, realizando formação de profissionais, estudos, pesquisas e articulando a rede de serviços de atendimento às mulheres. O enfrentamento da violência de gênero, só se dá pela ação articulada entre as instituições/serviços governamentais, não-governamentais e a comunidade, visando o desenvolvimento de estratégias efetivas de prevenção e de políticas que garantam o empoderamento e a construção da autonomia das mulheres, os seus direitos humanos, a responsabilização dos agressores e a assistência qualificada às mulheres em situação de violência.

Inaugurado em 2008, por meio de um convênio com o Governo Federal, que investiu mais de R$ 150mil, o CRM atendia em média 40 mulheres por mês no ano de 2012. Atualmente o atendimento é feito no CREAS (Centro de Referência Especializado na Assistência Social) e nos primeiro seis meses de 2018, atendeu apenas 47 mulheres.

Está clara a ausência de ação do Estado nessa área em São Carlos. Enquanto todos os índices brasileiros de violência contra a mulheres aumentam, o atendimento pela Prefeitura diminui. Ou seja, muitas mulheres estão desamparadas na busca de serviços públicos que ajudem a romper o ciclo da violência.

Não podemos mais esperar no velório a ação do poder público. Pela vida das Gravelinas, Larissas, Marizas e Elis. Todas estão presentes em nossa luta por um mundo livre de violência contra as mulheres.

(*) A autora é Mestre em Educação com especialização em Educação de Jovens e Adultos e graduação em Pedagogia. Atuou como gestora de políticas para as Mulheres na Prefeitura Municipal de São Carlos (2007-2012), implantando e coordenando o Centro de Referência da Mulher. Foi coordenadora do Fórum Nacional de Gestoras de Políticas paras as mulheres da Frente Nacional de Prefeitos. Atuando principalmente nos seguintes temas: relações de gênero, violência contra a mulher, políticas públicas, feminismo, direitos das mulheres. Fundadora e membro do Coletivo de Promotoras Legais Populares de São Carlos.

Esta coluna é uma peça de opinião e não necessariamente reflete a opinião do São Carlos Agora sobre o assunto.

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