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domingo, 26 de setembro de 2021
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MEMÓRIA SÃO-CARLENSE - Coronel Sales, a praça das reformas

10 Nov 2017 - 08h04Por (*) Cirilo Braga
Foto: Arquivo Pessoal - Foto: Arquivo Pessoal -

O que será feito agora da Praça Coronel Sales? Era a pergunta da população toda vez que a praça mais central de São Carlos era submetida ao tratamento paisagístico. E não foram poucas vezes.

Chamada originalmente de "Largo Municipal", por abrigar os mais importantes prédios públicos da cidade no final do Século XIX e início do Século XX - o Fórum e a Cadeia, a Câmara, o Grupo Escolar (atual Escola Estadual Coronel Paulino Carlos) e o Theatro Polytheama (depois Cine São Carlos, demolido) - a praça ao longo da história sediou eventos cívicos, culturais e políticos que mobilizaram a cidade. Sua denominação oficial foi oficializada em 1952, pela lei municipal 1.568 que homenageou José Augusto de Oliveira Sales, Coronel da Guarda Nacional e ex-vereador que contribuiu para a inauguração da Santa Casa e da Escola Normal.

Quem vê a praça de cima, nos dias de hoje, visualiza um mosaico de pedras portuguesas tendo ao centro uma rosa dos ventos que nos situa a partir do coração da cidade. Não por acaso: era ali o ponto de encontro dos jovens, o local das grandes manifestações públicas, o recinto de espetáculos e o lugar certo para acontecimentos que não passavam despercebidos a nenhum são-carlense.

Imagens antigas mostram um local arborizado, um recanto de onde parecia poético observar o movimento dos bondes na Avenida, das normalistas e dos operários que deram sempre um toque peculiar a São Carlos.

A mais recente reforma, projetada pelo arquiteto Marcelo Suzuki, buscou dotar a praça de "mais facilidade para a circulação de pessoas". Foi recuperada a pérgula tradicional (originária de 1939, na gestão do prefeito Carlos de Camargo Sales), foi instalado o Museu da Ciência Mário Tolentino e o monumento à atleta Maurren Maggi. Ressurgiu ainda a pequena rua do Teatro, agora denominada "Travessa Walter Blanco", no acesso à Escola Paulino Carlos.

Em 1988, a praça passou por sua mais radical transformação, com a instalação de uma garagem subterrânea, num tempo em que se cogitou até mesmo a derrubada do prédio da Escola Estadual Coronel Paulino Carlos para ampliar o espaço do logradouro público. Um projeto nesse sentido já era estudado desde o início dos anos 1970, quando Bemvindo e a revoada das pombas viviam o auge de uma das mais típicas cenas da paisagem local. Em vista disso, um pombal fez parte do projeto de reforma elaborado pelo arquiteto Jorge Wilheim.

Muito antes, nos anos 1950, árvores frondosas escoltavam a pérgula nas esquinas das ruas Sete de Setembro e Major José Inácio, interligadas por duas ruas paralelas, ao lado da Câmara. Essas ruas facilitavam a vida de quem frequentava as sessões do "Cine São Carlos", um cenário que desapareceu na reforma de 1967.

Foram ali os comícios que levaram o industrial Ernesto Pereira Lopes à Câmara dos Deputados para ser o representante da cidade. Foram ali, nos anos 1970, os confrontos entre a tropa de choque da PM e os estudantes do Caaso, para quem a praça nada tinha de bucólica.

A redemocratização chegou e transformou a praça - já sem o cinema, sem a pérgula, nem as ruas paralelas - num espaço para os comícios das eleições de 1982. O povo se apinhou para ver e ouvir os candidatos que voltavam a concorrer ao cargo de governador pela via direta.

Entre muitas reformas, o ponto de táxi da rua Sete de Setembro sobreviveu e hoje, no local onde são hasteadas as bandeiras nas datas cívicas, se alguém decidir prestar um pouco de atenção, vai notar o detalhe a existência de um tabuleiro de xadrez próximo ao Museu da Ciência. Talvez o detalhe escape ao reparo dos jovens que todas as tardes se encontram na praça, perto do ponto de ônibus diante da sede social do São Carlos Clube, onde de certa forma reeditam o velho footing em plena era digital.

Reformas profundas e outras nem tanto buscam fazer com que a palavra revitalização seja tomada ao pé da letra na Praça Coronel Sales. E isso só se garante quando ao cimento e às pedras portuguesas se adicionar o elemento humano para que a praça seja do povo "como é céu é do condor".

O velho largo municipal segue assim o desígnio de São Carlos, de se transformar de tempos em tempos, sem deixar de se revestir de si próprio - uma cidade, afinal, costuma ser o espelho de seus habitantes. 

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