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terça, 25 de junho de 2019
Memória São-carlense

No caminho de Euclides da Cunha

11 Jan 2019 - 06h50Por (*) Cirilo Braga
No caminho de Euclides da Cunha - Crédito: Divulgação Crédito: Divulgação

Por que o prédio que sedia a Câmara Municipal tem o nome de Euclides da Cunha, é uma pergunta que alguém poderia fazer, imaginando qual teria sido a ligação entre a cidade e o escritor modernista cuja morte completa 110 anos em 2019.

A passagem de Euclides da Cunha pela então São Carlos do Pinhal no ano de 1901, teria se perdido completamente na poeira do tempo em meados do século 20, não fosse o historiador Ary Pinto das Neves.

Eleito vereador, em 1960 ele tomou a decisão de dar o nome do escritor ao prédio da Câmara Municipal, que então presidia. Foi um gesto nobre, embora não fora de Euclides a autoria do projeto do edifício como então se pensava (e sim do arquiteto francês Victor Dubugras), a cidade não poderia relegar ao esquecimento o fato de pontificar por algum tempo na caminhada euclidiana. E não qualquer tempo: o exato momento em que ele revisava Os Sertões, sua obra-prima.

Euclides desembarcou em São Carlos como engenheiro do 5º. Distrito de Obras de São Paulo, encarregado de acompanhar e fiscalizar a construção da primeira escola pública da cidade, o grupo escolar Coronel Paulino Carlos. Uma edificação situada ao lado do antigo Largo Municipal (atual praça Coronel Salles) e do edifício do Fórum (hoje Edifício Euclides da Cunha, sede da Câmara).

Apenas quatro anos antes, ele estava na redação do jornal O Estado de S. Paulo quando aceitou o convite de Júlio de Mesquita para acompanhar a campanha de Canudos como correspondente. Ato seguinte, abalado com os acontecimentos documentados no sertão baiano, voltou a São Paulo indo descansar na fazenda de seu pai em Belém do Descalvado.

Na discreta chegada a São Carlos do Pinhal, carregava os originais de sua obra, escrita durante a estada em São José do Rio Pardo, para onde se mudou em 1898, indo trabalhar na construção de uma ponte metálica sobre o rio que dá nome à cidade – a anterior desabara apenas cinquenta dias depois de pronta. O intendente de Rio Pardo, Francisco Escobar, tornou-se seu grande amigo e o incentivou a escrever Os Sertões, no qual trabalharia até 1901.

Se o pai de Euclides tinha fazenda em Descalvado, próximo ao Salto do Pântano, a irmã Adélia da Cunha Vieira era casada com o juiz da Comarca de São Carlos Octaviano da Costa Vieira, Euclides certamente se sentiu em casa quando instalou-se numa casa da rua Dona Alexandrina defronte à residência da irmã.

Nessa época, segundo relato do professor e cronista Italo Savelli (1904-1991), Euclides costumava reunir-se todo fim de tarde na Casa de Comércio Arruda com o cunhado Octaviano e a elite política e intelectual da cidade, incluído Amadeu Amaral, no local que recebeu o sugestivo nome de Caldeirão. Ficava na rua Conde do Pinhal, próximo à esquina com a rua São Joaquim.Consta que foi dona Nicota, a mulher do proprietário Antonio de Almeida, quem batizou o local. Certa vez, precisando do marido, ela ordenou ao filho Eneas: “Vai chamar teu pai naquele caldeirão!”. Os amigos gostaram e o nome pegou.  Ali, no calor dos debates, o engenheiro militar, republicano, positivista Euclides da Cunha, homem normalmente de pouca conversa, deixava fluir sua verve de jornalista e esgrimista das palavras.

Antes de partir para Guaratinguetá, para onde foi transferido no final do ano de 1901, Euclides escreveu uma carta ao amigo Francisco Escobar relatando o momento e no dia 1º. de dezembro fez um bonito discurso no lançamento da pedra fundamental do prédio do Grupo Escolar Coronel Paulino Carlos, inaugurado dois anos depois.

Na carta a Escobar, em 30 de novembro, escreveu: “Depois de amanhã, 2, seguirei para a sede de meu novo distrito, Guaratinguetá. Sentindo, por um lado deixar esta cidade, por outro lucro porque lá estarei entre S. Paulo e o Rio. Preciso dizer-te que nada influí para a transferência. Dava-me bem aqui”. Aproveitava para interceder pela permanência no Distrito, de um colega que estava ameaçado de demissão: “Sei, por informações que daí têm vindo, que o Mateus será despedido, com a próxima contradança municipal. Estou certo de que farás tudo no sentido de ser mantido o velho trabalhador, que ali está quase como uma relíquia, lembrando dias sucessivos de uma luta de três anos. Peço-te, por isto, falares em meu nome ? à parte todas as distinções de partido ? aos coronéis José Leopoldino e Honório Dias e a todos os influentes”.

Duas frases da carta foram inseridas numa placa colocada no saguão de entrada do Edifício Euclides da Cunha, sede da Câmara Municipal são-carlense, onde se lê: “Sentindo por um lado deixar esta cidade…dava-me bem aqui”. Uma referência válida para os curtos porém intensos meses que o escritor viveu na cidade.

A presença de seu nome ali chamou a atenção dos euclidianistas que 100 anos depois tomaram o caminho do escritor e estiveram em São Carlos para participar da Semana Euclidiana, criada pela Lei Municipal No.12.914. Algumas edições se produziram nos anos seguintes, atraindo até mesmo o grande euclidianista rio-pardense Adelino Brandão, destacando aspectos de Os Sertões e o seu apelo sobre a questão ambiental. O historiador Marco Antonio Leite Brandão foi um dos grandes incentivadores desses eventos.

Na mesma época, o início dos anos 2000, ainda estava de pé a casa onde Euclides morou em São Carlos, que embora constasse numa lista de propriedades com interesse histórico, se transformou em ruína e acabou demolido. Restou ali uma placa a contar a história.

(*) O autor é cronista e assessor de comunicação em São Carlos  (MTb 32605) com atuação na Imprensa da cidade desde 1980. É autor do livro “Coluna do Adu – Sabe lá o que é isso?” (2016).

Esta coluna é uma peça de opinião e não necessariamente reflete a opinião do São Carlos Agora sobre o assunto.

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