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domingo, 16 de junho de 2019
Memória São-carlense

Nos tempos do Mosaico de Francisco Ribeiro

12 Abr 2019 - 07h00Por (*) Cirilo Braga
Nos tempos do Mosaico de Francisco Ribeiro - Crédito: Divulgação Crédito: Divulgação

O jornalista Francisco Ribeiro foi um dos protagonistas dos diários locais nos anos 1960 como autor da coluna “Mosaico”, publicada religiosamente pelo jornal “A Folha”, uma seção abrangente que cativava desde os jovens até os mais avançados na idade.

Era comum ver nas esquinas, nos bares principalmente do centro, pessoas com o jornal lendo e comentando a coluna. Quando alguém ia comprar o jornal no balcão (vendia-se o exemplar na portaria do jornal) antes de sacramentar a compra, invariavelmente perguntava se tinha saído o Mosaico. Sem ele, a edição não estava completa.

O relato me foi feito há alguns anos por um ex-companheiro de imprensa, o Carlos Pedrino – falecido no ano passado – que me indicara a leitura dos textos do mestre Chico Ribeiro.

Seguindo a sua recomendação, fui ao encontro das coleções de jornais da época e ganhei um presente, tendo a mesma sensação que legiões de são-carlenses tiveram na passagem dos anos 60-70: o prazer de ler o “Mosaico”, um convite a ativar o lado melhor do pensamento, que de tão bom nunca se desmancha nem se apaga.

A naturalidade com que seu Chico conversava com o leitor operou a magia de me colocar, tantos anos mais tarde, entre aqueles que saboreavam as edições como quem viaja na janelinha do trem. “Vocês sabem que a coluna aqui não tem princípio nem fim; que sobe e desce, vai e volta, aperta a cravêlha aqui, solta lá e, no fim, bem espremida, sobre o pensamento no final”, avisava na edição em que o pé da coluna estampava a sentença atribuída a um certo Ulysses Lemos Torres: “Para tirar os pés da lama, muitos enlameiam também as mãos”.

A rápida conversa com Carlos permitiu que o amigo fizesse um passeio pelas memórias dos anos dourados em que foi diagramador no jornal onde pontificava um notável time de articulistas sob o comando de José Inocentini.

Eram colaboradores convertidos em evangelistas no relato de todas as nuanças da vida da cidade. Eduardo Kebbe com suas crônicas do cotidiano; Anita Censoni, a Tânia, com as sociais e reminiscências lembrando fatos e personagens que fizeram a história; Aduar Dibo, com sua indagação-chave: “Sabe lá o que é isso?”; Luiz Bianchini responsável pelo esporte,  uma verdadeira enciclopédia esportiva (“por detrás de uma simplicidade se escondia uma enorme competência admirada por todos”, diz Carlos); Miguel João Sobrinho e seus pitacos inteligentes; e a eterna Laines Paulilo com sua coluna “Carrossel”, espelho onde São Carlos via refletido seu “glamour”.

Francisco Ribeiro costumava escrever sua coluna sempre à noite bem tarde. Muitas vezes o jornal já estava fechado e a equipe de gráficos permanecia em vigília, aguardando o “Mosaico” que lá na última página na parte superior do lado direito tinha seu tradicional espaço reservado. Era o tempo dos jornais tipográficos e não havia como achatar texto. Sem off-set e sem os computadores de hoje, os textos produzidos na máquina de escrever não podiam “estourar” o número de laudas. “Mosaico” empregava uma folha para a introdução e duas para os tópicos.

“Seu Chico” mantinha uma juventude guardada dentro de si. Gostava de estar entre os jovens e quase todas as tardes reunia-se para um lanche com a equipe do jornal num bar da esquina das ruas São Paulo e Conde do Pinhal, onde deliciava a todos com as histórias que contava. Todos aprendiam muito convivendo com aquela figura singular.

Carlos Pedrino se recordava de detalhes daquelas prosas, que rendiam pautas para a coluna, documentada nas páginas do jornal. Ribeiro não apenas escrevia sobre fatos da cidade como a ela se incorporava no cotidiano. Na época, ao ver a revoada das pombas na Praça Coronel Salles, juntou-se ao engraxate Bemvindo e aos taxistas do centro para compor o "Clube das Pombas?", no qual se cotizavam para a compra de milho com que Bemvindo pacientemente tratava das pombas. Definitivamente eram outros tempos.

Gaúcho de nascimento, que veio a São Carlos para editar a revista Alfabras, fundada para divulgar as atividades da Associação Beneficente dos Alfaiates, “Chico” Ribeiro adotou São Carlos como sua terra. Sua coluna teve muitos imitadores, mas ninguém conseguiu superá-lo. O homem da imprensa viu o futuro, enxergou além de seu tempo e deixou descendentes que seguiram seus passos.

Ler seus escritos, se não me torna um contemporâneo do articulista como foi Carlos, traz para os dias de hoje a semente e inspiração da obra intangível das palavras que lançou ao tempo. Traz claridade, um sopro de esperança e a noção de que um homem dessa grandeza nunca morreu.

(*) O autor é cronista e assessor de comunicação em São Carlos  (MTb 32605) com atuação na Imprensa da cidade desde 1980. É autor do livro “Coluna do Adu – Sabe lá o que é isso?” (2016).

Esta coluna é uma peça de opinião e não necessariamente reflete a opinião do São Carlos Agora sobre o assunto.

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