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quarta, 17 de julho de 2019
Memória São-carlense

Paulinho Gomes, o comunicador que se colocou a serviço da cidade

10 Mai 2019 - 07h00Por (*) Cirilo Braga
Paulinho Gomes, o comunicador que se colocou a serviço da cidade - Crédito: Arquivos CMSC/FPMSC/Álbum de família Crédito: Arquivos CMSC/FPMSC/Álbum de família

A alegria é a pedra filosofal que tudo converte em ouro. A frase atribuída a Benjamin Franklin era seguida à risca por um comunicador, publicitário, vereador e empresário do ramo gráfico de São Carlos que viveu por apenas 47 anos – tempo suficiente para colar ao seu nome a palavra idealismo e personificar o dito frankliniano. João Paulo Gomes, o Paulinho Gomes, transmitiu a quem o conheceu a certeza de que procurava transformar a vida num estado de permanente contentamento.

No âmbito familiar, entre os amigos, na comunicação e na chamada vida pública – manteve a simplicidade do moço que muito cedo começou a trabalhar e a se movimentar na direção do bem. Solícito, gostava de ajudar as pessoas, por entender que a maioria delas navegava num mesmo barco. Então, onde estivesse Paulinho ajudava a remar.

Estava com apenas 21 anos quando conheceu Lidionete, a filha do “seu” Dorovaldo Rodrigues, pessoa que aprenderia a admirar pelo resto da vida após se incorporar à família.

“Lidi” e Paulo foram apresentados por um casal de amigos no Bambi, um barzinho da moda na São Carlos de 1966, na época em que ele já trabalhava na Rádio São Carlos de Gisto Rossi, no comando do programa “Disque pedindo Disco”. Onde, claro, passaria a oferecer músicas para Lidi com quem não demoraria a iniciar um namoro de nove anos que os conduziu ao altar.

Paulinho promoveu shows que marcaram época, como a apresentação do “Rei” Roberto Carlos no Cine Teatro Avenida às 6 da tarde de um dia de semana. “Disseram que nós estávamos loucos, mas o show superlotou o cine teatro e tivemos que fechar a portaria” contou Bertinho Medeiros, diretor social da ABASC, sócio na realização do show. A parceria também trouxe Wanderley Cardoso, no auge da carreira, no Ginásio João Marigo Sobrinho, outro grande sucesso. Logo em seguida, PG foi convidado para fazer parte da diretoria social da ABASC.

O comunicador daqueles anos durados adorava apresentar programas radiofônicos de auditório e angariar presentes junto aos comerciantes de São Carlos para distribuir às crianças carentes anualmente em 12 de Outubro, Dia das Crianças. Não era, mas poderia ser um ensaio para o pai exemplar em que se tornou anos depois. Paulo e Lidi tiveram três filhas: Raquel, Juliana e Paula.

Quem o conheceu de perto testemunhou seu amor por Lidionete e a sua presença no dia-a-dia das meninas, a ponto de sair aos sábados com as três filhas e ir à loja Gullo para comprar sapatos. Muito conhecido na cidade pela atuação no rádio e já como um vereador a partir de 1977, religiosamente aos finais de semana saía com a esposa, deixando as filhas na casa dos avós, onde – zeloso – passava em seguida para buscá-las, pois não gostava que dormissem “fora de casa”.

Falar de Paulinho Gomes é mencionar a família – sua razão de viver como ele próprio confidenciava aos amigos próximos. Tanto assim que a leveza ao microfone da rádio e a serenidade que conservou nos embates políticos e na vida empresarial não deixavam dúvida de ter como fonte a felicidade da vida familiar.

Nem mesmo um duro solavanco do destino o desviaria do otimismo e de uma visão sempre esperançosa diante dos fatos da vida. Como na ocasião em que sobreviveu a um câncer de intestino grosso e, nessa condição, passou a ajudar muitas pessoas a superar o problema, buscando melhorar a autoestima e a confiança de quem enfrentava a doença. Muita gente jamais esqueceu o gesto de bondade, algo porém tão natural a Paulinho como um abraço num amigo-ouvinte celebrando a solidariedade. Viver, para ele, era um ato solidário.

O filho de Lucilla Bruno e Antonio Gomes, nascido em 16 de dezembro de 1945, se destacava desde cedo pela inteligência. Ainda jovem ingressou na “galáxia de Gutenberg” ao assinar uma coluna no jornal “O Diário”, pontificando entre figuras de destaque da imprensa são-carlense, como Ítalo Savelli, Helvidio Gouvêa, José Ferraz de Camargo, João Neves Carneiro, Luiz Pelegrini, Francisco Ribeiro, Ênio Mariano, Fontoura Costa, Romeu Aversa, Otavio Damiano, Anita Censoni, a Tâniae Lãines Paulilo, entre outras personalidades das letras.

“Tro-lo-ló” foi o nome de uma de suas colunas mais lidas. Havia também o “Pop News” pelo qual ele mesmo distribuía os periódicos para ávidos leitores, iniciando a caminhada pelas artes gráficas.

