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terça, 21 de setembro de 2021
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MEMÓRIA SÃO-CARLENSE: Do que você tem saudade?

08 Dez 2017 - 03h01Por (*) Cirilo Braga
Foto: Arquivo Pessoal - Foto: Arquivo Pessoal -

A cada vinte ou trinta anos, a cidade vai se transformando. As gerações vão se sucedendo, a paisagem urbana em cada época passa a ganhar um novo aspecto. De repente, tudo o que marcou um período desaparece diante de nossos olhos, levado pelo implacável vendaval do progresso. O saudosismo de muitos brota da lembrança dos tempos de juventude, quando a velocidade dos acontecimentos impõe a chegada do novo que num futuro não muito distante se converterá em saudade.

O cronista João Genovez, que passou a infância e a juventude em São Carlos e seus últimos dias em Santos, onde faleceu há alguns anos costumava visitar frequentemente a cidade e constatava que "esse tal de progresso é um monstro que tudo devora e que não para crescer". Foi o que escreveu no livro "São Carlos: Ponto Final" em que perguntava onde estaria a cidade dos anos 40 e 50 do século passado.

"Onde estão os bondes, o footing, aqueles molequinhos de boné ladrões de jabuticabas, as grandes áreas de terrenos, os campinhos de futebol, o Cine Avenida, o Theatro São José, o Bar São Paulo do dançarino marino, o Café do Centro dos Innocentinis,  o velho espraiado dos laranjais,  as piavas e dourados do rio Mogi, as traíras do Broa, o parquinho da Vila Nery, as pequenas arvores da praça Coronel Salles, as andorinhas, a figueira de tronco recordista?"

Seguia ele: "(...) onde  está o trem de aço da paulista, o pontual relógio da estação, as meninas que brincavam de roda nas calçadas, o cravo que brigou com a rosa, os vizinhos que contavam causos, o Bar do pistelli, a velha escola Dante Alighieri, a Escola de Comércio do Fauvel, a piscina municipal ,as carroças do mercado, o túnel de eucalipto que perfumava o crepúsculo, o caminho do corso dos carnavais, os cordões da aliança e do Flor de Maio, as olimpíadas estudantis a banda e o coreto do jardim a boate Bambu, os guardas noturnos que apitavam e as normalistas?."

"A velha são Carlos embarcou no trem do progresso sem ao menos nos dar um aceno; ficamos na estação das saudades", concluia o cronista.

Octavio Carlos Damiano, jornalista e escritor, no livro "Crônicas do Tempo Antigo", informa que o Nery Parque era muito frequentado pelo povo são-carlense principalmente nos fins de semana. "Ficava defronte à praça conhecida como Balão do Bonde onde era mantido um pequeno zooloógico com outras curiosidades como pequenos animais empalhados, fotos e troféus de caça e pesca, além de quadras esportivas, tiro ao alvo, ringue de patinação e brinquedos, diversões enfim para todos, adultos e crianças".

Damiano recordava que a uma velha figueira abrigava as andorinhas do jardim da Catedral, "que ao entardecer proporcionavam sempre espetáculos de rara beleza com suas evoluções pelo céu da cidade". A exemplo de Genovez, registrava a importância que tinham os relógios públicos como o da Catedral e o da estação ferroviária "para os quais todos olhavam, instintivamente para controlar seus compromissos e muitas vezes encontros amorosos".

O cronista assinalava outras lembranças não menos caras: "O apito das nove horas, agudo e prolongado da locomotiva da estrada de ferro, infalível e preciso, servia para o acerto dos demais relógios na cidade. O grupo alegre e ruidoso das normalistas da escola normal, os jogos de futebol , as emocionantes disputas entre os dois velhos rivais, o Paulista e o Rui Barbosa as sessões do cine São Carlos na praça Coronel Salles, os vesperais aos domingos, tantas outras recordações da São Carlos de antigamente". Uma cidade silenciosa na qual o vento, o celebre e gelado vento sul, era uma de suas características marcantes.

Como a cada geração a cidade vai se desfazendo e se recompondo, é de se perguntar ao leitor deste texto: de qual cenário da cidade você tem saudade?

? Esta seção tem enfoque na memória coletiva de São Carlos e disponibiliza espaço para relatos e fotos de fatos e locais da cidade em outros tempos. O material pode ser enviado para: memoriasaocarlense@gmail.com.

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