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terça, 27 de outubro de 2020
Dia a Dia no Divã

Por que mulheres ficam em relações abusivas?

13 Ago 2018 - 06h00Por (*) Bianca Gianlorenço
Por que mulheres ficam em relações abusivas? -

O caso da advogada Tatiane Spitzner, de 29 anos, vítima da violência de seu companheiro, choca não só pelo desfecho trágico, mas também por ser mais um caso.
É o típico caso de relacionamento abusivo que acaba mal, muito mal. Ah, mas se era agredida por que não foi embora? Ela gostava de apanhar? Amava o cara?

É muito triste ver como as mulheres se submetem a isso... Mulheres inteligentes, jovens, velhas, ricas, pobres, milhares de Tatianes que, por carência, por medo, por culpa acham que homem é assim mesmo, que é normal apanhar e que vai ficar tudo bem.

Elas não fazem isso do nada. Há motivos históricos e sociais que levam a esse comportamento. Mulher já nasce pedindo desculpa. Já chegam sendo acusadas. São criadas à base do não pode isso, não pode aquilo. E a maioria acredita, pra vida toda, que “merece” esse tipo de tratamento.

Acreditamos na culpa que é colocada em nós. Daí para o “te traí porque você não transa comigo”, “te bati porque você me deixou nervoso” é só uma questão de oportunidade de encontrar um cara como esse.

Mulheres acham que ninguém nunca mais vai gostar delas se “perderem” aquele cara. E uma mulher carente está sujeita a todo tipo de violência, físicas e psicológicas. Ela nunca se sente capaz, nunca se sente suficiente, nada do que faz está bom. E isso vai minando sua autoconfiança, sua autoestima.

Essa fraqueza mantém a mulher em relacionamentos violentos, seja violência física ou psicológica. Ela não acredita que será capaz de viver de outro jeito, tem medo de ficar sozinha, de dizerem que ela deve ter defeitos, por isso está só. É um massacre.

Mulheres são socializadas para serem seres humanos dependentes. Ensinam-nos a sermos dependentes, frágeis, sentimentais, a precisar sempre de alguém (filhos, maridos) para nos sentirmos completas. Nossa existência está sempre relacionada a depender de algo ou alguém exclusivamente. Toda vez que reforçamos estereótipos femininos nas crianças, estamos submetendo elas a essa socialização de dependência emocional e afetiva de alguém, particularmente de um homem.

Desde cedo nos ensinam como uma mulher deve agir e se portar socialmente, enquanto os homens são incentivados a serem fortes, independentes, a não se envolver muito sentimentalmente, a não se apegar, a serem sempre os condutores nas relações afetivas, nós mulheres aprendemos a esperar pelo príncipe encantado, o herói que vai nos ajudar a construir nossa jornada nesse mundo onde sozinhas não seremos nada, segundo eles.

O medo é outro fator de peso, pois o risco de homicídio aumenta logo depois de a vítima deixar o abusador,

Mas há outras razões, menos visíveis, que mantêm a vítima presa a essa relação:

– o parceiro não é violento o tempo todo, também se mostra gentil e sensível;

– o parceiro se mostra arrependido e a vítima fica com pena;

– o parceiro diz que vai procurar tratamento e a vítima cria esperanças de que ele vá mudar;

– o parceiro menospreza a vítima e destrói a sua autoconfiança, o que faz com que ela se sinta presa a essa situação e tenha vergonha de pedir ajuda.

No mês de aniversário dos 12 anos da Lei Maria da Penha (Lei 11340/2006), não há nada o que comemorar. Tatiane, foi mais uma vítima do machismo estrutural.

O Brasil é o quinto país do mundo mais violento contra as mulheres. A cada 2 segundos, uma mulher é vítima de violência física ou verbal no Brasil. A cada 22.5 segundos, uma mulher é vítima de espancamento ou tentativa de estrangulamento no Brasil. A cada 2 horas, uma mulher é assassinada no Brasil.

A Lei Maria da Penha é uma importante conquista das mulheres brasileiras e foi criada para coibir a violência doméstica e familiar contra as mulheres. Mas ainda requer aprimoramentos. É preciso considerar os indicadores que levam a situação de violência e que mantém as mulheres em relações abusivas, entre eles, a estrutura patriarcal e machista que naturaliza as relações desiguais de gênero. Segundo a Organização Mundial de Saúde, as mulheres levam em média 10 anos para denunciar a violência sofrida. Muitos fatores contribuem para a reprodução da violência contra as mulheres, uma delas é a ausência de políticas públicas que assegurem transversalidade de gênero e articulem prevenção, promoção e punição.

(*) A autora é graduada em Psicologia pela Universidade Paulista. CRP:06/113629, especialista em Psicologia Clínica Psicanalítica pela Universidade Salesianos de São Paulo e Psicanalista. Atua como psicóloga clínica.

Esta coluna é uma peça de opinião e não necessariamente reflete a opinião do São Carlos Agora sobre o assunto.

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