O comunicador que se desdobrava entre as muitas vertentes da atividade, ficou famoso mesmo com o “PG Show”, programa musical e interativo de grande audiência na cidade. Na Rádio São Carlos e depois na Rádio Progresso, um público cativo conversava com Paulinho todas as manhãs e se sentia íntimo do locutor-apresentador.  O bom humor e presença de espírito eram sua marca. "Acerte o seu aí, que o nosso está mais ou menos", dizia, ao ajustar os ponteiros do relógio na “hora certa”.

Uma proximidade traduzida em confiança em 1977 quando PG se elegeu vereador pela primeira vez.  Ingressara na política ainda na década de 1960 perfilando entre os fundadores do MDB e integrou a frente de oposição ao regime militar. No plenário da Câmara de São Carlos em 1977 figuravam políticos como o médico Emílio Fehr, o advogado Jamir Schiavone, o comerciante João de Santi, o contador Neurivaldo José de Guzzi, o radialista Syllas da Silva Rosa, o dentista Vilberto Adolfo Cattani, entre outros.

Na virada dos anos 1970 para 1980, grandes mudanças aconteceram no cenário político brasileiro. Teve início o processo de anistia, as eleições para os governos dos estados voltaram a ser diretas e foi restabelecido o pluripartidarismo. No âmbito municipal, a Emenda Constitucional n° 14, de 9 de setembro de 1980, estendeu o mandato dos prefeitos vice-prefeitos, vereadores e suplentes até 1983, para que em todo o país as eleições municipais fossem realizadas simultaneamente às eleições gerais para deputados. Como consequência, o mandato dos vereadores teve seis anos de duração (1º/2/1977 a 31/1/1983).

Entre os fatos locais do período estiveram a duplicação da rodovia Washington Luis em 1978 e a inauguração da Casa da Cultura Dr.Vicente de Arruda Camargo e do Terminal Rodoviário “Governador Paulo Egydio Martins”. No âmbito da iniciativa privada, em 1982 o Grupo Refripar, do Paraná, adquiriu o controle acionário das Indústrias Pereira Lopes.

Reeleito sucessivamente nas três eleições seguintes, Paulinho Gomes participou de diversas comissões técnicas da Câmara, foi vice-presidente da Casa e Presidente da Mesa Diretora no período de 1º de janeiro de 1989 a 31 de janeiro de 1990.

Após a redemocratização, fundou o Partido Democrata Cristão (PDC) na cidade, pelo qual concorreu a deputado federal. No Legislativo Municipal destacava-se nos debates em plenário pela força de seus pronunciamentos e também pela ênfase com que defendia ideias e projetos em prol da cidade. Idealista, foi defensor de ações de planejamento urbano e investimentos na infraestrutura viária de São Carlos.

Há 30 anos, Paulo Gomes propunha a construção de pontes, viadutos e vias expressas para evitar problemas futuros decorrentes do aumento da frota de veículos e o crescimento da cidade. Uma preocupação que o colocava à frente do seu tempo.

Durante o mandato como presidente da Câmara, Paulinho Gomes presidiu a constituinte municipal que elaborou a Lei Orgânica do Município, promulgada em maio de 1990. Naquele ano, trabalhando para estruturar seu partido no estado e em contato direto com a direção nacional, a cargo do deputado Ronaldo Caiado, Paulo Gomes candidatou-se a deputado federal. Não alcançou a eleição, mas se projetou no partido, pois no período nem mesmo as frequentes internações hospitalares para cuidar da saúde o demoveram de manter a campanha que demandou muitas viagens pelo estado.

João Paulo Gomes estava no quarto mandato de vereador, era empresário do setor gráfico no comando da Gráfica “O Expresso” e havia pouco deixara os microfones de rádio quando faleceu no dia 19 de março de 1993, uma sexta-feira, aos 47 anos.

Alguns anos antes, quando na apuração dos votos da eleição municipal, imaginando que não seria reeleito, fez uma despedida emocionada dos eleitores a quem agradeceu pela confiança e o apoio durante a caminhada na política. Apressara-se, no entanto, pois a contagem dos votos seguia até confirmar seu novo mandato.  As pessoas acharam graça no ocorrido, que antecipava em alguns anos a despedida do homem público que partiu deixando lições de humildade, de alegria, de honestidade e de grandeza. A grandeza de olhar o outro como igual, independente de toda e qualquer circunstância. E a generosidade de estender a mão a quem necessitasse.

Assim foi Paulinho Gomes, “PG Show”, que recebeu homenagens do Legislativo e do município ao ter seu nome atribuído à Sala de Imprensa da Câmara Municipal e a uma rua localizada no Residencial Monsenhor Romeu Tortorelli.

(*) O autor é cronista e assessor de comunicação em São Carlos  (MTb 32605) com atuação na Imprensa da cidade desde 1980. É autor do livro “Coluna do Adu – Sabe lá o que é isso?” (2016).

Esta coluna é uma peça de opinião e não necessariamente reflete a opinião do São Carlos Agora sobre o assunto.

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