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quarta, 28 de outubro de 2020
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Prevenção ao Suicídio - Como identificar e auxiliar pessoas com intenções de Autoextermínio

25 Set 2020 - 07h24Por Anaísa Mazari
Prevenção ao Suicídio	- Como identificar e auxiliar pessoas com intenções de Autoextermínio -

Estamos no Setembro Amarelo, mês de campanhas para conscientização acerca do Suicídio. Vem se observando ao longo dos anos uma abertura cada vez maior para debate do tema, algo crucial para a abordagem da questão, considerando que o suicídio é a segunda causa de morte no mundo de jovens entre 15 e 29 anos de acordo com a Organização Mundial de Saúde. No Brasil, a prevalência é de suicídios consumados majoritariamente por pessoas do sexo masculino – 79 por cento. Apesar dessas prevalências, o suicídio como causa de morte ou mesmo como comportamento, incluindo as tentativas não consumadas, estão cada vez mais comuns e presentes em todos os grupos etários, em todas as classes sociais e em todos os gêneros e orientações sexuais.  Durante a pandemia, por exemplo, com a expansão da intercorrência dos agravos relacionados à saúde mental, o suicídio também vem apresentando maiores índices ao redor do mundo em razão do isolamento social e momento de crise coletiva.

Fatores de risco podem ser considerados para maior probabilidade da ocorrência do suicídio ou do comportamento suicida. Níveis de estresse elevados e prolongados, ansiedade, depressão e demais transtornos severos ou persistentes como bipolaridade e esquizofrenia, que trazem em seus sintomas rompimento parcial ou total com a realidade, tendem a perfazer os fatores que podem culminar à tendência para o autoextermínio. Os índices desvelam o suicídio como um grave problema de saúde pública, porém considera-se que existe subnotificação dos casos, algo que se confirma quando também passam a adquirir relevância os casos considerados como suicídio indireto, tais como as condutas autodestrutivas como acidentes de trânsito que constam como “acidentes” mas que podem ser provocados de forma consciente ou inconsciente, uso abusivo de substâncias etc.Bullying, conflitos familiares, desmotivação, violência intrafamiliar, desemprego, perda de entes queridos, perdas em geral podem ser fatores associados. Da mesma forma, vínculos familiares fortalecidos, ambientes familiares participativos, com relações saudáveis e comunicação não violenta, bem como objetivos de vida também estimulados pela família sobretudo nos casos dos jovens, podem ser elencados como fatores de proteção. Já a fé e práticas religiosas podem se apresentar como fatores de risco e proteção ao mesmo tempo, de acordo com a forma como cada indivíduo ou família vivencia a experiência religiosa; integra fator de risco quando a experiência de fé aniquila as possibilidades de desenvolvimento da identidade do sujeito; em contrapartida, aproximar-se de divindades e cultuá-las pode trazer maiores reservas em praticar o suicídio, o que faz da fé, nesses casos, um fator de proteção.

Ao passo que algumas tentativas de suicídio pareçam não apresentar sinais que as antecedam, outras, no entanto, são acompanhadas de sinais que devem ser observados. Comportamentos autolesivos como as automutilações podem ser expressões de intenso sofrimento emocional,mas podem também ter o significado já da presença de ideações suicidas o que deve ser avaliado dentro de cada situação apresentada. O diálogo, a sintonia nos relacionamentos em geral, desde os familiares até os vínculos externos à família são os terrenos férteis de onde emergem a aproximação, trocas afetivas, conversas e até mesmo as percepções sobretudo da linguagem não-verbal, que dão indicativos de que o amigo ou familiar pode não estar em uma boa fase. Nem sempre as pessoas verbalizam claramente seus sentimentos o que demandará do entorno muita empatia, sensibilidade e a criação de um espaço de escuta sem julgamentos para a adequada a abordagem e prevenção do suicídio. Como sinais de alerta, convém observar os seguintes aspectos:

- isolamento repentino da família e amigos;

- prejuízos no autocuidado e abandono de atividades outrora prazerosas;

- doenças psiquiátricas sem busca de tratamento;                  

- comportamentos de risco como direção perigosa, abuso de substâncias etc.

- apatia diante de eventos de vida que mobilizariam afetos como perda de emprego, mortes etc.;

- publicações em redes sociais de conteúdos negativistas;

- agressividade e impulsividade;

- partilha de bens, despedida, ausência de planos para o futuro;

- verbalizações como: sou um fracasso, sou um peso para todos, vontade de dormir e não acordar mais, tudo sem mim seria melhor, sou um peso para outras pessoas, não sou amado e nem querido por ninguém, não há razão para continuar vivendo ou qualquer verbalização que contenha desesperança em continuar a trajetória.

Muitas pessoas têm o desejo de ajudar, mas muitas vezes têm dúvidas sobre como fazer e até certo receio de trazer o assunto à tona, imaginando que falar sobre suicídio com a pessoa pode acelerar algum comportamento de autoextermínio. Abordar a questão de forma adequada pode preservar vidas. A abordagem pode e deve ser realizada desde que seja empática. A abordagem empática se desenvolve a partir da concessão de espaço de escuta sem julgamentos e em alguns casos, podem ser necessárias várias conversas até que a pessoa se sinta à vontade para falar a respeito de seu próprio estado emocional. A sensação de acolhimento é o que permitirá à pessoa se expressar livremente. Dessa forma, desaconselham-se verbalizações como: seja forte, isso é falta de fé, levante a cabeça – porque não depende da simples vontade sair ou não de um estado emocional que a faça pensar em autoextermínio. É certo que durante o tratamento o papel da pessoa será preponderante, porém nesta fase de sensibilizá-la para compreender seu próprio estado e aproximar-se para auxiliar e mostrar possibilidades, a postura de acolhimento será a mais importante viabilizadora para trazer bons resultados, prevenindo o risco de morte. Minimizar os sentimentos de desesperança, afirmar que o desejo de morte pode ser “falta do que fazer” ou afirmar que os comportamentos são para chamar a atenção também atrapalham a abordagem. O mais importante nesse momento é acolher, ouvir mais do que falar, oferecer formas de tratamento e até a presença para procurar conjuntamente alguma forma de cuidado pertinente ao que for verbalizado. Se for identificado que a pessoa não tem condições de discernir para buscar ajuda voluntariamente, podem ser necessárias orientações profissionais para viabilizar o cuidado mesmo que a própria pessoa não tenha condições para procurar o tratamento sem ajuda.

O Centro de Valorização da Vida (CVV) disponibiliza o atendimento telefônico através do número 188 sendo um importante trabalho de apoio emocional imediato para quem necessita conversar. Não deve, contudo substituir nenhuma forma de tratamento em saúde mental. Para que a conscientização, abordagem e ações acerca do suicídio sejam permanentes, a importância da saúde mental perfazer as agendas governamentais como prioridade também merece destaque e atenção, uma vez que no âmbito da saúde geral quase sempre a saúde mental é secundarizada e colocada em lugar acessório, com pouco investimento e equipes reduzidas nos espaços públicos de atendimento. Considera-se ainda que em seu conceito ampliado, a saúde é resultante de condições de alimentação, habitação, educação, renda, meio ambiente, trabalho, emprego e lazer, compreensão que traz para as responsabilidades intersetoriais a prevenção ao suicídio.

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