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sexta, 14 de agosto de 2020
Artigo Rui Sintra

O bezerro

11 Jul 2020 - 08h44Por (*) Rui Sintra
O bezerro -

Embora sendo um país pequeno, Portugal possui uma diversidade cultural e social enorme. No espaço de poucos quilómetros, em qualquer direção, as peculiaridades de seu povo, costumes e formas de vida mudam subitamente, fatos que apaixonam não só os próprios portugueses, como, também, os turistas estrangeiros. Uma das regiões mais emblemáticas situa-se no norte de Portugal, em uma região chamada Minho. Em relação ao Brasil, poderíamos compará-la a um pequeno estado. Zona riquíssima, o Minho é chamado por muitos “o celeiro de Portugal”, já que ali a agricultura e a pecuária são atividades muito fortes, representadas na paisagem, nos costumes e na vida cotidiana de seu povo. No Minho, é fácil fazer amizades, mas também é fácil fazer inimigos, bastando para isso destratar alguém. Uma palavra infeliz, um olhar menos sincero, ou a tentativa de burlar, é suficiente para causar atritos, seja com quem for. Descansando em um dos bancos da pequena praça da igreja de uma pequena aldeia, distante poucos quilómetros de Barcelos (a grande cidade), assisti a um episódio que demonstra exatamente aquilo que acabei de escrever acima. Mais tarde, soube que os protagonistas desse episódio, moradores locais, não se falavam havia mais de dez anos. Faz parte dos costumes locais dessas inúmeras aldeias nortenhas (e não só aí) as pessoas assistirem às primeiras missas de domingo (07h00), sendo que cada pequena aldeia tem sua igreja. Todo o mundo veste sua melhor roupa e caminha em direção à igreja. Meia hora antes da missa, uma romaria autêntica: as mulheres seguem direto para a igreja, enquanto os homens dão uma paradinha no boteco para beber um “traçado” ou um “bagacinho” - espécies de aguardente de uva, parecida com a “pinga” no Brasil. Aos sábados, de tarde, uma comissão constituída por moradores delimita uma pequena área perto da igreja para que, no dia seguinte, após a missa, se realize uma pequena venda de artigos caseiros e de animais de criação. Por isso, não é de estranhar que, em cada domingo, muito dos que vão à igreja levem consigo mel, artesanatos, verduras, licores de frutas, vinhos, porcos, galinhas, coelhos, bezerros, vacas, etc., para poderem ser vendidos. Essa pequena “feira” dura até por volta do meio-dia, já que a partir dessa hora todos voltam para seus pequenos sítios, chácaras ou fazendas (quintas). A missa tinha acabado fazia tempo e todo o mundo começou a abandonar a feira e levar consigo aquilo que não tinha vendido. Um senhor, com perto de setenta anos, acompanhado daquela que certamente seria sua esposa, passou na minha frente, puxando lenta e suavemente um bezerro lindo, gordo. Esboçei um sorriso ao ver essa cena pitoresca. No sentido contrário, caminhava um outro casal, quase da mesma idade que o primeiro. Cruzaram-se lentamente, sem se olhar. De repente, mas com muita calma, o homem que vinha só com a esposa olhou para o outro e disse: “Está levando o animal para casa?”. O homem que trazia o bezerro amarrado parou e com cara de poucos amigos retorquiu: “Está falando comigo? O que é que você tem a ver com a minha vida:” - nesse instante a esposa puxava pelo braço dele, antevendo uma briga. Continuando a caminhar calmamente, o outro homem disparou: “Não estou falando com você, seu burro! Estava falando com o bezerro”. Ambos os casais se afastaram, cada um seguindo seu destino. Enfim, cenas de um povo que admiro.

(*) O autor é Jornalista profissional / Membro da GNS Press Association (Alemanha) / Correspondente internacional freelancer. MTB 66181/SP.

Esta coluna é uma peça de opinião e não necessariamente reflete a opinião do São Carlos Agora sobre o assunto.

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