sexta, 19 de agosto de 2022
Memória São-carlense

Patrícia Godoi, Miss Brasil 1991

15 Fev 2019 - 06h50Por (*) Cirilo Braga
Patrícia Godoi, Miss Brasil 1991 - Crédito: Revista Municípios 1991/Álbum Patricia Godoi/Acervo FPMSC Crédito: Revista Municípios 1991/Álbum Patricia Godoi/Acervo FPMSC

Havia um toque de encantamento na São Carlos do ano de 1991: no terreno da beleza, a cidade estava muito bem representada por ser a terra natal da então Miss Brasil, a modelo Patrícia Maria Franco de Godói. Eleita no dia 27 de abril daquele ano aos 20 anos, a então aluna do 3º.ano do curso de Pedagogia trancou a matrícula na Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) para participar do concurso e cumprir depois os compromissos de agenda, como concorrer ao Miss Universo nos Estados Unidos.

Ainda que o Miss Brasil passasse na época por um momento de transição - liderado pela empresária Marlene Brito, sob a patente “The Most of Brazilian Beauty” depois que Silvio Santos deixou a franquia -, o feito de Patrícia foi significativo: a menina que na infância se deslumbrava ao assistir concursos de Miss pela TV, obteve a coroa ao derrotar as candidatas finalistas que representavam os estados de Pernambuco, Rio de Janeiro, Bahia, Espírito Santo, Goiás e Rio Grande do Sul.

O concurso teve lugar num elegante flat nos jardins em São Paulo e a festa de coroação no Gallery contou com presenças de figuras do jet set e megaestrelas, como o então bicampeão mundial de Fórmula 1 Ayrton Senna, além de uma coleção de artistas do primeiro time.

Patrícia foi recebida em São Carlos literalmente com honras de rainha e uma extensa carreata saudou o seu retorno. Havia quinze anos que uma representante do interior paulista não vencia o Miss Brasil.

Tive a oportunidade de entrevistá-la para uma revista publicada na ocasião e fiquei surpreso com a naturalidade e inteligência da moça, que me recebeu na casa onde morava com os pais na rua Marechal Deodoro, onde logo à entrada havia uma Bíblia aberta sobre um pedestal.

“A beleza para mim está nos olhos de quem vê e acima de tudo eu acredito que as pessoas podem transmitir beleza através de um sorriso ou um simples gesto”, dizia. “No fundo, a beleza está na alma, está no fato de você cativar as pessoas”.

Tão jovem Patrícia demonstrava ter os pés no chão e conversava a respeito do seu cotidiano, dos hábitos simples e comuns às garotas de sua idade; ao mesmo tempo dava detalhes sobre o concurso. Da infância, destacava a timidez que sempre a acompanhou e que só foi atenuada com a descoberta das passarelas da moda aos 13 anos.

Filha de um casal de funcionários públicos do Estado, Alcides e Maria do Carmo Godoi, e irmã de Francisco, Patrícia despertou para o mundo da beleza ao fazer o curso de manequim ainda em São Carlos. A cidade naquele período orgulhava-se em ser o berço de modelos de talento, tendo produzido a ex-Miss São Paulo Adriana Colin e Elaine Danella, que brilhou nas passarelas internacionais até a morte prematura num acidente de trânsito em São Paulo.

A coleção de títulos de beleza começou aos 15 anos quando Patrícia se tornou Rainha do São Carlos Clube, o mais tradicional da cidade. Em 1987, foi eleita Rainha do Clima, equivalente a Miss São Carlos Naquele ano, já cursando a Universidade Federal, conquistou o Miss São Paulo Estudantil. Em 1988 foi 3ª. colocada no Miss Beleza Internacional, no Ilha Porchat Clube, em São Vicente. No concurso de Miss América Latina, em El Salvador (1990), conquistou o 2º lugar.

Ainda naquele ano, ela desbancou representante de todo o continente e foi aclamada em San Jose da Costa Rica, Reina de La Costa Internacional. Já em 1991 seu currículo de vitórias lhe valeu a eleição para representar São Paulo no Miss Brasil.

“O momento mais emocionante da minha vida foi quando anunciaram o meu nome em primeiro lugar. Eu fechei os olhos e por alguns instantes passaram pela minha cabeça todas as misses que eu acompanhava pela TV; agora, eu é que estava no lugar delas”, me disse, abrindo um largo sorriso.

O fato de não ter havido a venda de imagens do Concurso de Miss Universo para o Brasil naquele ano acabou sendo um ponto desfavorável para nossa representante na finalíssima disputada em Las Vegas, em maio. Mesmo conseguindo a maior nota entre as 73 candidatas de todo o mundo no quesito inteligência, Patrícia ficou em 11º.lugar não figurando no Top 10 por minguados oito milésimos na contagem geral.

“Era o mundo inteiro num lugar só, uma oportunidade valiosa de conhecer a riqueza de culturas tão diferentes. Foi uma coisa marcante”, ela contou.

A Miss Universo eleita foi a Miss México Lupita Jones, que se tornou sua amiga (e madrinha de seu casamento com o advogado Carlos Henrique Najar em 2003). Na noite do concurso em Las Vegas, Lupita registrara no livro “Palavra de Reina” que Patrícia era uma forte candidata ao título de Miss Universo 1991. 

No Brasil, nossa representante teria um ano repleto de compromissos como desfiles beneficentes e visitas importantes como ao Palácio do Planalto naquele efervescente começo de década. Um detalhe que não me escapou foi o adendo feito por ela de que teria uma oportunidade de falar sobre São Carlos por onde passasse. “Poder divulgar o nome de sua cidade natal no estado e no país é uma experiência fabulosa”.

Ao receber o carinho de seus conterrâneos, a rotina então agitada não a impedia de estar frequentemente na cidade, da qual se tornava uma espécie de embaixatriz. “Gosto de ser são-carlense, adoro a minha terra”, era uma frase sempre na ponta da língua.

Não por acaso Patrícia ganhava nota máxima nas entrevistas durante os concursos de que participou. Afirmava encarar os acontecimentos de sua vida como uma missão de Deus e notava que as conquistas sempre trazem uma tarefa a cada um: “Tenho que mostrar às pessoas que temos de cultivar coisas muito mais importantes do que aquelas que passam. Quando a gente deseja alguma coisa do fundo do nosso coração é preciso muita garra, muita força e muita fé para conseguir o que quer”.

Hoje mãe de dois filhos, Carlos Henrique e Maria Beatriz, a ex-Miss formou-se em Direito, com mestrado pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo e especialização em Direito Médico Hospitalar, pela Universidade Católica do Salvador (UCSAL). Hoje se dedica a ministrar aulas em faculdades de Direito e proferir palestras sobre Direito do Consumidor. É idealizadora (junto com Flávia Cavalcanti, Miss Brasil 1989) do grupo de Misses Brasil, que desde 2015 se reúne para ações de benemerência.

(*) O autor é cronista e assessor de comunicação em São Carlos  (MTb 32605) com atuação na Imprensa da cidade desde 1980. É autor do livro “Coluna do Adu – Sabe lá o que é isso?” (2016).

Esta coluna é uma peça de opinião e não necessariamente reflete a opinião do São Carlos Agora sobre o assunto.

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