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domingo, 20 de setembro de 2020
Memória São-carlense

Professor Zé Índio, uma vida dedicada à educação e ao esporte

08 Jun 2018 - 06h22Por (*) Cirilo Braga
Professor Zé Índio, uma vida dedicada à educação e ao esporte - Crédito: Ramira da Silva Pires Crédito: Ramira da Silva Pires

No dia 16 de junho de 2016 o município de São Carlos marcou uma cesta de três pontos ao editar a Lei Municipal No.17.881, que deu o nome de José Manuel da Silva – Professor Zé Índio (1927-2010) à pista de atletismo localizada no Centro Olímpico Bichara Damha, na Fazenda São Miguel, uma justa homenagem proposta pelo ex-vereador Antonio Rubens Ratti.

Quem viveu em São Carlos entre os anos 1950 e 2000 acompanhou a trajetória do professor de Educação Física que ao longo da vida ensinou a prática de diversas modalidades em escolas da cidade e participou de eventos e jornadas esportivas na fase áurea do desporto são-carlense.

Zé Índio era muito próximo dos alunos e dos muitos amigos conquistados ao longo da vida, daí o apelido ser familiar para muitas gerações de são-carlenses. Quem estudou no Instituto de Educação Dr. Álvaro Guião, o conheceu em grande estilo, lecionando na quadra poliesportiva da mais tradicional escola da cidade. Foram 23 anos nessa função, entre 1960 e 1983, tendo - entre outros feitos - liderado em 1961 a campanha para a construção e iluminação daquela mesma quadra, inaugurada durante as comemorações do “Jubileu de Ouro” da escola.

Meninos das turmas do ginásio – hoje o segundo ciclo do ensino fundamental – costumam ser craques em transformar o tédio em melodia, como dizia o cantor. E seria de fato entediante fazer aulas de educação física nos anos 1970, não fosse essa qualidade da pré-adolescência, somada ao talento do mestre ou, melhor dizendo, do maestro Zé Índio.

Formado em 1950 pela tradicional Escola Superior de Educação Física de São Carlos, Zé Índio obteve formação como técnico em Atletismo, Voleibol e Futebol, coisa rara até hoje no país. Baixinho, de cabelos pretos e bigode bem aparado, eternamente trajando agasalho esportivo, ele se moldava ao apelido que conservava desde os tempos em que estudou no Colégio Diocesano, vindo da Usina Tamoio, onde seu pai era administrador de fazenda.

O filho de Leandro da Silva e Maria Ferreira nasceu em São Manuel, em 1927 e adotou São Carlos como sua cidade desde muito jovem. Casou-se com a professora Maria Bernardette Siqueira da Silva e teve três filhos.

A silhueta e o figurino imutáveis o identificavam desde os tempos de ponta-direita do Paulista, de preparador físico do Bandeirante e de presidente da Comissão Central de Esportes que muito fez pelo esporte e a educação em São Carlos.

Em 1961 Zé Índio foi responsável pela realização dos Jogos Estudantinos “Jubileu de Ouro”, coordenou a demonstração de Ginástica Coletiva de alunos das escolas de São Carlos, no Estádio do Paulista e mais tarde o Festival Ginastrada, com apresentação de Academias de Dança da região, tendo estado à frente da campanha para a criação da Banda Marcial do Instituto de Educação.

Como professor, treinou equipes mirim, infantil e juvenil do Instituto de Edução nos tradicionais torneios NOR-DI (Escola Normal e Colégio Diocesano) e NOR – DI- ENG (Escola Normal, Colégio Diocesano e Escola de Engenharia), além dos  Jogos da Primavera e campeonatos colegiais de esportes do Estado.

Em 1962, foi membro da Comissão para a Organização dos Jogos Regionais realizados em São Carlos e treze anos depois foi responsável pela indicação da cidade como sede dos Jogos Regionais de 1975.

Ali no Instituto de Educação, ao longo de muitos anos Zé Índio ensinou os meninos e dona Haydée Pozzi, as meninas. Assim, legiões de alunos do ginásio aprenderam a gostar de esportes como o vôlei desde quando isso parecia exótico.

Havia quem não gostasse do rodízio nas partidas de voleibol na quadra do “Instituto” e era uma festa quando o time conseguia fazer uma jogada de três toques, com levantamento e cortada.  O aprendizado de noções de esportes era envolto no misto de seriedade e diversão, alternando carrancas e gargalhadas em seguida ao aquecimento geral que já baqueava os alunos mais fora de forma.

Treinar fundamentos de basquete, handebol e voleibol era empolgante. Havia um revezamento e ninguém saía sem chumbo. Baixinho, vareta, rechonchudo ou magrelo, todos iam para o gol, todos sacavam, todos treinavam passes. O professor insistia em vetar o futebol de salão. Era preciso se contentar com o basquete, certamente o esporte que mais nos dá noção de tática, organização e espírito coletivo.

Compreendia-se logo a didática do professor Zé Índio.Seria banal entregar aos alunos uma bola de futebol de salão. Mas se assim fosse, não haveria o democrático processo de montagem dos times. Num dia os mais habilidosos escolhiam os companheiros, noutros os cabeças-de-bagre, alternadamente e assim estava garantido o equilíbrio da peleja.

“A falta é um recurso do jogo”, dizia o “seu” Zé, antecipando em algumas décadas o estilo dos atuais técnicos de futebol, chamados de “professores”. Ele acompanhava em cima as jogadas. Era tocar na bola e topar com o mestre, trotando (que era como chamava a caminhada mais rápida) e empunhando um estridente apito. Sim, o trilar do apito era uma marca do mestre.

Certa manhã, os alunos da quinta série fizeram um curioso protesto contra a falta de futebol. Armaram os times de basquete com os mais altos na defesa e os baixinhos no ataque, tentando alcançar a cesta.  De bandeja, da zona morta, que nada. Os arremessos não se transformavam em pontos e o jogo terminou num bizarro 0 a 0. Esperava-se que Zé Índio se aborrecesse e tirasse a modalidade do programa, colocando em seu lugar o futebol - a paixão nacional do país àquela altura tricampeão do mundo. Mas que nada: tudo o que os alunos conseguiram foi correr em torno da quadra até o final da aula.

Talvez o professor ao se aposentar, findando uma fecunda jornada, tivesse apagado de sua memória aquela partida de fato esquecível. Os alunos, no entanto, guardam das aulas, recordações que os educadores sequer se dão conta. No rico universo do ensino as aulas de educação física eram também momentos de aprendizado – especialmente de vida, de convivência com as pessoas e de intangíveis bens como ética e respeito pelo outro, a observância de regras mesmo as tácitas de um jogo amistoso.

Zé Índio, curiosamente, praticou ao longo da vida outro esporte: ser candidato a vereador. Por um punhado de vezes ele esteve em campanha, mas a floresta da política, com rituais próprios, resistiu a seu apito. Seria um programa de índio? Difícil saber.

O fato é que nunca correu o risco de perder a medalha que merece, senão por nada, pelo singelo esforço em nos fazer tomar gosto pelo esporte e a seu modo transformar a educação física em um ingrediente para a vida.

(*) O autor é cronista e assessor de comunicação em São Carlos  (MTb 32605) com atuação na Imprensa da cidade desde 1980. É autor do livro “Coluna do Adu – Sabe lá o que é isso?” (2016).

Esta coluna é uma peça de opinião e não necessariamente reflete a opinião do São Carlos Agora sobre o assunto.

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