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quarta, 23 de outubro de 2019
Artigo Antonio Fais

Mata a Cobra...

06 Jul 2019 - 07h00Por (*) Antonio Fais
Mata a Cobra... - Crédito: Divulgação Crédito: Divulgação

...e mostra o pau! Esse era o lema de nossa turma do colégio. O pessoal realmente fazia e acontecia.

Eu, no entanto, era meio defasado em relação à turma, pois meus pais fizeram a sandice de me colocar na primeira série com menos de seis anos! Quanto a aprender, tudo bem, mas no futebol eu era menor que todo mundo e, principalmente, nos anos que se seguiram, quanto às garotas!

Quando fui para o primeiro ano de colégio, já tinha crescido um pouco e, a duras penas, fiquei bom em futebol e era aceito, mas era bem mais novo que todos e descobri aí uma coisa que fazia, principalmente àquela época, uma enorme diferença: sexo! Todos os meus amigos já tinham transado e contavam-me suas façanhas e eu...Nada!

Nessa classe tinha a Verinha. A menina mais bonita que já tinha visto. Quando fui falar isso para um amigo, o Celinho, a decepção: ele já tinha transado com ela, e outros também. Quase todos, menos eu! Pensei comigo que isso tinha lá seu lado bom: pelo menos um dos dois ia saber o que fazer. Mas, por outro lado, ela poderia perceber que era minha primeira vez.

Minha primeira abordagem foi um fracasso. Eu não sabia nem o que falar. Mas fui descobrindo do que ela gostava. Ela tocava violão e cantava. Era década de setenta, bossa nova. Aprendi a tocar e cantar e, em pouco tempo, sabia de cor Vinícius, João Gilberto, Chico, Tom... Isso apenas garantia que ficássemos mais juntos, mas quanto às minhas necessidades, nada. Comigo por perto, ninguém mais chegava e eu já estava com medo dos apelidos: GC, Cantor de Churrascaria, Saladeiro e outros tantos que vocês bem conhecem.

Descobri que ela tinha dificuldades com a matéria de Dona Ivete: português. Em pouco tempo sabia tanto português, que podia ensiná-la – ambos tiramos dez. Assim foi com matemática, física e biologia. Podia não comer ninguém, mas meus pais adoravam minhas notas.

Andávamos sempre juntos. Eu, que gostava muito dela e de sua companhia, fazia investidas sutis, pois não queria perdê-la.

Um dia estávamos em casa. Íamos estudar e ensaiar para tocar juntos no final de ano. Sós, no escritório, não resisti e dei-lhe um beijo. Meu medo era em vão. Ela correspondeu. Quando enfiei a mão por dentro de sua blusa, ela consentiu. Arrisquei um pouco mais e abri-lhe o zíper. Tudo bem, afinal ela já estava acostumada e eu tremia que nem vara verde. Foi quando, de repente, ouço o portão abrir. Era minha mãe. Corremos para o meu quarto como estávamos, nus. A roupa havia ficado em um cantinho. Ela, já no meu quarto, tremia de medo de ser pega naquela situação e eu também.

À minha mãe, do lado de fora da porta do meu quarto, dizia que não estava bem e queria descansar. Era umas três, quatro da tarde. Fomos em frente. Ela chorava. Eu, inexperiente, não sabia o que fazer. Era bom. Eu gostava dela. Acho que gostei daquela primeira vez. Ela parecia gostar de mim, mas chorava. Eu, por não saber o que fazer e, entorpecido de prazer, apenas seguia meus instintos, sem saber se o fazia certo ou não.

Exausto, deitei-me ao seu lado e ao olhar seu corpo, vi uma enorme mancha de sangue em meu colchão. Foi quando ela me confessou ser a sua primeira vez. Achei melhor não comentar que todos na escola já a haviam “comido”. E assim, lá ficamos por umas três horas. Já era noite, minha mãe me chamava para o jantar e a casa já devia estar cheia. E nós tínhamos que sair de lá. Não seria simples. Nossas roupas ainda estavam no escritório.

Escondi-a debaixo da cama, vesti-me e liguei para o Celinho vir urgente à minha casa. Ela sabia que não sairíamos de lá sem ajuda externa e concordou.

Fiz a ele um rápido resumo e falei meu plano. Enquanto distraia o pessoal, ele foi ao escritório e pegou suas roupas e levou-as para o meu quarto, lá constatou tudo que tinha acontecido. Ela se trocou rápido e, em meio a uma pequena confusão que arrumei com minha irmã menor, saiu protegida por ele.

Sem dar muitas satisfações, saí em seguida. Levei Verinha à sua casa e, sem saber o que dizer, pedi-lhe desculpas. Ela olhou para mim com um sorriso meigo e, em um tom de alívio, disse: “Foi o melhor dia da minha vida... Adoro você... Foi tão bom que a primeira vez tenha sido assim... Eu era a única menina da turma que não tinha transado”.

No dia seguinte, todos que tinham “comido” a Verinha me olhavam com respeito. O Celinho já havia contado tudo.

Na hora do intervalo todos estavam reunidos e fui até lá. Pensava em tomar satisfações com o que tinham inventado, mas achei que não valia a pena – coisa de adolescente!

Um deles, para quebrar o clima, sorrindo, com aquela cumplicidade masculina, soltou o nosso lema:

– Mata a cobra...  

– E mostra o pau! – o resto da turma, em coro.

Ao que respondi:

– O pau mostra quem quer contar papo. Mato a cobra e mostro a cobra.

Nos anos que se seguiram, este passou a ser nosso lema! Todos crescemos muito com essa experiência!

Verinha e eu namoramos durante um ano!  E, embora não moremos na mesma cidade, somos grandes amigos até hoje.

(*) O autor é professor e filósofo

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