Menu
sábado, 14 de dezembro de 2019
Memória São-carlense

Os jornalistas de outros tempos

02 Ago 2019 - 07h00Por (*) Cirilo Braga
Os jornalistas de outros tempos - Crédito: Divulgação Crédito: Divulgação

Na hemeroteca da Câmara Municipal – é assim chamado o setor de uma biblioteca onde se guardam coleções de antigos jornais – pude encontrar relatos da São Carlos de várias épocas e não apenas de quando me tornei um são-carlense vindo morar na cidade aos nove anos de idade. Encontrei a pacata São Carlos sobre a qual se debruçaram os jornalistas que expunham ideias amplas no exíguo espaço de uma das seis colunas do jornal tipográfico em formato standard.

Diante das páginas amareladas senti que não podemos relegar ao esquecimento figuras que compartilharam o saber e a cultura com os leitores. Traziam novidades que vinham com o café da manhã, doses diárias de sabedoria com que eram acesos lampiões de ideias fundadas na erudição. Hoje parecemos estar à sombra da internet; tudo o que é novo começa na internet e nos perguntamos: mas será que é a mesma coisa?

Encontro as “Crônicas da Cidade” de Romeu Aversa e os artigos de Clóvis Pacheco, poeta, jornalista e professor, que foi casado com a poetisa Maria Cecília de Campos Pacheco, amigo de Pedro Fernandes Alonso e do poeta Fontoura Costa. Pacheco aposentou-se, mudou-se para São Paulo, de onde remetia sua “Prosa Leve”, entre 1972 e 1976.

Ítalo Savelli assinava seus escritos sob o pseudônimo de Fantásio. Cunhou um bordão curioso: “Pelos fios do meu bigode eu juro que estou falando a verdade somente e verdade e nada mais que a verdade”. Pedro Fernandes Alonso dava aulas em seus editoriais, com título no plural: “Assim pensamos nós”.

Vi o “Correio de São Carlos” – do “primeiro arranha-céu” sem “é” - “A Cidade” e “A Tarde” dos anos 1960.  Encontrei “A Folha”, “O Diário” e “A Tribuna”. Os exemplares que despertaram minha atenção na Biblioteca da Câmara são anteriores à fase na qual fui atraído pelo ofício.

Celso Keppe, o editor que ao lado do professor Carlos Rodrigues Sampaio me recebeu em 1979 na redação de “O Diário”  hoje me chama de “o mais jovem dos velhos jornalistas de São Carlos”. Uma sacada espirituosa, ao estilo das colunas dos antigos mestres que focalizaram um período romântico da história da cidade.

Gosto de conhecer histórias de um tempo em que nas páginas pontificavam versos como os de Homero Frei e os jornais da cidade estampavam saborosas contendas intelectuais. Pedro Fernandes Alonso e Clóvis Moura teriam sido alguns dos melhores esgrimistas das páginas.

Os jornais sustentavam rivalidades que entretinham os leitores, ao assumirem posições antagônicas sobre qualquer assunto que aparecesse. Valia tudo numa polarização pra lá de radical.  Ela se fazia sentir até mesmo na cobertura dos Jogos “Nor-Di”, a disputa esportiva que reunia alunos da Escola Normal e do Colégio Diocesano. No futebol, se um jornal era simpático ao time do Expresso, outro era Bandeirante, claro. Foi assim também, já numa fase seguinte, quando “O Diário” e “A Tribuna” faziam uma “capa e espada” incendiando a disputa entre São Carlos e Araraquara.

Era quando Paulo Gomes escrevia a coluna “Tro-lo-ló” e José Inocentini, o dono do “Correio de São Carlos” da fase áurea e do antecessor de “A Folha”, já se tornara uma lenda. Os Inocentini ocupam um lugar alto no panteão da nossa imprensa. Dario, que está entre nós, mas se retirou do front, lutou até o último soldado para manter viva a tradição de “A Tribuna”. Antigos jornalistas conheciam a verdade do verso de Vinícius em “O Dia da Criação”: “A vida vem ondas como o mar”. Sabe disso o nosso maior cronista, Eduardo Kebbe, mantendo-se na ativa e ajudando a contar a história feita de “Retalhos do Cotidiano”, título de um de seus livros, uma coletânea de textos atemporais.

Folheando antigos jornais, vejo trabalhos de gerações que incluíram João Neves Carneiro, Otavio Damiano, Francisco Ribeiro, Nelson Camargo Lima, Anita Censoni, Lãines Paulilo, Paulo Edmundo Duarte, Romeu Aversa, Aduar Dibo...

Quando Romeu fez a bela citação de Rui Barbosa com sua inconfundível voz impostada, brinquei com o cacófato “da nação”, ele sorriu. “A imprensa é a vista da nação”. Jovem leva tudo ao pé da letra.

(*) O autor é cronista e assessor de comunicação em São Carlos  (MTb 32605) com atuação na Imprensa da cidade desde 1980. É autor do livro “Coluna do Adu – Sabe lá o que é isso?” (2016).

Esta coluna é uma peça de opinião e não necessariamente reflete a opinião do São Carlos Agora sobre o assunto.

comments powered by Disqus

Leia Também

Últimas Notícias